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Fonseca Domingos

O Poeta

 

José Maria da Fonseca Domingos, (1936-2002), natural de São João da Venda, Almancil, concelho de Loulé, emigrou aos 18 anos para a Venezuela onde conheceu a obra de Ruben Dario e Alfonsina Storni. Para além disso, era admirador de Pablo Neruda e Bocage.

Regressado a Portugal, ingressou no Ministério da Segurança Social, trabalhando na área administrativa, mas nunca deixando de escrever.
Em 1987 começou a concorrer regularmente a certames literários, tendo sido distinguido em Portugal e no Brasil, contando mais de duas centenas de prémios.
Tem trabalhos seus em diversas colectâneas, nomeadamente nas áreas da poesia e do conto. Publicou seis livros de sonetos e outros poemas, incluindo humorísticos.
Tem dois livros inéditos, um deles de contos e vários poemas na Internet.
Foi membro da AJEA, ASORGAL e da AIRA (associações de jornalistas e escritores).
Frequentava assiduamente a Tertúlia da Hélice, em Faro. Esta Tertúlia foi fundada em Maio de 1997 por três poetas ligados pela amizade, aos quais se juntaram outros amantes da escrita.
A Tertúlia da Hélice é o mais dinâmico grupo da AJEA (Associação de Jornalistas e Escritores do Algarve) e conta com dezenas de espectáculos poético - musicais, onde deu a conhecer a poesia que se faz em terras algarvias. Reúne ás segundas e quartas-feiras na Pastelaria A Hélice, em Faro.
Fonseca Domingos faleceu em 09 de Dezembro de 2002, vítima de doença incurável.

Obras Publicadas

Um violino na ramada - 1992

Arranhadelas - 1994

Asas do Vento - 1995

Veredas - 1996

Sem Sol - 1996

Para Além do Bojador - 1999


UM VIOLINO NA RAMADA - Sonetos

Duas Palavras - Joaquim Magalhães

Foi quantas o autor me convidou a escrever para este ramalhete de sonetos. Só que, com duas palavras só, não consigo dizer a minha surpresa (agradabilíssima surpresa) por se me ter revelado um sonetista deste calibre.

Um novo pintor - poeta, ou poeta - pintor do Algarve. Que sente o sortilégio do mar e a sedução silenciosa do interior deste «Reyno do Algarve», onde ainda há (cada vez menos) amendoeiras que florescem.

O feitiço do mar e o encanto do interior sensibilizam o autor e inspiram-lhe sonetos de insofismável qualidade...

Duas palavras me solicitou o autor...Surpresa inesperada, porque os sonetos deste «violino na ramada» me encantaram e convenceram: são de um poeta a valer.

Faro, 26 de Outubro de 1991

Joaquim Magalhães

Os Poemas do Mar

 

Há neste mar chamadas incessantes,
Apelos atraentes de sereias,
E os homens partiram anelantes,
Na mente, uma quimera de arcas cheias.

Pela noite, às falésias e areias,
Chegam ondas, de terras bem distantes,
E o mar conta aventuras, epopeias,
E saudades dos nossos emigrantes:

O mar é um livro aberto, a desfolhar-se
Em ondas, uma a uma, a desdobrar-se,
Aspergindo de espumas o luar;

E, em cada folha aberta, lê o vento
Um poema nostálgico, um lamento
Daqueles que 'inda tardam em voltar!

Fonseca Domingos

 

Outras Tantas Palavras - Adérito Vaz

José Maria Fonseca Domingos, cujo pseudónimo é João T., é um dos poetas contemporâneos mais conhecidos no Algarve, não só pelos sonetos, mas também pela oportuna e atempada sátira publicada em diferentes periódicos regionais.

Em Jogos Florais tem sido distinguido com vários primeiros lugares e numerosas menções honrosas.

Frequentava o 3º Ciclo dos Liceus em Faro, nos anos 1953/54, quando partiu para a América Latina e daí para França. Nesta longa digressão, no ensejo de encontrar melhores dias, foi dominado pela insatisfação e pela saudade do seu país, enquanto enriquecia o seu talento ao conhecer outros mundos diferentes daquele que sempre fora o seu.

Na América Latina leu, entre outros poetas, Pablo Neruda e começou a familiarizar-se com grupos de poetas, onde eram habituais tertúlias, que lhe abriram o espírito para uma nova realidade de manifestar-se, no sentir da vida. Em França contactou com numerosos compatriotas emigrantes, que no dia-a-dia trabalhavam no duro, na esperança dum futuro melhor.

Regressado a Portugal, trabalha em empresas comerciais, foi empregado bancário e finalmente funcionário público.

Inserido num contexto próprio, enriquecido por uma áspera experiência de além fronteiras, José Maria Fonseca Domingos, canta um mundo envolvido no abstracto, onde as dificuldades são sombrias, repassadas dum fulgurante saudosismo, que pertence ao passado, no presente.

O poeta torna-se irrequieto e o seu alcance vê a verdade e a situação social. Pensando nelas, liberta-se, cantando nos seus sonetos a mágoa repassada dum querer alcançar a realidade misturada com a abstracção de algo que existe no Universo, onde os deuses não foram bons para todos.

José Maria Fonseca Domingos, na sua insatisfação, ao penetrar numa fonte de inspiração poética, fá-lo numa criação nata, como o faz nos seus trabalhos plásticos, com figuras diversificadas, na mais exuberante fantasia, ao moldar a argila.

Ler um verso, em cada soneto, em Um Violino na Ramada, é sentir um profundo lirismo aliado a uma visão e amor paisagístico imbuído de gosto pelas correntes literárias modernas.

CHI VA SANO, VA LONTANO

Faro, 15 de Outubro de 1991

Adérito Vaz

 

Pelas Margens do Sena

 

Fala-me das papoilas e dos trigos,
Das traineiras pescando, sobre o mar,
Das colinas de eterno verdejar,
Das veredas da sorte dos amigos...

Não me acenes obuses e abrigos,
No verdenegro do nosso Ultramar,
Eu vim dalém do Sol, no meu pulsar,
há esteiras de amor...lemas antigos...

Pelas margens do Sena, por Paris,
Vejo braços fugindo do país,
Anelando por pão, e não por guerra.

Tenente, desde moço, pensei «mal»,
Mas tu podes subir a General,
Sem que ames, como eu amo, a nossa terra!

(Paris, 1963)

 

Continua com menção à obra seguinte do autor, Arranhadelas - 1994, no próximo número.

 

Nota Raizonline: Fonseca Domingos, juntamente com Casimiro de Brito, é o autor de uma das quadras que fazem mote nos Jogos Florais do Clube de Futebol os Bonjoanenses de Faro que estão a decorrer. (Ver aqui) ou (Aqui).

A participação de Fonseca Domingos nestes Jogos é feita através da seguinte quadra:

Eu penso que os desvalidos
São, na miséria e na dor,
Filhos de Deus esquecidos
Ou filhos dum deus menor.

Fonseca Domingos (Faro) - do seu livro Sem Sol de 1996

 

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