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EDIÇAO NºLV
, IV NUMERO DE JANEIRO DE 2010 -
COMENTARIOS
A COLUNA DE ARLETE PIEDADE

Haiti – A união em torno da tragédia
Uma menina de 6 anos em Portugal, entrega ao seu pai, piloto da Força Aérea Portuguesa, que integrava a equipa de ajuda que partiu para o Haiti, uma das suas bonecas pedindo-lhe que a dê a uma menina no Haiti, que não tenha brinquedos.
O pai cumpre o seu pedido, entregando a boneca a uma médica da AMI que a oferece a uma menina de 7 anos, internada no hospital improvisado onde presta serviço, com fractura num braço e presumível órfã. Ela sorri feliz e acaricia a boneca loura e branca, que aconchega junto ao seu corpinho escuro.
Um jovem americano de 34 anos, que ficou milionário com negócios na Internet,
sentindo que seria insuficiente doar dinheiro, resolveu montar a sua própria
ajuda humanitária, adquirindo dois helicópteros e dois pequenos aviões a jacto,
partindo para o Haiti, com médicos, amigos, alimentos, medicamentos, e montando
um acampamento junto das aldeias mais atingidas pelo terramoto como base das
suas operações. Ele sobrevoa as aldeias na zona, procurando aquelas onde são
mais visíveis os danos através de casas desmoronadas onde aterra acompanhado de
um médico e alguns amigos. Socorrem os feridos, evacuam os mais graves, e partem
deixando alimentos água e medicamentos aos sobreviventes.
Escolhi estes dois exemplos, entre os milhares de anónimos que se têm unido na
ajuda ás vítimas do terrível terramoto que a 12 de Janeiro, sacudiu
violentamente o Haiti, pequeno país, localizado no mar das Caraíbas, onde divide
a Ilha A Espanhola com a República Dominicana.
Desde que Colombo aportou á ilha a que deu o nome de Hispaniola, ou La
Espanhola, em 5 de Dezembro de 1492, a história do país tem sido pontuada por
violência e genocídios, sendo a posse do território disputada entre espanhóis
que se estabeleceram na região, fazendo da ilha, um dos primeiros e principais
portos no Mar das Caraíbas onde se mantiveram até que os sucessivos ataques de
franceses, levaram os dois países a assinar um acordo em 1697, passando o
controle da ilha para a França. Como a população nativa tinha sido toda
dizimada, os franceses repovoaram a ilha com escravos africanos e as plantações
de cana de açúcar prosperaram, assim como a cidade de Port au Prince, que chegou
a ser chamada de a Paris das Caraíbas.
No entanto, os escravos revoltados com a forma como eram tratados, revoltaram-se
contra os franceses e depois de várias lutas, acabaram por sair vitoriosos e
proclamaram a independência em 1804, tornando-se o primeiro estado negro
independente, do mundo, facto que não foi bem acolhido nem reconhecido durante
muitos anos pela comunidade internacional, a qual decretou um bloqueio económico
á jovem nação, o qual só foi retirado quando o Haiti concordou em indemnizar a
França em 90 milhões de francos.
Nos anos seguintes, o Haiti pobre e isolado, teve vários presidentes, tendo a
maioria falecido de maneira trágica, e durado pouco tempo os seus governos, até
que de 1915 a 1934, os Estados Unidos ocuparam o país, a pretexto de proteger os
interesses americanos na zona.
Em 1957, depois de mais alguns governos curtos e derrubados, foi eleito
presidente François Duvalier, conhecido como Papa Doc. Com receio de que a ilha
caísse em poder dos comunistas como Cuba, os Estados Unidos apoiaram este
governo de extrema-direita que instaurou uma feroz ditadura no país, com auxílio
da sua guarda pessoal, os tontons macoutes, e na exploração do vodu.
Sendo eleito presidente vitalício a partir de 1964, exterminou a oposição com
feroz perseguição e quando faleceu em 1971, sucedeu-lhe o seu filho, Jean Claude
Duvalier, o Baby Doc, que em 1986 decretou o estado de sítio e fugiu para
França. Foram marcadas eleições, mas os militares ciosos dos seus poderes,
sempre demitiam os governantes eleitos democraticamente, entre eles Jean
Bertrand Aristide, um padre católico, que teve que se exilar nos Estados Unidos,
os quais impuseram o seu regresso em 1994. Desde esse ano até 2004, Aristide
governou um país destroçado economicamente e por sucessivas convulsões internas,
tendo que ser retirado do país por tropas norte americanas e seguindo para o
exílio na África do Sul.
