| poesia |
| cronicas |
| contos |
| cultura |
| educação |
| agenda cultural |
| humor |
| ambiente |
| solidariedade |
| assuntos europeus |
| ciência |
| tecnologia |
| colunas/empresa |
| biografias |
Fundação Logosófica – Em Prol da Superação Humana - São Paulo
A
vida interna e a vida de relação
(Carlos Bernardo González Pecotche – RAUMSOL)
Muito já se escreveu e se falou a respeito do comportamento ou da conduta
que o homem deve observar em relação a si mesmo e como membro integrante da
sociedade humana; na verdade, porém, o que não se disse foi a forma pela
qual pode ele conduzir-se dentro de si mesmo, não só no sentido de alcançar
seu próprio conhecimento, mas também no de ser guiado por ele na
interpretação de seu pensar e sentir.
Certo é que a cultura corrente, a ilustração e o polimento social permitem
fixar comportamentos e normas de conduta que tornam possível e agradável o
trato com os demais, porém não informam o ser acerca de sua convivência
íntima consigo mesmo.
Evidente é que sobre este ponto, de per si profundo, nada ou muito pouco
haverá de compreender aquele que não tenha cultivado com especial dedicação
suas qualidades e penetrado numa certa medida nas profundezas de sua
intimidade.
Na maioria das pessoas, nas quais não se agitaram ainda as inquietudes deste
conhecimento, esse ser interno permanece vedado à sua percepção, já que não
encontram indício algum que lhes denuncie tal realidade. E entre tais
pessoas não faltará, sem dúvida, quem sorria com menosprezo, não atribuindo
valor a este gênero de reflexões. Não obstante, isso não diminui em nada a
importância de que este conhecimento se reveste, o qual, por outro lado, em
muito contribui para fazer a felicidade dos que conseguem que ele seja
oferecido aos demais sem restrições no cenário de sua própria vida.
Para alcançá-lo, o que não é tarefa fácil, a Logosofia ensina que se deve
predispor o espírito, tanto quanto necessário, a certas condições de exceção
que elevam o ser rumo a uma concepção cada vez mais ampla da vida e do
mundo. Isso significa que não podem ser julgados, com o critério vulgar,
conteúdos de natureza superior nas formas mais elevadas do pensamento.
Existem diferenças substanciais de apreciação.
A simples aproximação a uma verdade, que em alguns casos chega a encerrar
mudanças fundamentais na própria vida, costuma fazer experimentar sensações
inefáveis, em que a ansiedade e a esperança, ao manterem por momentos o
espírito em suspenso, provocam o temor ou o júbilo, numa alternada e
involuntária reciprocidade. é o caso, por exemplo, daqueles momentos de
inquietude que precedem um descobrimento, seja este em que campo for.
A alma estremece de gozo ou de pesar conforme as circunstâncias que rodeiam
os fatos mais importantes da existência. O certo é que, acima da vida
vulgar, fria e ingrata, na maior parte das vezes se vislumbra uma superior,
que, convidando-nos a penetrá-la, nos oferece um mundo de estímulos e doces
esperanças.
Sem dúvida alguma, para que este pensamento se torne realidade, é muito
natural que se tenha de arrancar da esfinge do próprio destino o segredo do
seu enigma. Como? Forjando um novo destino, enquanto permanece em nós o
mistério protetor que zelará pelo nosso segredo ante os demais.
Preferível é ser um esforçado e tenaz buscador da verdade a perecer como
esses seres incapazes, cujas almas extenuadas pela inércia se assemelham a
ermos ressequidos pelo sopro do simun*.
A vida interna tem uma prerrogativa particular e especial: o recolhimento do
ser em si mesmo ou, em outras palavras, a expansão da alma dentro de seu
mundo íntimo, ao qual somente o ser tem acesso e onde a ninguém é permitido
entrar, por proibição expressa da Lei Suprema. Daí que o foro íntimo deva
ser sagrado e inviolável, já que pertence exclusivamente aos domínios da
consciência, sendo que apenas a própria vontade pode exteriorizar uma parte
das reflexões íntimas, se quiser dá-las ao conhecimento do semelhante.
Participam de todos os atos da vida interna aqueles pensamentos gratos ao
espírito, pois quando o ser nela se submerge é para encontrar-se no cálido
ambiente das ternas recordações, já que a revivência delas, do mesmo modo
que enternece, adoça a vida e a satura de bondade.
E se isso ocorrer repetidamente, quanto haverão de suavizar-se as asperezas
do caminho, ao mesmo tempo que se conseguirá, com tão inapreciável recurso,
fazer mais grato e cordial o trato com os semelhantes.
N.T.: Vento seco e abrasador do deserto.
(Excerto da Coleção da Revista Logosofia – Tomo II)