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EDIÇAO NºLIX
, I NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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A COLUNA DE ARLETE PIEDADE

Tragédia na Ilha da Madeira
Um violento temporal com chuvas torrenciais e ventos ciclónicos, abateu-se no
sábado, dia 20 de Fevereiro, sobre a ilha da Madeira, afectando em especial as
zonas altas do concelho do Funchal, e o concelho de Ribeira Brava. As enxurradas
de água e lama onde se misturavam detritos, tais como troncos de árvores, pedras
e carros arrastados na violenta e desgovernada corrente, galgaram as margens das
ribeiras, precipitando-se sobre a cidade do Funchal, no litoral da ilha.
Cerca de cinco a seis horas de chuva torrencial, provocaram violentas
torrentes que sendo a ilha montanhosa, se precipitaram pelas encostas,
engrossando as ribeiras das levadas, que escoam as águas abundantes na ilha,
em direcção ao mar.
O balanço aponta para 42 mortos, cerca de 120 feridos, dos quais alguns
graves e prevê-se algumas centenas de desalojados, que perderam as suas
casas, danificadas ou destruídas pelas águas, bem como avultados prejuízos
materiais, com carros arrastados e destruídos, casas inundadas e parcial ou
totalmente destruídas, ruas e rotundas inundadas com água e detritos,
pavimentos destruídos, pontes desmoronadas e edifícios públicos inundados e
evacuados.

Quando a ilha foi descoberta pelos portugueses em 1419, foi baptizada com o
nome de Ilha da Madeira, devido a ser muito arborizada e verdejante, com
abundância de madeira, nas suas encostas montanhosas, bem como belas flores
nos seus aprazíveis vales, recortados por ribeiros alimentados pelas águas
das montanhas que assim se escoavam para o mar.
Sendo a ilha tão aprazível e em posição estratégica, o rei de Portugal,
promoveu desde logo o seu povoamento, sendo a agricultura uma das
actividades principais. Mas tendo a ilha excesso de água na zona sul a
necessidade de água a norte, foram construídas as levadas, canalizações em
pedra para encaminhar os cursos de água para onde fossem mais necessários.
Ao longo de quinhentos anos, os erros foram-se acumulando, com as populações
a estabelecerem-se preferencialmente nas zonas baixas, canalizando as
ribeiras e os cursos de água, disputando os leitos de cheia com a força
incontrolável das águas, tentando domar os caudais de água, mas esquecendo
que nas alturas de tempestades não há força que controle o ímpeto da
natureza.
No fundo é sempre a mesma luta do homem para dominar e colocar ao seu
serviço a Mãe Natureza, esquecendo-se que esta reclama os seus direitos por
vezes de maneira incontrolável e violenta, tratando bem os seus filhos,
quando estes a respeitam e ao seu poder.
Ao longo das últimas décadas, os movimentos ambientalistas têm vindo a
alertar a opinião pública para os perigos de se ignorar a natureza, e
através de muitas lutas, enfrentando governos e outros poderes, até com
risco da sua própria vida e liberdade, com a força das suas convicções, têm
ganhado o respeito e o directo a serem escutados pela opinião pública,
governos e cientistas, mas ainda não é suficiente.

Estes movimentos têm conseguido acordar consciências e fazer aprovar leis
que regulam nomeadamente o ordenamento do território, tomando em
consideração os diversos aspectos a ter em conta, conforme se pode ver no
site da Quercus, onde se diz e cito:
«Nos últimos anos são inúmeros os planos, programas e leis que se tem
discutido para dar lugar a um desenvolvimento mais sustentável do
crescimento urbano. No entanto, é necessário concretizar essas intenções,
para que as decisões a tomar respeitantes ao planeamento e ordenamento do
território sejam bem argumentadas, considerando sempre todos os meios
envolvidos: físico, ambiental, paisagístico e sócio - económico.»
Se por um lado é difícil em poucos anos reconstruir toda uma cidade ou país,
que se tem vindo a desenvolver ao longo de séculos, por outro, há
construções que são licenciadas no presente, sem tomar em linha de conta,
todos os aspectos desejáveis, esquecendo os perigos a que se expõem os
futuros ocupantes das mesmas, como agora se verifica na Madeira, em que um
moderno centro comercial se construiu na baixa da cidade, paredes meias com
a ribeira, e em que todos os pisos do parque de estacionamento ficaram
inundados, e o centro comercial teve que ser evacuado.
Não penso que seja possível deitar uma cidade abaixo e reconstruir noutro
local, mas ir mudando consoante haja necessidade de novas construções e ir
aplicando novas regras, consoante os conhecimentos científicos e do ambiente
vão aumentando, penso que seria possível.

Agora perante a tragédia de vidas humanas perdidas, de vidas destruídas, de
feridos, de inúmeros prejuízos materiais, todos se mostram solidários, desde
o governo á comunidade internacional, o que mostra que a esperança ainda
persiste no coração da humanidade, e que a tragédia que atingiu essas
pessoas ainda mexe com os valores das pessoas, apesar da crise, apesar da
criminalidade, apesar da falta de valores morais a que temos vindo a
assistir.
No entanto, quando se for reconstruir o que agora ficou destruído, seria
desejável que as obras fossem projectadas com os requisitos adequados aos
locais onde se deverão implantar, e que não se autorizasse a construção de
edifícios em locais já manifestamente inadequados.
Os cientistas e meteorologistas têm vindo a alertar que as condições de
tempestades e temporais, têm tendência para se agravarem e serem mais
frequentes nos tempos futuros, pelo que será imaturo e irresponsável,
autorizar construções e infra-estruturas que não tomem em consideração esses
aspectos já conhecidos e previsíveis.
Para mais informações, poderão aceder ao site da
Associação Nacional de
Conservação da Natureza -QUERCUS.
Arlete Piedade