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EDIÇAO NºLIX
, I NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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Introdução a uma ideia de Linguagem
Por
Daniel Teixeira
Falar de linguagem é, antes de mais, falar de um qualquer tipo de formulação simbólica cujos princípios básicos – em termos de integração dos seus componentes num campo mais vasto que é a relação social ou as necessidades decorrentes da relação social – não difiram substancialmente de outras formas de formulações simbólicas que impliquem comunicação e que obtenham assim o estatuto de formas de linguagem.
Podemos partir desde logo de um ponto esclarecedor: linguagem é essencialmente comunicação; sem comunicação não há linguagem e sem linguagem não há comunicação.
Embora se possa por a eventualidade de haver dois indivíduos, por exemplo, ambos portadores de linguagem, mas que dadas as diferenças entre elas (como formulações específicas), não comunicam, apenas poderemos constatar que eles não comunicam entre si, mas que ambos são portadores de um sistema (neste caso são portadores de pelo menos dois sistemas) de linguagem cujo fito principal e essencial é a comunicação, ainda que ela não seja praticada ou conseguida entre esses dois indivíduos.
Breve a linguagem (uma ou várias dadas formas de linguagem) como forma de comunicação, existe em potência (como capacidade para) embora possa não existir de facto.
Não vamos desde logo entrar por caminhos escusos que nos levem a supor a hipótese de poder haver, ou poder ter havido, linguagem sem comunicação, existindo ela potencialmente. Alguns autores pressupõem a hipótese remota de, tendo havido um primeiro ser, ele ter tido necessidade de falar (comunicar) sem que a sua preocupação tivesse sido a preocupação típica de comunicar (com outrem). Terá comunicado consigo mesmo porque a palavra, o signo, é e terá sido a única forma de o homem meter dentro de si a exterioridade.
De um lado porque a imagem interiorizada da realidade quer no seu todo quer parcelarmente não representa, ponto por ponto, a realidade – por isso é uma imagem (interiorizada) e para o efeito pode ver-se neurologia e consciência – e por outro lado porque seria extremamente difícil catalogar e ordenar todos os aspectos específicos da realidade adquirida.
Para aceder à exterioridade e poder trabalhá-la da forma que quer ou da forma que lhe é possível o homem teve de transportá-la para dentro de si e a única forma de o fazer é e terá sido aquela de reduzir a exterioridade a símbolos; fónicos, gráficos ou outros mas sempre símbolos, que, ainda que incluídos em sistemas primários ou em sistematizações naturais, ou seja, em sistematizações nascidas naturalmente (espontaneamente) por força da sua própria dinâmica, não deixariam nunca de ser linguagem e de se constituir em linguagem.
E a linguagem é comunicação ainda que feita de indivíduo para indivíduo e deste para / com a natureza (uma vez que a sua ideia dela – natureza - é sua imagem e semelhança como representação histórica, descrita no presente retratando este, o seu passado ou o seu futuro).
Esta última afirmação implica o aprofundamento desta ideia através de uma outra que será aquela que dirá que a natureza não respondendo (ou não recebendo a mensagem) acaba por faltar como elemento na comunicação e que, força disso, não existirá comunicação.
Os sistemas rituais de prece à natureza não têm necessariamente a resposta desejada por quem as faz, mas a psicologia humana depressa a desculpa ou se culpa a si mesma ou factores exteriores. Assim, não interessa aquilo que nós pensemos sobre a natureza e sobre a sua capacidade de responder ou não aos símbolos humanos. Interessa sim aquilo que o homem pensa que a natureza faz, ou que não fazendo, acaba por lhe comunicar como não feito.
Os estudos antropológicos e arqueológicos demonstram claramente que o homem é, desde os primeiros fósseis humanos encontrados, capaz de falar e que não se compreenderia o porquê da existência de um atributo não utilizado, cujos instrumentos técnicos (ossos, espaço pulmonar, língua,) para mais se desenvolvem no sentido do aperfeiçoamento da fonia ao longo dos anos.
Mas contra a simplicidade deste argumento existem outros que nos levam a afirmar que existem abundantes demonstrações na anatomia e na fisiologia humana de potencialidades não utilizadas ou utilizadas apenas parcelarmente na sua relação com o todo potencial conhecido.
