POESIA DE MARIO MATTA E SILVA
Enquanto Respiro
Em meu redor há movimento
há som, frenesim, alarido
no chão, de pedras toscas
e enegrecidas com o tempo
correm os pés em resposta cerebral;
não faltam corpos exaltados
que se movem sem cessar e
o ar solta-se impuro e insuportável
fazendo com que a passarada fuja
no medo que em tudo cresce.
Na minha rua escorrem nervos
(ou veias, artérias, vasos capilares)
com vertigens em cada sol tímido
que desponta sem graça, sem furor
ou na fragilidade do dever
para quem vai e vem do trabalho
em contracções musculares
que não param o seu percurso
desatinado, desmotivado
por ansiedades perversas.
No meu bairro nascem encruzilhadas
com becos sujos e impessoais
sem nada de elegante e de feliz;
tudo rasgado em geometria
alinhando na vertical janelas baças;
enquanto se anda nas compras
os olhares observam na imensidão
e essa gente febril de traição e insana
anda insensível, desgovernada, mesquinha –
e tudo assim gira e avança enquanto respiro.
DIAS BREVES E CINZENTOS
Confronto-me com a convulsão
dos dias breves e cinzentos
arrasto promessas e jorro lamentos
nas depressões por aí em combustão.
Saltam-me pombas dos telhados
e as soleiras das portas empalidecem
nas trepadeiras as flores entristecem
com flocos de prantos gelados.
Rangem janelas empenadas
no ar gélido da noite molhada
a calçada brilha encharcada
e os jardins sucumbem nas ramadas.
Vão devagar as horas de tristeza
e correm velozes as que trazem alegria
cada madrugada cobre-se de nostalgia
e é brando o sol que irrompe na Natureza.
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EDIÇAO NºLIX
, I NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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