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EDIÇAO NºLIX , I NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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As verdades da vida estão em você - e não, na Antártida, San Tiago de Compostela ou Himalaia!

Por Se-Gyn


De vez em quando a gente topa com textos de autores do Brasil e de fora, falando sobre o encontro de supostas grandes verdades ou grandes lições de vida, que obtiveram a muito custo, em experiências vividas no caminho de São Tiago, no Himalaia ou mesmo, na Antártida. Não se pode descurar da validade de tais experiências daquele que, percorrendo tais caminhos e, enfrentando situações inóspitas, encontraram a luz, seja no esclarecimento sobre as verdades ou, recebendo grandes lições de vida. Mas...

Acabo de receber uma mensagem em que Amir Klink narra um momento vivido durante a viagem à Antártida, em que, a partir de uma experiência singular, introjeta finalmente uma grande lição de vida do Dalai Lama. Respondendo à divertida colega, teclei em tom jocoso, que em vez de um som que, num lugar absolutamente inóspito - a Antártida - lembrava o barulho da fritura do pastel, preferia mesmo, era as sensações de estar numa barraquinha de feira, no domingo pela manhã, com acompanhamento melhor que filosofia miúda: uma Coca-Cola de 600 ml, geladinha.

E que, disse à colega, tem gente que vai muito longe, longe demais, passa por experiências custosas, longas e traumáticas, para descobrir as chamadas «verdades da vida» - Antártida, no caso de Amir Klink, e San Tiago de Compostela, no caso de Paulo Coelho, por exemplo. Ora, se o encontro de tais verdades e lições dependessem exclusivamente dessas típicas jornadas heróicas ou, proféticas, então teríamos que concordar que, só uma parte da humanidade poderia alcançá-las e, isto teria há ver, fatalmente com poder aquisitivo, grana, para sustentar a tal viagem.

Desculpem-me. Acho isso dispensável. Não pode ser a única via.

As grandes verdades que esses sujeitos encontram são as mesmas que vamos encontrando, ao longo da nossa vida, do contínuo avanço e experiência em nossas vidas diárias. A diferença entre eles e, qualquer um de nós, é a competência para narrar a percepção do que foi experimentado, do que veio à mente depois e, enfim, as transformações que ocorreram na vida. No fim de tudo, grandes verdades são uma soma de coisas que se acumularam ao longo e à margem do caminho da vida.

Cada um de nós tem dentro de si a missão de realizar a jornada e, o mito do herói. E, todos nós - todos!, de uma forma ou, de outra, realizamos essa jornada e, se formos bastante humildes para fechar a boca e, abrir os olhos, os ouvidos e, a mente, podemos chegar à mesma conclusão que esses heróis midiáticos. E, aqui está o problema. Estamos soterrados de deveres e, atribuições diárias. No meio desse processo, nossa sensibilidade e, nossa capacidade de reflexão objetiva sobre as ocorrências em nossa vida está sendo continuamente entupida. E, nos vemos sendo conduzidos para o mundo da passividade, da inação e, da espera do inusitado que compense tal circunstância...

A nossa «jornada do herói» ocorre dentro de nossas vidas diárias. Portanto, se quisermos alcançar verdades ou ter experiências transformadoras, precisamos, em primeiro lugar, ter em conta que não temos as supostas condições ideais: isolamento, objetivo e projeto. Em segundo lugar, imagino, precisamos nos abrir e, nos concentrar na percepção, prestando atenção em nós, na nossa inter-relação com o mundo ao redor e, o que acontece aí.

Que lição maior poderá haver sobre a hora certa de agir e, como agir, do que um pai que que tem a notícia da prisão do filho - que cresceu longe de seus olhos e, os elogios e admoestações devidas -, numa madrugada de loucuras e drogas, do que ele tivesse com pulso e amor na hora certa?
Que ensinamento maior sobre a misericórdia humana do que a mãe se desvela no cuidado com o filhinho, nos primeiros meses de vida, ou do filho que acolhe aos velhos pais e avós no momento em que se encontram frágeis e, os conduzem pela mão, até o dia da extinção?
Haverá maior exemplo a perceber a finitude da vida da vida e, a impossibilidade do homem de alterar o curso do destino, do que a morte de uma mãe querida por um filho?
Que inspiração maior sobre a necessidade de leveza na vida pode ser vista, do que a felicidade da família reunida, num parque, num passeio, onde os sorrisos e, abraços afloram, entre pessoas queridas?

Para encontrar a verdade, basta abrir o coração e, a mente para que ela chegue. A velocidade com que ela chega, evidentemente, é outra coisa. Certas verdades jamais chegam a um homem que não está pronto para recebê-la e, nesse sentido, muitos dos sábios pop são exemplos vivos. A verdade, assim como o erro e, o engano, andam o tempo todo ao nosso lado.

Longe de ser inatingível, exigente ou confusa, a grande verdade é toda simplicidade. Para alcançá-la, é preciso desfazer muitos processos, evitar procedimentos complicados e, preparar-se para o inusitado. Pois, em meu sentir, há algo que pouca gente disse sobre a verdade que é preciso destacar: a verdade é surpreendente, risonha e irônica - vem até de lugares e, situações em que não se espera.

Mas, falando em leituras, grandes verdades e, experiências, há mais a ser dito sobre o que escrevem os gurus da era cibernética: todos, infalivelmente, bebem em fontes externas e, perenes. Grande parte do que escrevem são reinterpretações de trechos de livros sagrados, ou da filosofia clássica do ocidente e oriente. Outra parte, se baseia no senso comum, pura e, simplesmente.

Assim, vale a pena abrir mão do preconceito e, fazer como seu guru favorito: ler os filósofos clássicos (Sócrates, Lao Tsé) e, os livros sagrados - em especial a Bíblia, que, do alto de seus registros milenares, tem tudo há com os fundamentos de nossa cultura e, sociedade e, muito a ensinar. Além, disso, vale a pena ouvir conselhos dos mais velhos (avós, pais, tios), pois no que dizem está cristalizado muito da eficaz «sabedoria vulgar», somada à experiência de vida e, suas palavras podem com certeza ajudá-lo a ganhar tempo, sofrer e, fazer sofrer menos.

Nesse sentido, é bom assinalar: se não houvesse valor no senso comum, tais autores não se debruçariam sobre ele, nem teriam, afinal de contas, leitores.
Repito: não é preciso ir a Israel, Egito ou Alemanha para ter acesso à verdade ou à experiência transformadora. E sim, acenda o incenso, cante um hino, se isto te deixar predisposto, te auxiliar. Mas antes...
...Abra o coração, descongestione a mente, observe e, ouça com atenção e sem pressa o que acontece - em especial seus próprios gestos, dizeres e, atitudes.

E deixe as coisas acontecerem.

Oh-oh!, que entre a verdade e o engano, transito diariamente!...

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