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Poesia
de José Manuel Veríssimo
Sonhos índios
Reescrevo palavras debruçadas
Do cristalino das pupilas..........
Enchi-me de ar e de gás
Subi ao sabor do vento
Na pista do arco-íris
Mantive quanto pude
A energia
O balão
A força
Sentia-me papagaio de papel
E subia
Em sussurros de pôr de sol
Para amanhecer
Num instante
Em que a Primavera despertava
E o frio do Inverno derretia
Eras meu irmão e eu amava-te
Com a decisão de um duende
Guardião de ninhos
Em nome dos espíritos da floresta
Eras minha irmã e eu amava-te
Nesse amansar de nervos
Quando os teus cabelos escorriam
Rebeldes por entre os meus dedos
Acreditávamos no nosso fogo
Planeávamos trios de amor
E partos colectivos
De outros mundos
Crianças a ensaiar sorrisos prematuros
Em rituais de Primavera
A quebrarem
Os cantos cinzentos do poder
E de meia dúzia
Passamos a dúzia e meia
Grávidos de esperança
Por acontecer
E crescemos em sérios carnavais de sensatez:
Os diplomas
Os olhares baços
Os lucros
De algumas vendas
A seriedade
Dos que descobriam cansaços
O conforto de........finalmente
Chegou a nossa vez................
Ficámos cada vez menos
A olhar as fogueiras
Entre a Primavera e o Verão
Esperando da Terra e do Fogo
Numa praia adormecida
Cantando em olhares brilhantes
O coro das marés
As angústias de pequenas ondas
Nos murmúrios solitários
Dos amigos perdidos
Que rumam a sós no escuro
E procuram fogueiras ainda acendidas
Em lareiras semeadas por aí .
Locais sagrados
Cóis de índios banidos
Para o quotidiano cinzento e duro
Longe dos outros
E de cada outro de mim
Teimo
Espero
Sonho
Com dúzias de olhares
Cintilantes na noite
Nos cemitérios índios
Um dia
O horizonte
A vida
As pradarias sem fim
José Manuel Veríssimo
Seixal, Maio 2002