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EDIÇAO NºLIX , I NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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A Sagrada Família

Crónica por Maria das Candeias Leal

Vivemos pela segunda vez no Ontário, segunda-feira passada, dia 16 de Fevereiro, o Dia da Família, que se seguiu ao Dia dos Namorados e do Amor. O Dia da Família, feriado para uns mas não para todos, mereceu-me esta reflexão.

Quem quer que seja que teve a ideia de criar o conceito da Sagrada Família, sabia que ele iria ter uma grande influência no Mundo. Ora, todos nós sabemos que quem mais beneficiou dessa ideia foi a religião. Infelizmente, o povo só lhe presta homenagem nas imagens que se encontram nas igrejas, nos livros religiosos, nas estampas, nas pequenas estatuetas do oratório que têm em casa, baptizadas por Jesus, Maria e José.

Eu também adoro a Sagrada Família. Desde criança que considero a família sagrada; só que não é a que está nos oratórios, ou estampas, mas sim a que é feita de carne e osso, a que sofre, a que ama e precisa de ser muito mais acarinhada do que a outra. Digo isto sem querer ofender alguns leitores e desde já peço desculpa pela minha maneira de pensar.

Julgo que quem a inventou, fê-lo pensando como eu, para que as pessoas a tomassem como exemplo. Porém a maioria não vê isso: adora a que foi criada na estatuária e na crença mas não ouve nem sente, e até maltrata, a que tem os cinco sentidos.

Sentada um dia no vão da janela da velha casa, relembrei a família onde fui criada, que bem poucas vezes a considerei sagrada; porque, em vez de amor, carinho e harmonia, havia desordens e maus tratos. Momentos houve em que a julguei pura.

Quando ainda criança, sentada à mesa - que servia tanto de mesa de jantar como de escrivaninha -, fazia os meus trabalhos escolares e, sentado a um dos lados, mesmo analfabeto, o meu pai fazia-me algumas perguntas sobre a história de Portugal e, de vez em quando, passava a sua mão pela minha cabeça com carinho. No outro canto, a minha mãe fazia croché à luz do velho candeeiro de petróleo.

Ora, este quadro, para mim, representava uma família sagrada; não foram muitas as vezes que o vivi, mas o suficiente para o gravar na minha memória e começar a apreciar a Sagrada Família. Contudo, achava estranho que um lar recebesse o oratório da Sagrada Família em casa e não lhe seguisse o exemplo.

Naquele nicho havia pai, mãe e filho juntos. Porquanto, dava para entender que a família devia ser unida, fosse ela grande ou pequena. Porém, na minha maneira de pensar, a maioria das famílias que recebiam o oratório eram-no apenas no nome...

Chegada a hora da oração nocturna não havia união. O pai, a mor das vezes, após a ceia, saía para a taberna juntar-se aos amigos. A mãe, depois de lavar a louça e arrumar a cozinha, lavava os filhos, deitava-os e, sozinha, ajoelhava-se em frente à capela e rezava.

Será que ela não reparava que orava a uma Família unida enquanto ela se encontrava sozinha aos seus pés? Realmente há pessoas que não enxergam as coisas, ou então, se reparam nelas, não se dão ao trabalho de analisá-las e reflectir um pouco sobre elas.

Quando me casei segui a tradição. Contudo, o oratório com a imagem da Sagrada Família só entrou uma vez na minha casa; isto porque na hora de orar quis o meu marido ao meu lado mas ele não aceitou. Mesmo sem entender a minha própria atitude na altura, não quis rezar sozinha.

Acabava de formar uma família e, na minha parca inteligência, achava que devíamos fazer tudo em conjunto. E a Sagrada Família nunca mais lá entrou! Por isso digo que o meu lar, desde o início, não foi um lar de verdade. Receber o oratório em casa e orar sozinha era algo que não entrava nas minhas ideias.

Hoje, pergunto a mim mesma o porquê de ter vivido tantos anos agarrada a uma família que o era só nas aparências e não nos sentimentos. Terá sido pelos filhos? Em princípio julgava que sim, agora penso que não, mas sim pela tradição onde fui criada e pela grande vontade de ter uma família.

Até que um dia reflecti um pouco sobre a minha, que o era apenas de nome, e achei que lhe devia pôr um ponto final, mesmo continuando a adorar a família. Não foi fácil, mas tinha de ser feito: ou tinha uma família de verdade ou então não tinha nada. E assim, tal como fiz com a Sagrada Família não a aceitando mais em casa, pus termo à que nunca fora constituída de verdade.

Naquele tempo, quando não recebia a Sagrada Família no meu lar de faz de conta, sentia remorso. Julgava ser pela desobediência às leis de Deus. Hoje sei, que esse sentimento assinalava o começo de uma tomada de consciência.

A dor de não ter uma família de verdade. Uma Família Sagrada. Uma das coisas que mais gostava de ter tido na vida.

Hoje, serve-me de consolo a família que o meu filho mais velho criou e rogo, todos os dias, para que ela seja uma família eternamente sagrada.

Candeias Leal

candeiasleal@hotmail.com

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