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EDIÇAO NºLIX
, I NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
COMENTARIOS GERAIS
COMENTARIOS TEXTO A TEXTO NO FINAL DE CADA ARTIGO. COMENTE! QUEREMOS OUVIR A SUA VOZ.
(Continuação) O SONHO por Manuel Fragata de Morais (Ver inicio)
O vendaval viria e a chuva transformadora apareceria para fazer brotar a flor, liberta e anunciadora de novos tempos. Entretanto, diante meus olhos infantis, desfilariam os horrores de cinco séculos de guerras, intrigas, morticínios, profanações, humilhações, comércio de carne humana, todo este cortejo banhado por uma torrente vasta de sangue, muito mais ampla do que o rio em que haviam aportado as caravelas nesse fatídico dia.
Rio cuja origem pensavam os invasores nascer num instrumento romano de tortura erguido na Palestina, cruz moradia fétida de um homem enfezado morto pelos seus e pelos romanos, porque ousara libertar suas gentes não só da opressão dos fariseus, como da dominação romana, com palavras de amor e gestos de igualdade. Contra sua livre vontade, viu-se metamorfoseado por aqueles que o seguiram pelos séculos afora, no maior criminoso divino. Inocente, feito morrer para salvar o impossível, a condição humana, assiste do seu lugar no etéreo a uma imensa vaga de crimes cometidos e justificados em seu nome.
Foi pois aos pés desse símbolo, desses dois pedaços de madeira cruzados, que os
minkixi (feitiços) dos brancos deglutiram crianças como eu, estraçalharam-nas e
enfiaram-nas em barcos que as vomitaram em mundos novos e longínquos. Separados
de seus pais e terras por um longo mar de escravidão. Não entendi o gesto dos
novos feiticeiros albinos, subtraindo o poder de dominar e escravizar àquele pau
em cruz no qual haviam imolado um semelhante e que apregoavam ser a cruz da
bondade e da justiça.
Vi assim, desfilar a História no avanço dos tempos, no renascimento do mítico
Fénix, no descarregar do peso escravo na tomada de consciência. Desde o início,
tal como o vento a soprar benigno por entre os troncos da mafumeira, cada sopro
uma melodia, uma canção fina sussurrada, passaram por mim nomes que jamais se
vergaram
NZINGA A NKUVU...
Onde vira eu já este rosto, imponente e desdenhante? O mfumu (rei, chefe) que
recebera os forasteiros, na mão desdenhante, a cruz do novo pagão imposto. Na
mão direita segura a cruz do pagão ora imposto. Meio cobrindo os tecidos de
ditombe, a pele do leopardo imponente. Nos punhos grossos e fortes, braceletes
aguerridas. Aos ombros largos e levantados, a capa de mabela que se agitava ao
vento. Em gesto de desdém, o mfumu ergue a crus forasteira e destrói-a com
violência no chão. O nganga albino que ali fora deixado pelas caravelas já idas,
acabava então o seu curto reinado.
Ao passar do tempo, o nganga furioso salta ágil como o macaco, revoltado com a tolerância dos chefes passados por não terem logo percebido o mal. Volteia no ar longos arcos de fogo, parábolas infernais, formas mirabolantes de esconjuração. Ofegante, cai no chão de bruços, para na dança silenciosa do gesto mágico, cobrir de pó o rosto, invocando os minkixi que poderão destruir o mal que pressentia vir pelos séculos fora. Da sua boca escancarada brota espuma barrenta, e a água da chuva cai-lhe em cataratas sobre a pele negra e luzidia, tonificando-o
Através dele, os mortos ordenavam ao povo que se levantasse e que não permitisse
o dizimar de suas gentes. Segundo o nganga, não andavam nos ares os nkita
(espíritos) heróicos queixando-se do abandono, do desleixo e das guerras entre
irmãos que permitiam ao branco levar os vencidos para terras estranhas? Teria,
perguntava ele, todo o povo que se tornar mvumbi (espírito) no mfinda
(cemitério)? Perdera o mwanda, a sua alma, a sua essência?
Não!
O nganga não aceitava que assim viesse a ser, seus minkixi dariam nova força ao povo, este levantar-se-ia sob o comando de outros chefes.
NGOLA KILUANJI...
