Pagª 11 - EDIÇAO Nº L , II NUMERO  DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         


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Maria da Fonseca - Poemas

VIVER EM HARMONIA

Ao nascer recebemos nossa vida
Com lágrimas, dor e perseverança,
E o esforço, a vontade e a aliança
De nossa mãe, companheira querida.

A luta dia a dia é renhida
Desde os primeiros passos de criança,
E pela vida fora com ‘sperança
De nossa dignidade percebida.

Qualquer que seja a raça, a minoria,
Crença, família ou fragilidade,
Assumimos viver em harmonia,

Ter p’lo irmão solidariedade,
Tratar seus valores com cortesia
E defender a sua liberdade.


PRENUNCIO DA PRIMAVERA

Penso espreitar-te daqui,
De mim ‘stás muito afastada,
Mas há pouco fui aí
E fiquei maravilhada.

Linda magnólia rosada,
Cada rebento, uma flor!
Cada pétala pintada
Pela mão do Criador!

A meio de Fevereiro
Primavera prenuncias,
E és sempre a que primeiro
Vens colorir os meus dias.

Apesar do teu recato
Bem junta à maternidade,
Atrais a vista e o olfacto
E encantas com amizade.

As abelhinhas felizes
Sugam o néctar das flores
Em cor-de-rosa e matizes,
Cumuladas de louvores.

O chão juncado de pétalas
Torna efémera a lindeza,
E só restarão as sépalas
Dentro de dias, princesa.

Serás bela novamente
A par de outras irmãs,
Verdes folhas de presente
Em orvalhadas manhãs.


HOLOCAUSTO

Sempre recusei imagens
Que da guerra me falassem.
Fotos, filmes e passagens
Que a maldade me lembrassem.

Meus parentes a sofreram,
Sem pecado cometerem.
Pelo sangue os ofenderam,
Quem sabe se até morrerem.

O tempo, que tudo cura,
Não afasta minha dor,
Nesta Terra em que perdura
O conflito, o desamor…

Agora todos lastimam,
Nem todos, que ironia!
Ainda há os que sublimam
Quantas mortes, que heresia!

O padecer dos que imploram
Aviva a minha memória.
Não são meus olhos que choram,
É minha alma em sua história.

Defendei os seus direitos,
Homens bons de coração.
Geri todos nossos feitos
Para bem do meu irmão!


A Lenda de S. Vicente

Reza a lenda que Vicente,
Feito mártir em Valência,
Suas relíquias levaram
Com devoção e prudência.

Seu destino, a nossa costa,
O cabo a que deu o nome,
Nesse Algarve muçulmano,
Até hoje de renome.

Assim nosso Rei primeiro,
Logo que foi sabedor,
Mandou vir rumo a Lisboa,
O corpo do Protector.

Em toda a viagem, contam,
‘Steve o Santo acompanhado
Por negros corvos atentos,
Não saindo do seu lado.

E quando a barca ancorou,
Uma procissão ‘sperava,
Levando então S. Vicente
Para a Sé que o aguardava.

O filho de Henrique, Afonso,
Tomou-o como Patrono,
A quem dedicou Lisboa
Onde dorme eterno sono.

No distinto brasão de armas
Desta tão leal cidade
Vêm-se os corvos e a barca,
Símbolo da Cristandade.

Esta a lenda curiosa
Pra todo o sempre presente
Na nossa amada Lisboa.
- Os corvos e S. Vicente -

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JORNADA CREPUSCULAR

SARAMAGO: UM ATEU PERVERSO

Por Mário Matta e Silva

Passeio-me com a Bíblia por entre as mãos e vou viajando, de parábola em parábola, durante a jornada crepuscular dos nossos dias, atento à polémica em volta do escritor Saramago.

Reparo nas reacções e confrontos com as palavras deste assumido ateu, mais do que ao seu livro agora editado, CAIM, e sinto quanta perversidade existe na sua acalorada afirmação de que a Bíblia «é um manual de maus costumes».

Tenho por mérito conhecer-me como um crente pouco participativo mas leitor atento da Bíblia e do antigo e novo Testamentos, mas não é por isso que não posso ajuizar do comportamento de um português que auto se «exilou» nas Canárias.

A maior acusação que posso fazer às afirmações de Saramago é a de que a forma e conteúdo das mesmas são de um desajustamento enorme face ao nível intelectual que se lhe exige. Mostrou Saramago, nestes últimos dias, ser um ateu perverso dada a forma perigosamente fanática com que se arroga das suas conclusões.

