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EDIÇAO NºLIX
, I NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
COMENTARIOS GERAIS
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COLUNA
DE ROSA PENA
2010
Eu imaginei um ano novo novinho em folha. Engatinhando em janeiro e depois
crescendo aos pouquinhos com o cálcio do juízo dos homens. No verão a
curtição de redescobrir o mar e me imaginar brincando na praia, ainda que
com bloqueador, mas certa que o sol é luz, vida, jamais morte.
Tomar sorvete alucinadamente, andar de havaianas.
O ano ficaria adolescente no outono, inversamente a metáfora, um bocadinho
emburrado tendo crises de granizo fora de hora, perdendo uma ou outra safra
de batatas, porém não deixando ninguém desabrigado, sem trabalho. Nublado
como os guris de quinze anos.
Quando o inverno chegasse ele já seria um adulto bem resolvido. Civilizado e
muito bem-educado. Saberia que não é permitido matar ninguém de frio, muito
menos destelhar casas que foram construídas com tanto sacrifício. Furacão,
terremoto, tsunami são coisas de ano revoltado. Ele não. Ele seria um ano
sem penitências, sem castigos, sem culpas.
Ano que desce redondo.
Envelheceria na primavera, florindo de alegria por ter sido um ano desencucado, desestressado, desarmado, desprovido de pecados mortais, apenas um ou outro capital ou menos ainda, indisciplina ou birras, como uma chuva fora de época ou um malcriado apagão, mas todo colorido de folhas e flores.

2010! Ah 2010! Nasceu idoso como o Brad Pitt em «O Curioso Caso de Benjamin
Button». Veio extenuado já na virada e com menos de quinze dias totalmente
depauperado resolveu exterminar um povo que apesar de sempre ter sido
castigado, teimosamente insiste em cantar pela vida ainda que com a garganta
seca de sede.
Aninho danado onde mais do que nunca não se pode baixar a guarda, delirar na
fantasia que todo mundo tem o que comer e onde dormir.
Aninho safado que não permite o faz de conta que todas as crianças possuem
uma vaga na escola e uma cama limpinha no hospital pra necessidade, rara
dentro de meu imaginário. Deveria existir um decreto onde ficaria
estabelecido que menores não podem sofrer.
Aninho cretino que teima em fazer minha esperança madura, quase podre.
Gostava dela bem verde!
Mas para que eu possa parar de chorar alto e tentar encontrar o meu sorriso
resolvi voltar para o roteiro do filme Benjamin Button. Quem sabe 2010 não
nasceu velho para acordar os homens da insistente mania de serem Deus?
Quem sabe ele não irá ao final nos surpreender virando um neném? Preciso
acreditar que as crianças haitianas vão enfiar os dedinhos em bolos de
chocolate antes dos parabéns.
Preciso acreditar nos parabéns.
Preciso acreditar.
Preciso!