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, II NUMERO DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Abílio Pacheco

Sobre mim
Sou professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Pará – Campus
de Bragança. Trabalhei por 5 anos no Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Pará – IFPA (antes Centro Federal de Educação Tecnológica –
CEFETPa), onde ajudei a instalar o curso de Licenciatura em Letras e fui
coordenador do mesmo. Faço parte do grupo de pesquisa Investigações em Narrativa
Contemporânea de Língua Portuguesa.
Tenho mestrado em Letras – Estudos Literários pela UFPa, algumas pós-graduações
intermediárias, Graduação em Letras pela UFPa – Campus de Marabá e curso técnico
de Magistério pela Escola Estadual Dr. Gaspar Vianna (Marabá).
Atualmente moro em Belém, mas nasci em Juazeiro/Ba, passei minha primeira
infância em Coroatá/Ma e morei por mais de 20 anos em Marabá. Tenho um livro de
poemas publicado: ‘mosaico primevo‘ (2008) e outro em formato semi-artesanal: ‘poemia’
(1998). Alguns poemas e contos foram publicados em sites, blogs, revistas
virtuais, livros e antologias.
Recebi algumas outorgas resultantes de concursos literários, sendo a mais
importante delas o 1º lugar ‘Estilo Moderno’ no IX Concurso Nacional de Poesias
– Irene Santini, organizado pela Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande,
quando eu tinha 17 anos.
Na área acadêmica, veja meu currículo na plataforma lattes.
É clichê dizer que é difícil falar de si, mas é fato, por isso paro aqui.
Poema de Abilio Pacheco
Quando Dezembro chegar
Meu mano e uns conhecidos
Reunidos todos em festa
De copos cheios na mão
Cantarão, me abraçarão
E hão de quebrar
Em meio a risos e risos
Uns ovos em meus cabelos.
Quando Dezembro chegar
Não serei mais o mesmo
Contarei mais umas rugas
Uns tantos fios a menos
E outros claros a mais.
Quando Dezembro chegar
Estarei na face fria
Do mesmo espelho que há anos
A rir de mim para mim
Vem sempre me revelar
O que o tempo vem esculpindo
Em meus rosto dezembral.
Quando Dezembro chegar
Terei juntas mais duras
Movimentos mais lentos
Mãos um pouco mais trêmulas
Cansados olhos castanhos
Ralos cabelos grisalhos
E não entenderei gíria alguma
Que os meus filhos disserem.
Quando Dezembro chegar
Onde estarão os amigos?
Os ovos? Os copos?... Quebrados!?
Os filhos estarão casados.
O espelho velho embaçado.
Os filhos dos filhos crescendo.
E os olhos de mim... quebrados.
Bento

Conto de Abilio Pacheco
No bar, à noitinha, homens jogam sinuca, bebem, falam das mulheres que passam na rua... Bento sai do trabalho; cansado, camisa batendo de suor, para em frente ao bar, entra, senta, pede uma cerveja... bebê o primeiro copo de um só gole e pensa na vida:
A casa de tábua que há muito já quisera ele mesmo construir de alvenaria; até comprara um milheiro de tijolos, erguera uma parede, começara uma outra e o dinheiro não dera para mais nada.
A mulher dava aulas na única escola do bairro, uma creche pequena de apenas três salas, todas de madeira. A filha mais velha, 09 anos, cuidava da casa, limpava, fazia a comida lavava as ouças, cuidava do caçula, de dois anos, pela manhã, à tarde ia estudar e o deixava com a outra irmã de seis anos na casa de uma parenta da mãe que chamavam Tia mesmo sem saber se era realmente tia ou não.
Bento pede outra cerveja, nisso chega um amigo que senta e pede um copo.
O amigo, também pedreiro, fala futilidades; Bento olha a rua e deixa o olhar se perder, o pensamento vaga ao som da voz do amigo e de um breguinha que toca no bar...
Lembra de quando era menino, o pai chegava tarde da noite em casa, sempre bêbado; a mãe, impaciente, esperava na porta olhando a rua de uma extremidade a outra, ele acordava ouvindo os passos macios rondando a casa, levantava e dizia ir ao banheiro, quando se deitava custava a dormir, e às vezes só dormia depois que o pai chegava, brigava, xingava e até batia na mãe; outras vezes conseguia dormir e acordava ouvindo o pai brigando; triste, no quarto, Bento chorava, pensava besteira fazia planos, enchia-se de esperança no futuro; dormia...
O amigo pede outra cerveja e continua conversando... «Aquela ali, olha!» aponta uma vizinha que passa «Vive de chamego com um moleque que passa o dia vadiando pela rua com outros da mesma laia, tem gente com gosto pra tudo...» balança a cabeça negativamente e vira o copo na boca.
Bento que já não divaga mais, se ajeita na cadeira, espicha o pescoço olhando a vizinha que sobe a rua; finalmente dá atenção ao amigo.
Ficam conversando futilidades, esquecem os problemas que carregam.
Enquanto bebem, o tempo corre na rua com os carros que passam... vai ficando mais tarde... mais tarde... e o tempo passa a andar lento com as poucas pessoas que vagam na rua quase deserta.
As garrafas de cerveja se reúnem embaixo da mesa; Bento levanta trôpego, vai ao banheiro, escuuuuuro... e miiiiiijaa...
Voltando, olha as garrafas vazias sob a mesa, senta e vê que o amigo parece meio esquisito, a noite estranha, a rua torta, o corpo tonto... os olhos teimam em não mais ficarem abertos...
Bento apaga... A noite continua a mesma com o tempo suave deslizando no asfalto rua abaixo...
-- Acorda , Bento! Já é hora de ir trabalhar. – a mulher o chama da porta do quarto, a cabeça dói de ressaca, o corpo pesado, os olhos irritados com a luz; fica rolando na cama, depois levanta e vai banheiro ouvindo a mulher contar que o amigo e mais dois trouxeram-no para casa, deram-lhe um banho e um café amargo que ela passara às pressas.
Sentando à mesa, Bento lembra do pai que chegava porre em casa e brigava e xingava e batia na mãe...
Sai para o trabalho com a mesma lembrança da infância e vai recordando os pensamentos, a esperança que tinha, os planos que fizera para o presente...
Em casa, a filha de 06 anos pergunta:
-- Mãe, por que o papai bebe? – a mãe, no jirau, deixa o olhar perder-se triste
no azul do céu enquanto os olhos umedecem.
A filha, fica sem resposta...