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EDIÇAO NºLV
, IV NUMERO DE JANEIRO DE 2010 -
COMENTARIOS
A Saudade
Crónica
por Maria das Candeias Leal
Estávamos a meio de Novembro e continuava chovendo. Fazendo relembrar à vovó os
Invernos da Ilha. O tempo húmido que se entranhava na alma, nos ossos e no corpo
todo. As malditas alergias não a deixavam em paz, sentia-se cansada, mas
abandonar os afazeres não era com ela, precisava deles para sobreviver, para não
deixar o corpo morrer antes do tempo .
Calçou as botas de borracha, vestiu o casaco de oleado e encaminhou-se para o
bosque, precisava de ar fresco e, ao mesmo tempo, procurava alguma lenha que,
mesmo alagada trazia para dentro de casa, colocava ao lado do fogão e ia
enxugando.
Chegou o mês de Dezembro, a neve começou a cair. Que lindo cenário! Vovó gostava
daqueles dias de sol, dias que davam vida, dias em que a neve parecia um
autêntico cristal. Todavia, esses dias não duravam muito. Vinham os escuros, os
que deixavam o corpo e alma pesada. A saudade invadia a casa e vovó ficava sem
vontade de fazer nada.
A saudade era uma espécie de doença para vovó. Sentia saudades dos filhos, das
netas e por vezes recordava a cidade grande onde vivera trinta e cinco anos e
deixara pedaços dela. Sentia-se dividida e a alma dividida faz o corpo dorido.
Faltava-lhe algo, algo que ela não sabia explicar. Quando se olhava no espelho,
via-se inteira, mas sentia-se quebrada. Sentia-se como se fosse um pote partido
em pedaços que alguém se lembrara de colar para fingir que estava inteiro.
Tinha que fazer alguma coisa, tinha que encontrar algo para passar o tempo.
Pensou em fazer uma peça de roupa de malha para uma das netas, foi bom enquanto
a fez, mas com isso não afastou a saudade delas. Tentou fazer algo mais,
cozinhar qualquer coisa diferente. Fazia pão, pizza, bolinhos de banana ou
doutra coisa qualquer, fazia biscoitos, enfim, tentou várias coisas diferentes
mas, mesmo assim, não se sentia realizada. Aquela maldita saudade não a queria
deixar, agarrara-se a ela como uma tatuagem que por mais que a lavasse continua
vincada na sua alma.
Foram chegando aqueles dias em que a família se juntava. O Natal, o Ano Novo, os
aniversários e, por mais que vovó tentasse, não conseguia vivê-los como os vivia
na cidade grande. Nesses dias, na cidade, sempre se juntavam, era uma alegria a
família toda unida! Agora, era diferente, eles estavam todos lá, todos juntos e
ela não. Tinha o companheiro e os animais, o que já não era mau, quantas pessoas
nem isso tinham, nem pelo menos uma casa para morar, reconhecia que tinha todo o
seu conforto e, mesmo assim, não se sentia bem, isso a fazia sentia-se injusta
ao reclamar. Contudo, a maldita saudade não a deixava viver em paz.
Resolvia viajar até à cidade grande, visitar os familiares, para tentar matar um
pouco dessa saudade, talvez ao fazê-lo se sentisse melhor, mas enganava-se...
Quanto lá chegava era bom, era uma alegria abraçá-los todos, porém, passados
alguns dias já sentia saudade das suas coisas. Ficava aborrecida consigo mesma.
Maldita doença esta que faz uma pessoa nunca se sentir bem, nunca se contentar
com o que tem!
Havia dias diversos, dias em que vovó enxergava tudo diferente, dias em que ela
adorava sentar-se no sofá a trabalhar nas suas malhas, dias em que saía para a
rua limpar a neve, dias em que adorava ler um bom livro, aliás, quase todos os
livros são bons, apenas dissemelhantes. Nesses dias ela esquecia a doença
chamada saudade, mesmo sabendo que ela se escondia num canto do seu ser.
Janeiro 18 / 2010