Pagª 23 - EDIÇAO Nº L , II NUMERO  DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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A FESTA DA ILHA

Por Manuel Fragata de Morais

(Ver Notas Biográficas)

Desafio abertamente qualquer um a contradizer-me, a desmentir-me que, quando a kianda era alimentada com o cartão de abastecimento do Ministério do Comércio Interno, a festa da ilha não era muito melhor, muito mais viva, alegre e participativa. E olhem, até nem chovia para estragar tudo, precisamente no momento exacto em que as kalundús, em seus garridos trajes vermelhos, desciam ao bordo do mar iniciando a cerimónia. Foi um Deus que me acuda com todos os presentes a bazar, porque molhar-se no mar é uma coisa, é digno e estimulante, ser molhado à toa e de sapatos, é outra.

Será que as divindades dos ares(que nome terão, aviandas?) ficaram enciumadas porque para elas não se vê sequer a TAAG ir pôr toalha rendada e farta nas nuvens, e toca de mandar água farta cá para baixo?

Esta festa, como a passada, andou fraquinha. Bem sei, os tempos estão difíceis. Com uma chapa de zinco a cinco milhões, não há barraca que se aguente montar. Minha amiga Antónia, que mantém barraca de comida nos trapas lamentava-se, amargamente arrependida, ter solicitado autorização para colocar uma filial à berma da estrada, para estes três dias.

«Ai vizinho, a grade está quase a quatro milhões, o frango a dois e meio, agora ainda com a chuva as massas não aparecem...»
Coisas da inflação e da kianda!

Porém o melhor da festa para mim, foi a parte explicitamente cultural e que não teve nada a ver com a Organização. Fui arrancado do noticiário, aí por volta das 20.45, por um alarido enorme na rua. Para meu espanto, cliticlop, cliticlop, cliticlop, passa diante da casa, em furiosa cavalgada, um boi nativo.

«As pacaças do parque fugiram oh meu Deus!», foi logo o meu pensamento, só para recordar que as ditas cujas devem hoje estar a falar Afrikaans. Uns dez minutos depois, cliticlop, cliticlop, cliticlop, o replay no sentido inverso.

Eis quando da turba que já pensava ter-lhe saído o totoloto, um mais afoito ou cuja fome era mais acentuada, no melhor estilo de um Prudhomme que não actuasse no Benfica de Lisboa, mas sim nos Forcados de Santarém, em voo olímpico, consegue agarrar-se ao rabo do boi e lá ele arrastado, esfacelando-se todo no asfalto.

Mas como a fome miseris est, ou ainda que, por um apurado instinto empresarial, não largou e o boi foi derrubado.

O que fazer a seguir? A turba quer o seu quinhão, sobretudo já corria a boca livre que os bois estavam a ser descarregados na floresta e iam para o Frescangol.
«Traz catana! Quem tem catana?», gritava o nosso Prudhomme forcado.
E a catana que não saía!...

Finalmente, o meu vizinho Delfim produziu um machado e a besta foi abatida, sem qualquer compunção, ali mesmo no meio da estrada, os condutores tentando adivinhar se tudo aquilo seria para a kianda. Antigamente só se punha churrasco, vinhinhos bons porque pelo resto a divindade era vegetariana. Mas isso era antigamente, hoje a kianda come muito, só que ninguém é que não lhe dá.

O boi abatido, sem dó nem piedade como referi, há que fazer a repartição, a divisão. Nesse momento até estive quase a sugerir que se arrastasse o animal para o meu quintal. Na repartição foi onde o nosso Prudhomme- forcado quis destorcer o rabo, mas não o deixaram.

«Quem lhe apanhou fui eu!...», disse o voador esfolado.
«Mas nójú é que ajudámo!...», replicaram logo vários empresários nacionais.

«O machado é meu!...», lembrou vizinho Delfim.

«Eu só quero as miudezas para fazer jinguinga!...», procurava a vizinha Mabunda.

«Quem lhi viu é su eu!...», ouviu-se, de um miúdo atrevido.

Resumindo, estava quase a sair tiro, sai sempre e sobretudo porque ninguém quer, quando miraculosamente apareceu a amiga antiga, a outrora sargento Beti, hoje já com alta e devida patente, a pôr ordem naquilo tudo.

A distância, fez-se o velório dos bifes e da jinguinga, bem guardados por quatro polícias.

14/11/94

FRAGATA DE MORAIS
IN «MEMORIAS DA ILHA», LIVRO DE CRONICAS PUBLICADO PELA EDITORA NZILA  

 

 

CORONEL FABRICIANO
Juventude

 

BENEDITO FRANCO

Nossos países gastam, este ano, com armamento - armas! - nada mais nada menos que um trilhão e oitocentos bilhões de dólares!... ( $ 1,800,000,000.00!). Com 10% disso, eles matariam a fome de toda a humanidade!
A negra África, o continente com mais riqueza em seu solo, explorada pelos brancos, é o que mais fome sofre!
A mais forte das ações é o abraço: vem à tona o amor, a amizade e une dois corações!

