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, II NUMERO DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
O DESCASCADOR DE ARROZ
Por
Arlete Deretti Fernandes
De minha infância guardo as recordações mais despreocu-padas e felizes. Minha
mãe pouco me deixava sair para brincar fora do espaço de nossa casa. Quando eu
conseguia permissão para sair e sentia a liberdade, muito magrela saía dando
pulos e correndo bem depressa, com os cabelos ao vento e olhando para trás de
vez em quando, com receio de que minha progenitora mudasse de opinião.
Meus cabelos eram grossos e pretos. Minha avó se encarregava diariamente de
trança-los. Tinha um laço de fita em cada trança e a recomendação de cuidar para
não perdê-las...Eu era chamada por meu pai de «a menina das longas madeixas.»
O descascador de arroz situava-se junto a padaria e a residência da familia
proprietária. Quando juntavamo-nos, todos os amiguinhos, nossa maior alegria era
pular do alto do prédio que abrigava o descascador, sobre o grande monte de
palhas do solo. As palhas de arroz, muito leves, afundavam-nos com nossos pulos
e na descida sentíamos um frio na espinha.
Corríamos pela padaria, pelos pastos, como filhotes de aves soltas em bando e
alegres cantarolando. Descíamos os morros verdes de grama, embarcados em calhas
de coqueiro. Não era rara a vez em que voltava para casa com o vestido
confeccionado pela vovó todo rasgado ou com o rosto inchado de picadas de
marimbondos.
A família proprietária deste conjunto era numerosa. O senhor Genaro era
magrinho, sua esposa, ao contrário era uma senhora gorda e corpulenta. Ele tinha
uns costumes que desagradavam a muitos. Blasfemava demais. E blasfêmia saída da
boca de italiano não é nada fraca.
Devido ä amizade com as crianças, andávamos por todos os compartimentos da casa.
Sabíamos que o Sr. Genaro dormia do lado de dentro da cama, encostado a parede e
que Dona Maria dormia do lado de fora.
Certo dia ela contou-nos que precisou dar uma «sova» boa no Genaro. Aproveitou o
espaço que era favorável, pois dali ele não conseguia fugir tão fácil. O motivo?
Era o belo palavreado que nem na cama para dormir ele dava tréguas.
Na língua portuguesa não há a blasfêmia propriamente dita. O povo xinga, roga
pragas, diz palavrão. Mas não blasfema. Com eufemismo, os nossos mais antigos
diziam pardês e pardelhas em lugar de dizer por Deus.
Os franceses convertem a palavra Dieu «Deus», em bieu ou bleu. Em outras
blasfêmias dizem parbieu (par Dieu), morbleu, (mort de Dieu),corbleu (corp de
Dieu) e outras.
Os italianos dizem per Diana, perdinci, perdina, perdícoli, diácine,
perdindirindina. Ouve-se: per crispo (per Cristo), perlamadó, (per La madona).
Em expressões como porco cane, porca loca, etc. Mutilam a palavra porco e porca
e amenizam dizendo:
Orca loca, orco cane. Como também osti, ospia, cramegna, cramento e outras.
Estou fazendo esta digressão por uma questão de curiosidade, porque parece-me
que certas blasfêmias hoje são pouco usadas. As novas gerações as desconhecem,
assim como a grande maioria esqueceu a língua dos antepassados, devido a várias
circunstâncias.
Outro espaço onde adorávamos brincar era no sótão da enorme casa. Hoje ainda
tenho em minha lembrança a imagem da grande escadaria, e o telhado com suas
águas furtadas. Havia alguns lugares onde o teto era baixinho e nós, mesmo
pequenos, batíamos com a cabeça. Muitos eram os quartos de dormir.
Certo dia correu pela vila a notícia de uma situação ocorrida que se tornou
cômica. Foi quando uma enorme cobra caninana, também chamada de rateira, entrou
pela janela do sótão e começou a caminhar por cima das camas. As crianças
gritaram e o Sr. Genaro apareceu com um revólver carregado. Muita ospia,
cramegna e outras palavras saíram-lhe pela boca.
