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EDIÇAO NºLIX
, I NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
COMENTARIOS GERAIS
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COLUNA
DE FRANCIS RAPOSO FERREIRA
Futuro
O futuro, ou melhor dizendo, a curiosidade sobre o futuro, o desejo de encontrar pistas, sinais, que possam servir de indicadores quanto ao futuro, e a constante procura desses mesmos indicadores tem constituído, desde os primórdios da civilização, um enorme campo de investigação.
E verdade, desde os tempos mais antigos que o homem se tem preocupado com o futuro, basta recordarmos os inúmeros vestígios que os nossos antepassados nos deixaram para que possamos aquilatar de como eles se preocupavam em perpetuar para o futuro as suas epopeias, sem olvidar que alguns o faziam por puro narcisismo.
Quantas vezes desfrutamos de grandes obras do passado e nem nos damos conta de que isso só é possível porque são o fruto da obra de homens que souberam compreender e sonhar o futuro. Um desses exemplos é a Avenida da Liberdade, Lisboa, que na altura serviu para que o seu mentor, Marquês de Pombal, fosse apelidado, pelos mais cépticos, de lunático. Pois é, mas que seria deste mundo se não fossem os lunáticos que ousaram sonhar o futuro, teríamos um mundo cheio de inteligentes realistas que a única coisa que sonham deixar para o futuro é isso mesmo, um futuro sem futuro algum.
Eram homens, e mulheres, que se preocupavam em construir o futuro, faziam-no sabendo que o estavam a construir mais para as gerações vindouras do que para eles próprios, isto é, sabiam que estavam a desbravar o terreno, a prepará-lo para que o futuro dessas gerações vindouras se apresentasse, o mais possível, isento das pedras que lhes tinham dificultado o avanço dos seus ideais, chamavam-lhes de loucos, hippies, filósofos e outras coisas do género, mas a grande realidade é que foram eles, pensando no futuro, quem construiu muita da nossa realidade actual.
E, espanto dos espantos, muitos desses homens e mulheres que ousara pensar o
futuro, eram homens e mulheres simples, eram Alentejanos e Alentejanas.
Constituindo o futuro, um campo de estudo, investigação, trabalho e produtor
de riqueza tão grande, será lógico que os nossos jovens se questionem:
«Porque é que os nossos dirigentes se desinteressaram pelo futuro?»
A resposta é muito mais simples do que se possa pensar, em meu entender, porque o que se passa é que esses mesmos dirigentes não se desinteressaram pelo futuro, do que eles se desinteressaram foi de investir na preparação do futuro das novas gerações, das novas e até mesmo da actual, isto é, os nossos dirigentes deixaram de acreditar no futuro do futuro que eles pensam transmitir às gerações vindouras.
A Carta que nunca pensei escrever
Esta é realmente uma carta que nunca pensaria escrever, e embora se trate de
uma carta sem um destinatário concreto e identificado, ela poderia, muito
bem, ser a carta dirigida a alguém, infelizmente.
Meu caro:
Imagino o que deves estar a sentir neste período de grande dificuldade e
angústia pessoal, principalmente naqueles momentos em que ficas a só com os
teus sentimentos, se é que realmente tens sentimentos e reflectes sobre a
tua vida.
Imagino que sintas um nó na garganta e um aperto no coração, embora tenha algumas duvidas de que tenhas realmente coração, no entanto ainda acredito que, nesses tais momentos, ao olhares para o que tem sido o teu percurso de vida, a forma hipócrita como tens alcançado todos os teus sucessos, os amigos a quem traíste para que os teus objectivos pudessem ser alcançados, a falsidade com que tens enfeitado as tuas relações e a avareza que te tem servido de guia, então pensarás que afinal talvez Deus não estivesse a dormir, mas tão-somente ligeiramente distraído para com algumas ovelhas do seu rebanho.
Acredita que eu, apesar de já ter sentido o sofrimento que o teu veneno provoca na pele das tuas vítimas, não irei agir movido a vingança, porque esse é um sentimento que só os hipócritas como tu e os falsos da tua laia, é que agem impulsionados pelo desejo de vingança, por isso nunca irás ver em mim esse olhar desejoso de encontrar uma oportunidade de me poder vingar, isto é, não procurarei a vingança para te prejudicar, mas, porque não sou hipócrita como tu, procurarei desmascarar-te perante aqueles, poucos, a quem ainda vais conseguindo enganar. E verdade podes contar comigo e com a minha ajuda para fazer emergir a verdade das tuas falsidades, da tua hipocrisia, da tua avareza, numa palavra, da maldade que é inquilina única do teu coração.
Meu caro, há pessoas que vivem num tal mundo de hipocrisia e falsidade que acabam por se convencer que são imbatíveis e que nunca serão desmascarados, e só quando se sentem encurralados entre as tábuas onde tantas vezes entalaram os amigos, é que caem na realidade e se apercebem de que afinal tudo aquilo que foram construindo, não passa de um mundo podre e pronto a rebentar a qualquer momento, é o teu caso.
Meu caro, não acredito que te sintas arrependido, pessoas como tu nunca se arrependem, só procuram novas oportunidades para voltarem a trair os amigos mais desprevenidos e voltarem a trepar na vida.
Meu caro, despeço-me desejando, do fundo do coração, que não te consigas safar desta, porque significaria que alguém iria arcar com responsabilidades que são exclusivamente tuas.