EDIÇAO NºLIX , I NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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COLUNA UM

Daniel Teixeira

Selecções - XV - Final da primeira parte.


No número anterior demos por encerrado o processo de inscrição na Selecção do Jornal Raizonline. Começamos a partir desse dia a fazer a selecção propriamente dita dos textos a publicar.

Pensamos sedimentar este processo de forma a torná-lo anual, prestigiar o mesmo, fundar qualitativamente a diferença, divulgar os autores, divulgar o livro. Ora em cada autor há latente uma vontade de merecido reconhecimento e é para isso, para a divulgação e recepção desse feedback que sobretudo trabalhamos através da elaboração de uma obra de qualidade donde ressalte com mais vigor o mérito dos seus autores. Vamos fazê-lo... 


Viver em sociedade calmamente e sem dor

Em tempo de crise é de usar ainda mais o ditado popular que «em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão», mas será fatalmente assim? Quer dizer terá este ditado alguma razão forte para existir?

Não somos saudosistas ao ponto de considerarmos que «antes era melhor» mas sou por vezes levado a pensar que ainda não se gere suficientemente bem o raciocínio que estabelece o diferencial entre o antigo escudo e o euro, por exemplo. Há dias conversando com um amigo calhou em conversa os nosso bate - papos literários num Café aqui da minha cidade, considerado um café luxuoso - que de verdade não tinha nada de especial senão uma mais seleccionada clientela, não no sentido das elites financeiras, mas no sentido de haver melhor espaço para encontros entre aquilo a que na altura se chamava de intelectuais.

Por lá passaram alguns vultos mais ou menos famosos da nossa praça cultural actual, é um facto, e não vou enumerá-los nem citá-los. Mas pagava-se na altura a enormidade de 100$00 por uma bica, quando o preço normal noutros sítios rondava os 50$00: pagava-se assim alguma tranquilidade de sala e tentava-se dar justeza ao exagerado preço não tomando a tal bica de balcão (que era de 80$00), fazendo alguma «cera» e juntando o útil ao agradável.

Ora neste momento uma bica normal, num sítio normal, custa 120$00 = 0,60 € e esta passagem, com  redução de qualidade deu-se praticamente de um dia para o outro. Quem eventualmente se sentisse afugentado pelo preço da bica praticado no tal café, praticamente no dia a seguir à introdução do Euro como moeda corrente passou a não ter de achar exagerado o preço.

A lição que eu tiro disto tudo - gosto muito de tirar lições até das coisas mais insignificantes - é que, no fundo, o preço da bica não era de facto caro, os outros cafés, a concorrência, é que praticava um preço baixo e tanto assim seria que num repente as coisas nivelaram-se por cima.

Voltando ao resto da lição: quando hoje se ouve falar com profusão de descontos, saldos, inflação negativa ou baixa, em quebras de vendas e em nivelamentos de preços por baixo, não me lembro de alguém me perguntar, ou se questionar em frente de mim, sobre o que é feito do diferencial entre aquilo que se pagava antes por um dado produto que o mercado agora foi forçado a baixar o preço.

Assim, estão mais baratas agora as coisas ou antes (da crise) é que estavam muito caras? Que foi feito da diferença entre o custo do produto agora e aquilo que se pagava antes pelo mesmo produto? Quem ficou com o dinheiro, ou para quem ele foi? O Jorge Palma tem aquela canção «Quero o meu dinheiro de volta»...palavra que gostaria de o ter de volta (!), todo aquele dinheirinho que ao longo dos anos fui pagando a mais por produtos que agora estão pelo menos mais próximos do seu valor real. Espero que a lição deste período sirva para que os consumidores se lembrem bem disto e estejam atentos às chamadas «flutuações do mercado livre» porque esta «liberdade» só funciona num sentido (no dos especuladores).

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