Assim, o homem terá falado consigo mesmo e com a natureza e terá esperado dela respostas e provavelmente no seu inconsciente tornado consciente por força da crença terá, inclusivamente, ouvido a natureza responder-lhe. Todas as manifestações artísticas dos períodos mais remotos da pré-história e outras caminham no sentido de nos indicar que o homem falou com a natureza, ou seja, comunicou, por muito fantasiosa que tenha sido a sua percepção das respostas desta.
E falou para si mesmo quando lhe faltou interlocutor, tudo incluído num processo dialéctico de aperfeiçoamento quer da linguagem quer do conhecimento. O chamado processamento do simbólico no indivíduo desde quase o seu nascimento, defendido por psicólogos como Piaget, embora interessante no plano do conhecimento e da aprendizagem do conhecimento, em termos sumariamente antropológicos peca pelo facto de ser analisado e testado em indivíduos cujo referente linguístico é de certa forma elevado, ou, pelo menos, substancialmente diferente daquele com o qual o homem se confrontou no início (ou nos inícios) do processo de construção primário da linguagem na humanidade e por esquecer este factor.
O processo de aquisição do conhecimento não pode ser analisado e dado por válido sem ter em conta a sua evolução histórica. Assim, e entendendo que a linguagem é – para além de ser expressão interna do pensamento – uma forma de comunicação de processos cognitivos tendo em vista a exteriorização dos mesmos, falar por gestos, por exemplo, ou falar por uma outra forma qualquer será, em princípio, o mesmo, guardadas que sejam as diferenças entre as potencialidades de cada um dos sistemas.
Contudo, esta dualidade (que posteriormente se subdividirá em diversas variantes) entre linguagem exteriorizada e linguagem interiorizada constituindo o grosso das ideias de formulação linguística não esgotam a complexidade do processo linguístico.
A Arte Moderna é Aristocrática?
«Que essa arte não é feita para o povo? Naturalmente que o não é - nem
ela nem nenhuma arte verdadeira. Toda a arte que fica é feita na
história das sociedades, porque o povo passa, e o seu mister é passar. A
nossa arte é supremamente aristocrática, ainda, porque uma arte
aristocrática se torna necessária neste Outono da civilização europeia,
em que a democracia avança a tal ponto que, para de qualquer maneira
reagir, nos incumbe, a nós artistas, pormos entre a elite e o povo
aquela barreira que ele, povo, nunca poderá transpor - a barreira do
requinte emotivo e da ideação transcendental, da sensação apurada até à
subtileza (...)»
(In Fernando Pessoa, Páginas de Estética, Teoria e Crítica Literária -
Sobre Escolas Literárias -10- A arte moderna é aristocrática.
1915-1916(?) ).
O facto de o artista, neste caso Fernando Pessoa, se colocar e colocar os artistas na sua concepção acima da gente comum, e as suas opiniões sobre a democracia e a sua função «submersora» da arte tem de ser enquadrado na sua época e no tipo de democracia que era corrente na altura. Sendo a larga maioria da população iletrada a democracia era antes de mais uma oligarquia...daí os receios perante a ideia dessa democracia se dividirem em dois campos.
De um lado, a falta de sensibilidade artística como factor comum e perigo para a cultura e o processo cultural e de outro lado o receio dos grupos económicos (eles afinal os verdadeiros beneficiários desta democracia a meio gás). O «perigo» do patriotismo deve também ser encarado nesta perspectiva uma vez que o patriotismo não representava mais que a defesa dos interesses das oligarquias e dos monopólios.
A reserva dada ao artista, como guardião da cultura, erigindo-se ele mesmo como elemento da uma elite, de alguma forma continuadora da elite culta que tinha restado e resistido desde a monarquia, sendo mais discutível, aparece-nos como uma ideia extrema, em que a reserva da cultura acaba afinal por passar para mãos plebeias que se não consideram como tal através da sua capacidade de criação e cultura.
Não se trata de um texto fascizante, mas anda lá por perto...daí que no período em que Pessoa vive, e de cujo movimento ainda faz episódica parte (a Renascença) tenha tido no seu oposto como ideia indiscutível de extrema direita o Integralismo Lusitano, cujo termo ainda foi objecto de disputa entre os Renascentistas e os fundamentalmente integralistas.
Daniel Teixeira