Genaro estava branco e suava frio, e não acertou um tiro que fosse na caninana.
As balas de revólver furaram colchoes, lençóis e outros objetos e a cobra saiu
pela janela e pela cumeeira, com toda a calma. Ao relatar a façanha, o atirador
considerou-se o próprio Don Quixote, tal o ato de heroísmo. Certamente que
precisou acertar as contas com Dona Maria.
Hoje, quando me recordo deste quadro, eu imagino:
- Não seria a Cobra Norato que por aquela região estava de passagem? Se fosse
ela, tenho certeza de que Raul Bopp diria:
-«Quero contar-te uma história
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar»
A família de Genaro e Maria era como um filme, tantas as cenas representadas
pelos mesmos. Todo ano havia na vila a grande festa da padroeira. Neste dia, uma
das meninas gêmeas, brincando no balanço que era feito de duas cordas e uma
taboa amarradas em um galho de uma árvore, caiu e fraturou o braço.
Dona Maria estava a trabalhar nos bazares da festa da igreja, como fazia a
grande maioria dos fiéis moradores. A situação, mais do que esdrúxula, chamou
rápido a atenção da vizinhança e de quem passava .Genaro saiu a rua, e em frente
a própria casa gritava:
-Quanto mais eu ajudo a igreja, mais desgraças me acontecem. Eu vou trazer toda
a minha família e deitar todos no caminho para um caminhão passar e matar tudo.
Ospia, porco cane, cramenta ...
Uns fechavam os ouvidos e outros riam. Chamaram a Dona Maria na festa, que
largou tudo e veio rápidamente, com as mãos á cintura. O acerto de contas eu não
sei até hoje qual foi!!! Apenas imagino...
Poema de Arlete Deretti Fernandes
Chuvas de verão caem torrencialmente.
Exala para dentro de casa o cheiro
de terra molhada, de grama cortada,
que o calor expande deliciosamente.
Suave perfume exala do jasmim miúdo
e florido. Na história que li, estas florzinhas
eram preferidas de D. Pedro I, quando
Imperador do Brasil. E ele mandou plantá-las
Por muitos lugares do Paço Imperial.
Esta imagem faz delinear-se em minha mente
A beleza da Família Imperial,
Os salões de festas, as danças e saraus.
Contemplo o que passou e o que foi vivido.
As damas e os cavalheiros, as roupas da época.
Os amores escondidos, os segredos que no tempo
Ficaram esquecidos. E a vida é como estas flores’
Em tempo e em duração. Algumas fenecem e o
Sol também as castiga até a próxima estação.
Empresários da CPLP criam confederação

Os empresários da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) criaram hoje em Bissau uma confederação empresarial, instrumento que consideram «estratégico» para uma nova dinâmica no espaço lusófono.
A criação da confederação foi decidida por unanimidade na reunião da
assembleia-geral extraordinária do Conselho Empresarial da CPLP, declarou aos
jornalistas Jorge Rocha de Matos, presidente da AIP (Associação Industrial
Portuguesa).
De acordo com Rocha de Matos, que presidiu à reunião que, na prática transformou
o até aqui Conselho Empresarial da CPLP numa confederação, a intenção é levar os
países lusófonos a formarem um novo bloco económico com o qual poderão
participar na economia global.
«E o princípio de uma nova era a nível empresarial» no qual cada país deverá
potenciar a sua integração na sua organização regional a favor dos restantes
estados lusófonos, defendeu Rocha de Matos.
Hoje, aqui em Bissau, estamos a constituir um importante instrumento de
cooperação empresarial com o qual vamos deixar de competir uns com os outros, a
passar a haver complementaridade entre os nossos países e economias», disse
ainda o presidente da AIP.
Por seu turno, Francisco Murteira Nabo, na sua qualidade de presidente da ELO e
representante de Portugal no extinto Conselho Empresarial da CPLP, defendeu que
o que se pretende é ter a confederação em pleno funcionamento até meados de
2010, altura em que a presidência da CPLP passará de Portugal para Angola.
