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EDIÇAO NºLIX
, I NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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COLUNA DE JORGE VICENTE

«Se no primeiro livro, Ascensão do Fogo, o poeta Jorge Vicente escrevia de
forma a que a pele dos poemas deixasse antever o ritmo da criação das
palavras, o binário a quaternário, e a sua tatuagem em nós era sem dor
apesar das impressões em profundidade que libertava na língua neste segundo
livro, Hierofania dos Dedos, que é de desvendamento e de ocultação do poema,
este é personagem inteiro da casa - poesia, oculto ou manifesto, orgânico. O
mais que se pode dizer é que há um som de alaúde, redondo, que percorre este
livro página a página em que «uma montanha é um corpo e uma mulher o vaso
que alimenta as neves - o saber iniciático da mãe» (poema 18). O espaço de
intervalo dos poemas é o caminho do poeta, por descobrir, e o nosso.»
Cristina Veora
(in Público, dia 5 de Fevereiro de 2010, suplemento Ípsilon)
(ao antónio ramos rosa)
o pássaro pousado no parapeito da minha janela
é aquela substância penumbrosa, que evoca o
silêncio e o remete para um lugar indecifrável,
que não nos resta senão conhecer,
com aquele conhecimento feito de
figuras de estilo, herméticas e fechadas.
o pássaro pousado é uno com a paisagem
que o transfigura, um excesso da criação,
um espaço entre sons, entre dois versos
que escrevo no intervalo dos dedos.
o pássaro pousado é a manifestação mais
plena da sagrada escritura do corpo.

2.
ontem, matei um homem. nada mais do que isso. nenhuma cintilação dos ossos.
nenhuma ânsia em experimentar o que quer que fosse. apenas o desejo íntimo
de incriar através do sangue. toda a morte é uma procriação ao contrário.
vive-se e entra-se de novo na vida. a vida de dentro.
nenhum poema escrito dará a entender o que quer que seja. nenhuma palavra
cortada às fatias, como se de sílabas fosse feito o corte. e o sangue.
apenas um homem. e a história milenar de todos os homens que habitaram
dentro dele. para quê a vida se todos os outros se poderiam libertar.
nada, mas mesmo nada é deixado ao acaso. a sombra é o reflexo do astro. e o
astro é o reflexo da faca deixada no lugar da humanidade.
«eu d'esta gloria só fico contente
que a minha terra amei, e a minha gente»
António Ferreira
o meu olhar abarca todo o mural
da cidade, como se ela existisse
apenas em pedra, sem as pessoas
e sem o rumor dos mercadores,
ardendo no repasto dos seus olhos,
ávidos do sacrifício das águas
e pedindo que o país não seja
mais do que um sonho infantil.
lá em baixo, na cidade antiga,
as mulheres da vida encostam os
seios no colo da Virgem e escrevem
poemas, como se de orações fossem
feitas a frieza dos barcos, navegados
por homens e não por peixes.
o olhar da mouraria é feito do meu
olhar, o olhar do castelo na altura
do são pedro , o olhar das gentes que
se enfeitam e que descansam o sal no
coração da areia, esperando que Deus
traga a morte na próxima revolução das
ondas.
Jorge Vicente