Vi então o bravo capitão branco, um a quem as gentes chamavam de Novaji (Paulo
Dias de Novais) prisioneiro do poderoso rei da Matamba. A cobra já parira seus
ovos, o veneno não era novo e inexperimentado, as miçangas e os apitos já não
mais encantavam o incauto. Seis anos restou cativo, para conhecer o poder do
reino africano e partir para os seus com o recado de não mais voltarem. Todavia,
não bastou...
MBULA MATADI...
A fogueira devoradora do capim seco, feito mar e feito fogo. Ei-lo feito terra a
amar quando seu corpo, trespassado, partiu para o mfinda, o cemitério, onde os
antanhos o aguardavam vitorioso. O sangue ainDa morno manchava a pele de nzuge
que meio escondia a pulseira de metal, ulunga (símbolo do poder), torcida em
braço forte e inchado. E no fundo do rio, depois da viagem, uenda ku maza (ida
para a água), houve festa.
NZINHA MBANDI...
a águia cuja sombra pairou pavorosa sobre as cabeças do invasor. A árvore
centenária na qual as cigarras cantavam lendas de heróis guerrilheiros. Ela, que
foi a esperança que brotou das rochas de Mpungo a Ndongo, fluindo cristalina
para o Kwanza, transbordado em fúria avassaladora num vasto lago único de
resistência. Ela, aquela mulher trovejante e soberba, guerreira dos guerreiros,
irmã de Ngola Mbandi, que se encontrara com o poder forâneo, soberana livre,
para tratar e ser tratada de igual para igual. Senti-me orgulhoso dessa mulher
trovejante e soberba que vergava os canaviais inimigos guerreira das guerreiras,
irmã de Ngola Mbandi. Ela que soube mostrar ao governador branco que em sua
terra ninguém se lhe sobreporia, que não lhe exigiriam tributo humilhante, que
ali fora como soberana livre, enviada do grande Ngola Mbandi, para tratar e ser
tratada de igual para igual. Ela, que fustigara as hordas inimigas pior que a
febre do mosquito amarelo.
EKUIKUI…
A florescente semente do milho perene nas lavras da liberdade, escondendo no seu
seio as lanças atentas. A vida gerada nas caravanas marfineiras, no zumbido
labor das abelhas em bolas de mel. Não como as vozes dos fracos que anunciavam
em lamentos – bem o tínhamos dito, fujamos, somos a geração de compra e venda.
Mãe que me trouxeste ao mundo, vem cá ver, estou partido como o nyombe (pequena
árvore) reclinado sobre o joelho.
Não!... O nyombe nunca partido, reclinado sim, porque da dura labuta que extrai
harmoniosos prantos de alegria à terra mãe, ditosa natureza geradora que nos
enche os ventres, emprenha os músculos que seguram as armas e rega o cérebro de
sangue fresco e cálido.
Foi também isso que ouvi de MUTU YA KEVELA…
Não somos gerações de compra e venda e tu, África que nos trouxeste ao Mundo, vem ver, estamos fortes como o pau de takula, erectos como mais alto e colossal dos embondeiros (beobab) e firmes como o singelo yombe.
MANDUME…
Não, nunca! Foi o grito do cavaleiro fulminante do sul, a pele do boi negro, as
areias do deserto erguidas na poesia das fugas incontritas, o rastro da pólvora
sempre acesa que de um lado quer do outro do rio Kunene. Unicamente pelas suas
próprias mãos, conseguiu a morte chifruda envolvê-lo no cabedal negro e levá-lo
para repousar nas terras férteis do curral. Não coube ao invasor essa glória!
Mas do ovo nasce o avestruz que percorre livre os arbustos espinhosos das areias
e o leite das vacas amamentará a nova alma.
Exausto, ainda conseguiu ouvir o ribombar da nova e moderna herança. No seu derradeiro esforço, a História descartava o fardo antigo e secular. A beira do Kwanza, a nova luz introduz-se nos corações dos homens e invade as matas, as longínquas chanas, e quebra as algemas finais. A ndua (ave rara e arisca de plumagem muito linda) canta o choro do parto:
«Criar
criar com os olhos secos
criar, criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impudica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar, criar com os olhos secos
criar, criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos
criar, criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
criar, criar
criar liberdade nas estrelas escrava
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forças similadas
criar
criar amor com os olhos secos»
Nota: Poema de Agostinho Neto
http://www.literaturafragatademorais.blogspot.com/