Eduardo Neto, presidente da Confederação da Indústria do Brasil, assinalou, por
seu turno, que se assiste «a uma verdadeira revolução global na dinâmica
económica» que será proporcionada pelos oito países da língua portuguesa.
Um fundo financeiro, cujo montante ainda está a ser estudado, será criado para
dar cobertura às iniciativas no âmbito da confederação ora criada, mas para já
foi entregue ao presidente da Câmara do Comércio, Indústria e Agricultura (CCIA)
da Guiné-Bissau a presidência da instituição.
Os actuais corpos sociais do conselho empresarial transitam automaticamente para
as estruturas da confederação empresarial da CPLP.
De acordo com, Francisco Mantero, secretário-geral do extinto Conselho
Empresarial, as transacções económicas dos oito países da CPLP à escala global
representam cerca de 60 mil milhões de dólares, mas apenas dois por cento são
feitas entre si.
Com a criação da Confederação, os oito estados lusófonos pretendem alterar
radicalmente estes dados, o que, sublinhou, Mantero, passará pelo incremento de
mais trocas comerciais entre os países da CPLP.
Angola : Presença feminina longe da sua força

A secretária nacional da Organização da Mulher Angolana (OMA), Luzia Inglês «Inga», (na foto) considera que a representatividade feminina a todos os níveis ainda está abaixo da grande força humana da maior organização social do país, com 2.178.738 membros.
A organização feminina do MPLA representa 51 por cento do total de militantes do partido do Governo, mas Luzia Inglês considera que a nível das estruturas do partido o número de mulheres eleitas recentemente no processo orgânico é escasso, indicando que somente 11 por cento de mulheres foram escolhidas para o cargo de primeiras secretárias provinciais e 16 por cento para segundas secretárias.
Esta cifra, segundo Luzia Inglês, contraria em cerca de 44 por cento o número de mulheres eleitas no congresso de 2005. «Isto significa que de oito segundas secretárias passámos para três, nas províncias do Bié, Moxico e Lunda-Norte», referiu.
Luzia Inglês, que discursava na cerimónia de encerramento do VI Congresso ordinário do MPLA, quinta-feira, reconheceu que as mulheres estão orgulhosas pelo facto da representatividade feminina do partido no Parlamento ter crescido 43,1 por cento.
«Esperamos que estas situações possam ser corrigidas no futuro para que a sabedoria, vitalidade, disponibilidade e grande espírito de tolerância e de sacrifício das mulheres possam contribuir cada vez mais para reforçar o MPLA», referiu.
Luzia Inglês disse que a OMA cresceu 25 por cento desde o congresso de 2005 e tem agora mulheres enquadradas em 39 mil secções no país e no estrangeiro, o que se reflecte na adesão de mulheres de todas as classes sociais, idades, profissões e religiões.
No dia de encerramento do VI Congresso do MPLA realizado no Centro de Conferências de Belas, a OMA exibiu todo o seu poderio organizativo, apresentando em desfile mulheres de grupos sociais que congrega no seu seio.
Vendedeiras ambulantes, jornalistas, juristas, camponesas, bombeiras, estudantes exibiram-se para os 3.125 delegados ao conclave.
Luzia Inglês reconheceu que para alcançar a equidade, as mulheres têm de investir na sua formação e preparação, sobretudo as jovens.
«Já provámos que podemos ser boas engenheiras, distintas catedráticas, comandantes de aviões de grande porte, operárias, governantes e gestoras, colocando sempre os interesses colectivos acima dos interesses pessoais», sustentou.
A secretária nacional da OMA considerou indispensável colocar à disposição da mulher facilidades no acesso ao micro - crédito, uso da terra, escolas, creches, postos médicos e mercados rurais.
Luzia Inglês assumiu que actualmente a maior atenção das mulheres está voltada também para o estudo e aprovação da Constituição.
A secretária nacional da OMA manifestou, contudo, o seu orgulho pelo facto de terem sido eleitas no VI Congresso 113 mulheres para o Comité Central, cerca de 37 por cento, superando em 10 por cento o número do V Congresso.