Como o estado do país, continuava instável e a ser um perigo para aquela zona,
foi constituída a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti -
Minustah por ordem do Conselho de Segurança das Nações Unidas, para manter a
ordem no país e procurar uma transição pacífica para a democracia, que assumiu a
autoridade exercida pela MIF em 1º de Junho de 2004. Para o comando do
componente militar da MINUSTAH (Force Commander) foi designado o General Augusto
Heleno Ribeiro Pereira, do Exército Brasileiro. O efectivo autorizado para o
contingente militar é de 6.700 homens, oriundos dos seguintes países
contribuintes: Argentina, Benin, Bolívia, Brasil, Canadá, Chade, Chile, Croácia,
França, Jordânia, Nepal, Paraguai, Peru, Portugal, Turquia e Uruguai.

E então sobre este povo martirizado que em 12 de Janeiro de 2010 se abate mais
uma tragédia de proporções tais, que levou as Nações Unidas a declararem ser
este o pior desastre natural desde a sua constituição em 1945, o terrível
terramoto de magnitude 7.1 com epicentro a 22 Kms da capital Port-au-Prince.
Cerca de 150.000 mortos contados até ao momento, que podem ir até aos 200.000,
três milhões de desabrigados, milhares de feridos, mas mais que números, estão
aí todos os dias nos meios de comunicação, televisões, rádios, jornais, as
imagens em directo que têm feito chorar o mundo comovido com tal horror que
todos os dias nos atinge duramente.
Mães se revêem, naquelas mães que durante dias e dias de angústia e terror,
rondam os escombros, procurando ouvir um sinal de vida de seus filhos
soterrados, e daquelas que ouvindo os gritos desesperados, procuram ajuda entre
as equipas de socorro, completamente aterradas e desesperadas. E se algumas a
conseguiram e todos os dias somos atingidos pela emoção ao ver mais uma vítima
ser resgatada com vida, quantas não perderam a esperança e as forças, atingidas
pela impotência de nada poderem fazer para salvarem a sua família?
E as crianças que se amontoam nas ruas e nos hospitais improvisados, feridas e
sem saberem da sua família, se ainda a têm ou estão sozinhas no mundo?
E o cheiro nauseabundo dos corpos mortos amontoados nas ruas e debaixo dos
escombros? Já imaginaram como se sentiriam se tivessem que viver assim, sabendo
que a vossa família pode estar lá morta e tendo que os vivos continuar a lutar
pela sobrevivência diária?
Quando uma bolacha e um copo de água, desencadeiam uma luta? E como vai aquele
país recuperar a sua vida normal, sem a ajuda de todos nós?
Então vamos todos ajudar como podemos, desde uma boneca, a uma equipa de ajuda,
ou pelo menos alguns euros que podemos transferir para as contas abertas pelas
ONG, como a Cruz Vermelha, a Ami, os Médicos do Mundo e outras. Basta ir a uma
caixa multibanco, e seleccionar a opção SER SOLIDÁRIO. Depois seleccionar a
organização a quem se quer fazer uma doação e escolher a verba mesmo que seja
pequena. Pois que se todos nós e falo só de Portugal, dermos 1 euro, teremos 10
milhões de euros, já pensaram?
Segundo o jornal Correio do Ribatejo, na sua edição desta semana, os portugueses
já doaram através deste sistema, 600 mil euros, distribuídos pelas várias
organização não governamentais, aderentes.
Multiplicam-se pelo mundo diversas iniciativas de recolha de fundos, então cada
um pode contribuir na medida das suas possibilidades, sem termos que ter
vergonha de dar pouco ou muito, o que importa é a contribuição, pois o mar
também é imenso e formado por gotas de água.
Pois que não é provável que no Haiti apareça um novo Marquês de Pombal, o
primeiro ministro português que em 1755 perante o terrível terramoto e maremoto
que atingiu Lisboa, se destacou mandando enterrar os mortos e cuidar os vivos e
depois mandando reconstruir a baixa de Lisboa com um plano tão moderno para
aquela época, que hoje, cerca de 250 anos depois, se mant��m actual e funcional,
fazendo da nossa capital, uma das cidades mais bonitas do mundo.
Arlete Piedade