Nada mais fácil poderá ter feito para negar a Deus, escrevendo-o com minúsculas e opondo-se à sua existência, reinventando a sua não existência. Quanto a Caim, os escritos dos primeiros tempos (Antigo Testamento) mostram à saciedade que é do mal e do bem que se fala, que é destas duas forças que se vivenciam pela humanidade de que se «verseja».

Caim, frente a seu irmão Abel, detém o poder do mal, e lemos assim na História da Bíblia esta passagem: «(…) Caim porém guardou rancor no coração, e um dia, tendo convidado o irmão a ir passear com ele ao campo, arremeteu ao inocente Abel, e matou-o.»

Para no fim desta passagem se afirmar: «E pôs Deus um sinal em Caim, o qual se retirou da presença do Senhor, e começou vida errante e fugitiva.» Entre a vigorosa alegoria do rancor e da vingança (expressões do mal) e o castigo, assinalando-se aqueles que praticam o mal, existe uma força teológica e litúrgica superiores.

Saramago ao negar a transcendência divina nega logo a possibilidade de um castigo divino e o repúdio do mal perante o bem. Na sua escrita barroquizada e marcadamente personalizada, como no Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) mostra a mesma anarquia vernácula que usa na sua forma oral de comunicar, adicionando-lhe a arrogância com que quer demonstrar a posse do saber definitivo e único.

Não tem certamente Saramago esse direito, como ninguém o tem, em relação ao saber universal em todas as vertentes do conhecimento. Um leigo não pode falar com tanta prepotência… e Saramago para muitos planos do saber é um leigo, mesmo que detentor de um prémio Nobel.

Confrontar a origem divina do homem é legitimo e é viável intelectualmente, quando defendido por um descrente, mas não o é confrontando o seu semelhante arrogando-se de todo o saber em absoluto. Para além de um risco é uma soberba e um desrespeito para com o seu semelhante, cristão ou não cristão, praticante ou não praticante, leitor das Sagradas leituras ou não leitor.

Aliás a sua arrogância impõe-se normalmente até quando quer ironizar, como no caso do seu livrinho ridículo Viagem do Elefante. Saramago não constrói nada sem destruir, pela escrita e pela palavra. Este narrador mistura tempos históricos e exalta a sua verdade perante os escritos onde as alegorias, os mitos, as forças da natureza se evidenciam sem levarem o leitor a outra forma de romance ou de ensaio que menos necessitam de descodificação.

Saramago quer vender o seu livro Caim até a quem não leu «Abel e Caim» na Bíblia ou a quem, como ele, não entende a harmonia do todo lendo as partes, parábola a parábola, como se de uma lição litúrgica se tratasse. Negar Deus desta forma, é a negação pelo absurdo, de quem, como ateu se opôs mesmo aos ateus no seu todo dialogantes e respeitosos.

Por isso, até contra os seus semelhantes ateus ele se rebelou. Tudo que possa ser dito em oposição a Saramago, por eclesiásticos ou por leigos, será bem recebido, pois a liberdade de expressão é um bem adquirido, não só para blasfemar, para negar a Deus, para desconhecer o conteúdo histórico e litúrgico da Bíblia, para transfigurar mitos e lendas como ele o faz.

Muitos leitores (ou meros compradores) dos seus livros, estão ávidos de presunção para colocarem mais um livro de Saramago nas suas bibliotecas, mesmo que não o leiam. Para compreender o livro Caim, é preciso conhecer bem a Bíblia… e quem a conhece melhor do que os seus estudiosos teólogos ou leigos que sejam? Assim será senhor Saramago, a sua verdade não é a ultima e infinita verdade, como pretende que seja na sua soberba de descrente convicção.

E assim que eu sinto hoje, através das minhas jornadas crepusculares, a perversidade de José Saramago, que prefere impor ditatorialmente a palavra em prosápia que exprime arrogância, sem nada que se assemelhe a uma atitude genuinamente democrática, agitando a musculada afirmação marxista do «ópio do povo».

Eis a forma como o autor sente «a profunda maldade do senhor» (pag. 106 de Caim) inculcando não um Deus, mas tão e simplesmente uma «ideia de deus» misturando-se assim com os vendilhões do templo.

25 de Outubro de 2009

MARIO MATTA E SILVA