RIO DE JANEIRO

061 - Tônia Carreiro na minha cama

Levei Tônia Carreiro para minha cama... Acreditam?

Tônia Carreiro, artista de teatro, TV e cinema, casada com um dos maiores diretores de cinema do mundo e mãe do Cécil Thiré, na época a mulher mais bonita do Brasil, foi parar na minha cama...

Quando cheguei ao Rio, bem recebido pelos primos José Morais e Vianney - moravam em Santa Tereza (na casa da Jujú). Por dois longos meses, residi no início da Rua Mem de Sá, no bairro da Lapa, por onde passavam os caminhões, dia e noite, noite e dia, levando a terra do desmonte do morro Santo Antonio, para o aterro da Glória, Flamengo e Botafogo.

Meu quarto, no segundo andar, era o da frente da pensão. Imaginem viver no meio da poeira;
acho difícil alguém fazer idéia de como era tanta e terrível a sujeira - meu lençol ficava da cor da rua. Além das boates, uma de cada lado, a famosa Boite Novo México e outra em frente, passavam ainda os carros e ônibus, assim como os bondes com seu tremendo barulho.

Dividia o quarto com o Eugênio, um polonês criado no Paraná, um poliglota que trabalhava como intérprete em um hotel de luxo em Copacabana e insistia para eu aprender polonês - acabei falando algumas palavras, mas é uma língua difícil para nós brasileiros.

Copacabana

Mudei-me para Copacabana, na Barata Ribeiro, visinho da Dircinha e Linda Batista. Na rua vi a Dolores Duran, no auge da carreira, com sucessos nas rádios; no centro do Rio esbarrei com o Dorival Caime - um passante virou-se para mim e falou:- Esse cara é o compositor do «Boi da cara preta».

Conheci o Severino, um nordestino analfabeto, admirado na região, pois conhecia todos os ônibus e seus roteiros, que passavam pela Rua Barata Ribeiro; dava suas informações em frente à casa onde eu morava e trabalhava na construção de um prédio ao lado.

Naquela época, as escolas noturnas eram raras, mas havia uma perto. Consegui convencer o Severino a se matricular, apesar do trabalho duro de ajudante de pedreiro - mais tarde chegou a concluir o curso superior - mandou-me o convite para a formatura.

Catete

No Catete, na Rua Santo Amaro, 51, AP 602, no edifício em frente aos portões colossais e coloniais da Beneficência Portuguesa, tive como companheiro de quarto o Toninho, um mineiro inhapinhense, secretário do presidente da Brahma. Quando a Usiminas começou, pedi ao Toninho que conversasse com o presidente para me arranjar a concessão da Brahma para a região de Fabriciano.

A resposta foi positiva, contanto que eu fosse para lá e adquirisse um caminhão para começar a distribuição. Conversei com papai, mas ele não tinha condições para ajudar-me - eu nada tinha.

Depois de algum tempo, fui para o apartamento dos baianos Sô Joaquim e Dona Júlia, onde eu, além de morar, jantava durante a semana e almoçava aos domingos.

Os dois nasceram no início do quarto quartel do século XIX. Sô Joaquim não se cansava de narrar as aventuras amorosas de moçoilo, no início do século XX - um galã, chamado de Bonitinho, filho do homem mais rico da Bahia.

Dona Júlia era exímia cozinheira e suas comidas baianas eram o máximo - mesmo nos melhores restaurantes da Bahia, Salvador, onde estive algumas vezes, a comida não chegava aos pés da dela.

Nanai

O apartamento da Dona Júlia era o de número 102. No 101 morava uma velhinha muito simpática, a mãe de um cantor e compositor de muito sucesso, e por isso foi parar nos Estados Unidos - depois de uma turnê no México com a cantora Elizete Cardoso, a Divina - chamava-se Nanai.

Nanai chegou dos Estados Unidos e seu apartamento foi alvo de uma procissão de grandes e famosos artistas, os mais variados: grandes compositores e cantores, como a Emilinha Borba, Marlene, Tito Madi, Ciro Monteiro e até mesmo a Elis Regina, não falando de sua maior amiga a Elizete Cardoso.

Na época, telefone era coisa rara - na casa do Nanai não havia;
quando precisavam, usavam o da casa da Dona Júlia. Era muito comum, ao chegar, encontrar o Nanai ou algum dos artistas no corredor, em pé, telefonando.

Um dia deparei-me com uma deusa grega, uma figura imponente e belíssima, cabeça e cabelos fulgurantes, corpo estonteante, no corredor e em frente à porta de meu quarto. Convidei-a a entrar e sentar-se. Não se fez de rogada, entrou e sentou-se na minha cama.

Tônia Carreiro, a mais famosa e formosa artista brasileira, na
minha cama... acreditem!

Benedito Franco