Dra. Zilda Arns Neumann.


Por Arlete Deretti Fernandes


O povo brasileiro passa por forte emoção pela catástrofe que atingiu a população do Haiti e também por estar naquele país a médica Zilda Arns, em missão humanitária, quando preparava-se para uma palestra sobre a Pastoral da Criança, na Conferência dos Religiosos do Caribe. Ela foi uma das vítimas do forte terremoto que atingiu o país em 12 de janeiro.

 

O casal de imigrantes alemães, Gabriel Arns e Helena Steiner teve 16 filhos. Zilda, a 13ª criança, nasceu em Forquilhinha, no interior de Santa Catarina. Em 26 de dezembro de 1959, casou-se com Aloísio Bruno Neumann (1931-1978).

 

Indicada ao Prêmio Nobel da Paz, a doutora Zilda, foi uma grande líder. Inspirava tranqüilidade, firmeza e doçura. Viúva, ela teve cinco filhos, oito netos e é irmã de algumas das maiores personalidades da vida religiosa brasileira: dom Paulo Evaristo Arns e dom Crisóstomo. Médica, com especializações em saúde pública, pediatria e sanitarismo, tinha como objetivo salvar as crianças pobres da mortalidade infantil, da desnutrição e da violência em seus ambientes familiares e comunitários.
A Dra. Zilda compreendia que a educação seria a melhor forma de combater as doenças de fácil prevenção e o abandono das crianças. A pedido da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em 1983 criou a Pastoral da Criança, juntamente com o Presidente da CNBB Dom Geraldo Majella, Cardeal Agnelo, Arcebispo de Salvador, que naquela época era Arcebispo de Londrina.


Após vinte e cinco anos, a pastoral acompanhou 1 816 261 crianças menores de seis anos e 1 407 743 gestantes de famílias pobres em 4060 municípios brasileiros. Neste período, mais de 261 962 voluntários levaram solidariedade e conhecimento sobre saúde, nutrição, educação e cidadania para as comunidades mais pobres, criando condições para que elas sejam protagonistas de sua própria transformação social.

 

Para isto desenvolveu um método, dentro da Pastoral da Criança e do Idoso . Depois este movimento se estendeu para 27 países. Com o auxílio de voluntárias, de norte ao sul do Brasil e em países vizinhos, mensalmente são realizadas as seguintes ações: • Visita domiciliar às famílias. • Dia do Peso, também chamado de Dia da Celebração da Vida. • Reunião Mensal para Avaliação e Reflexão.

 

A Dra. Zilda Arns, em 2004 recebeu da CNBB outra missão semelhante: fundar e coordenar a Pastoral da Pessoa Idosa. Atualmente mais de cem mil idosos são acompanhados mensalmente por doze mil voluntários de 579 municípios de 141 dioceses de 25 estados brasileiros. A médica era coordenadora nacional da Pastoral da Pessoa Idosa e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e participava como representante titular da CNBB no Conselho Nacional de Saúde e como membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Social.


Suas participações em eventos internacionais são diversas, da Angola a Indonésia, Estados Unidos e Europa, Zilda Arns proferia palestras, acompanhava Comitivas Brasileiras a outros países e levava a Pastoral da Criança para o mundo. Participou ainda de outros tantos eventos Latino Americanos, principalmente apresentando e divulgando o trabalho da Pastoral da Criança. Sua participação em eventos nacionais é praticamente incontável, desde 1994 são aproximadamente 27 eventos ligados à Pastoral da Criança e ainda inúmeros outros pela Pediatria. Tanta dedicação tem seu reconhecimento. Desde 1978, são diversas menções especiais e títulos de cidadã honorária.


Devido ao seu trabalho na área social, Zilda Arns recebeu muitas condecorações, como:
Woodrow Wilson, da Woodrow Wilson Fundation, em 2007; o Opus Prize, da Opus Prize Foundation (EUA), pelo inovador programa de saúde pública que ajuda a milhares de famílias carentes, em 2006; Heroína da Saúde Pública das Américas (OPAS/2002); 1º Prêmio Direitos Humanos (USP/2000); Personalidade Brasileira de Destaque no Trabalho em Prol da Saúde da Criança (Unicef/1988); Prêmio Humanitário (Lions Club Internacional/1997); Prêmio Internacional em Administração Sanitária (OPAS/ 1994); títulos de Doutor Honoris Causa das Universidades: Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Universidade Federal do Paraná, Universidade do Extremo-Sul Catarinente de Criciúma, Universidade Federal de Santa Catarina e Universidade do Sul de Santa Catarina. Dra. Zilda é Cidadã Honorária de 10 estados e 35 municípios; e foi homenageada por diversas outras Instituições, Universidades, Governos e Empresas Brasileiras e Internacionais.

O caixão com o corpo da fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, Zilda Arns, chegou por volta das 11h15 ao Palácio das Araucárias, em Curitiba (PR), onde será velado em cerimônia aberta ao público. O senador Flávio Arns, sobrinho de Zilda, está presente. O avião da Força Aérea Brasileira (FAB) que levava o corpo de Zilda pousou por volta das 10h30 no Aeroporto Internacional Afonso Pena. De lá, o caixão seguiu em um caminhão do Corpo de Bombeiros até a sede do governo, com cortejo da Polícia Militar.


O corpo foi acomodado em um caixão fechado, coberto com a bandeira do Brasil. Até a chegada de Flávio Arns, que acompanhou o traslado dos restos mortais desde o Haiti, quem recebia a imprensa e os visitantes era Carolina Arns, filha do senador. «A família sempre encarou a morte com muita serenidade. A própria tia Zilda sofreu isso quando perdeu uma filha aos 30 anos em um acidente de carro. Claro que estão todos tristes, mas é momento de celebrar a vida e a história dela», afirmou Carolina.


O governador do Paraná, Roberto Requião foi uma das primeiras autoridades a comparecer ao velório. «É um testemunho cristão. A vida dela é um exemplo de missão. Como fundadora da pastoral, salvou dezenas de milhares de vidas», disse.


Requião afirmou não querer que as homenagens à fundadora da pastoral se encerrem hoje. «É importante que não esqueçamos o exemplo, por isso estamos sugerindo ao presidente da República que patrocine a indicação póstuma da Dra Zilda para o Prêmio Nobel da Paz e que crie um premio com o nome dela para todos os que se destaquem na luta contra a mortalidade materna e infantil», afirmou. «Era minha amiga pessoal, por isso, aumenta a dor do nunca mais, da perda», disse.


O presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, também compareceu ao velório. «Vim aqui prestar minha solidariedade à família em nome da Câmara dos Deputados. Zilda Arns é uma pessoa que veio à Terra para dar exemplo. Deu exemplo durante toda sua vida e deu exemplo na hora da morte também», disse o parlamentar. Por volta das 11h30, a fila para entrar no palácio já tinha cerca de 250 pessoas, a maioria voluntários da Pastoral da Criança. Aos voluntários, Carolina, a sobrinha-neta deixou uma mensagem. «O trabalho continua. A Zilda plantou a semente e agora as voluntárias têm que continuar com o mesmo empenho», disse.

 

 

EDIÇAO NºLV , IV NUMERO  DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS

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