Pagª 35 - EDIÇAO NºL
, II NUMERO DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Poesia de India Libriana

DESESPERO DE UMA LAGRIMA
Na mitologia és eterna no lamento de Níobe
pela vingança de Leto, perduras em dilúvio
e no monte Sépilo és real em toda a orbe
às vezes és anteparada mas de nós ainda o alívio...
No coração fazes a tua nascente sem agaloas
ora errante pela face, ora jorrante pela alma
sempre com a missão de lavar o desaire das fráguas
dos entes em privação ou em excesso de calma...
Agigantas-te em muralhas, na eternidade da prece
na imensidão do amor, no viver e na saudade
das coisas e entes nossos no agrado e no desgosto
Das nossas existências e do tudo que deles fenece
resta apenas o inteligível de ti e tua amenidade,
mas não te afliges! Caís tão bem nesse rosto.
ESTAR SEM TI
Estar sem ti é morrer de morte nascida
é dilacerar no escuro da noite perdida,
é despir sonhos sem ardor e sem calor
e vestir versos de aparente fulgor...
Estar sem ti é tropeçar na ira da loucura,
é desalentar com ténue candura,
é correr da Lua para a alma apaziguar
e afogar na vastidão do seu luar...
Sem chão nem pão e á fome de teus mirares
tantas afeições e noites divagando dores
na via de flores abrindo botões... de espinhos...
E um estar verde e não ter seiva na veia,
é um estar amando e não ter campo que medeia
o início e o fim dos sonhos que ficam pelos caminhos...
(17Outubro2007)
A carne do sol
Poema
de Se Gyn
Em ti, como se fosse o véu da lua
o olhar de moça linda
e alma nua
Em mim, como se fosse a carne do sol
o olhar de armeiro loução
e alma pálida
O que anda e arde em mim e em ti
em tudo distante e diferente
referente, porém
que nos une
e bem
vamos pra casa, balançar na rede
matar toda a minha fome
saciar toda tua sede
o que impede
nos impele
a porta
a pele
o que vês em mim
o que vejo em ti
a lua que abriu
feridas no sol
e se partiu
tão ferida
e febril
vamos agora embora
como deuses vãs
antes das horas
antes dos dias
num jogral
de astros
sol e
lua
Borbololetas - Da Guerra à Paz
Conto
/ Crónica Por Sandra Fayad
Na Horta Comunitária há pássaros como o sabiá-laranjeira, sabiá-amarelo e o rajado, que fazem ninhos na mangueira e cantam maravilhosamente todas as manhãs na primavera-verão (no frio, ficam mais reclusos como eu ...).
Há também beija-flores que descem do oeste para o leste varrendo toda a área como furacões a procura de água doce (reclamam vigorosamente se esta lhes faltar); rolinhas, sabiás, periquitos.
Há pombos, que aparecem em três estações, exceto no inverno (ninguém é bobo!); lagartixas, que moram nas calhas d’água que descem do telhado (só na época da seca, é claro!); gaviões, que aparecem de vez em quando para comer os ovos dos pássaros; morcegos (só quando há mangas maduras).
E uma enorme população de minhocas. E há também as borboletas. Estas já representaram dor de cabeça, levando-me à sua perseguição sem tréguas.
Durante todo o ano, há uma quantidade significativa delas sobrevoando as plantas da horta, especialmente sobre as que possuem propriedades importantes para a saúde, como couve, agrião, rúcula, maracujá, capuchinha. A preferência delas recai sobre as duas últimas.
Lá na chácara que vendemos em 2005 era difícil controlar seus ataques devido ao tamanho da área plantada e à distância maior dos canteiros em relação à casa. Quando percebíamos, já era! Os canteiros de capuchinha com lindas flores coloridas haviam sido simplesmente exterminados.
Mas não pensem que as borboletas comem capuchinha. O que ocorre é que elas põem ovos sobre as folhas verdes já desenvolvidas. No caso das demais plantas, a situação é pior: agem com aparente covardia, pois se aproveitam da fragilidade das folhas ainda tenras para fazê-las desaparecer.
Em pouquíssimo tempo, as dezenas de ovinhos amarelos depositados nas partes aparentes da folha se transformam em lagartinhas marrons ou pretas, que de forma mágica se mudam para o lado contrário, onde se instalam como forma de proteção e sobrevivência.
Ali se desenvolvem a custa de devorá-la - como se fossem serras - das beiradas para o centro e sempre pelo lado do avesso da folha. Em cerca de três dias de come-come, percebe-se que as folhas estão ficando dentadas.
Aparecem então lagartas gorduchas nelas grudadas que, se forem esmagadas, soltam um líquido verde. Se não, é dali que surgem novas borboletas, que vão por mais ovos sobre as meninas dos meus olhos.
Por causa disso já esperneei e xinguei as borboletas, principalmente as brancas, as mais freqüentes. Elegi todas como inimigas e lhes declarei guerra sem tréguas. Deixaram-me tão paranóica que houve períodos em que eu vistoriava folha por folha e sentia o prazer assassino de eliminar grupos inteiros de lagartinhas ou lagartas gorduchas que, camufladas, haviam me enganado.
Depois, com a consciência pesada por estar matando um animalzinho em desenvolvimento, comecei a atacar os ovinhos antes que virassem lagartas. Mesmo assim, não considerava correta a minha atitude.
Comecei então a derreter fumo na água e pulverizar as plantas para evitar que as borboletas depositassem nelas seus ovos. Conversava comigo mesma e admitia que, mesmo com esse progresso, continuava a interferir na natureza, e experimentava a sensação de culpa.
Um dia elas, sentindo-se prejudicadas, resolverem me rodear em bando, justamente quando eu estava aplicando nos canteiros água de fumo com o pulverizador. Percebi que queriam me expulsar do local, circulando de forma decidida ao redor da minha cabeça para que eu desistisse daquela tarefa.
Em outras oportunidades, vinham em duplas (vários casais) a me avisarem que ali estavam seus filhos sendo intoxicados com aquele produto. Pareciam falar aos meus ouvidos.
Coloquei-me em seus lugares e pensei:
- Que tristeza para uma mãe ver seus bebês sendo mortos ou prejudicados!
- E se elas entrarem para a lista dos animais ameaçados de extinção por minha
culpa?
Mas, o que fazer? Deixá-las destruir todas as belas flores que «... transportam rios de vitamina C» como escrevi na poesia à Capuchinha?
Depois de muito pensar, surgiu a idéia de definir um local à parte para seu uso
exclusivo.
- Não é que deu certo?!
Lá elas têm plantas sobre as quais põem ovos e cuidam dos filhotes em paz. Agora, estamos convivendo harmonicamente. Vou fazer-lhes diariamente uma visita oferecendo -lhes água.
Elas, por seu lado, compreenderam que não compensa botar os ovinhos nos demais
canteiros de capuchinha ou de outra verdura onde haja o risco de serem
pulverizados com defensivos. Mesmo assim, estão sempre sobrevoando toda a
plantação, onde lhes desejo carinhosamente:
- Bom-dia, meninas!
Borboletas,
Impossível aos olhos ignorar
Teu vôo silencioso
Seguido do escudeiro par;
Buscas leito auspicioso
Para com teus ovos
O verde dourar...
Enlargatar!.
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