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EDIÇAO NºLIX
, I NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
COMENTARIOS GERAIS
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Jerome David Salinger
(1919-2010)
Um ídolo da contracultura que se recluíu
Por
Arlete Deretti Fernandes.
«Sinto uma paz maravilhosa com a decisão de não publicar meus escritos; é
algo muito sereno. A edição de alguma obra representa uma terrível invasão
em minha vida privada. Adoro escrever. Mas escrevo para mim, para meu
próprio prazer».
L. D. Salinger, 1974- Entrevista que fez rapidamente por telefone ao New
York Times.
No dia primeiro de janeiro, o escritor norte-americano J.D. Salinger
completou 91 anos. Sua saúde piorou nos últimos dias e 5ª-feira, dia 28 de
janeiro, o agente literário Phyllis Wesberg anunciou que um dos maiores
escritores do pós-guerra morrera de causas naturais. Salinger não sofreu
nenhum tipo de dor, falou Wesberg, encerrando com uma frase simbólica: - Ele
dizia que vivia neste mundo, mas que não fazia parte dele.
Este escritor vivia isolado há mais de 50 anos, na cidadezinha de Cornish,
em North Hampshire. Os vizinhos nada revelavam sobre a sua rotina, e fotos
da intimidade são uma verdadeira raridade. Seu livro, «O Apanhador no campo
de Centeio», (1951) foi uma obra que apresentou uma voz completamente nova
na Literatura Americana, e rapidamente se tornou um livro Cult, um ritual de
passagem para os intelectuais e os desiludidos.

Ainda é misterioso o motivo que levou Salinger à total reclusão. Depois de
«O Apanhador no Campo de Centeio», livro que Mark Chapman carregava quando
assassinou John Lennon, em 1980, o escritor publicou Nove Histórias(1953) e
foi aclamado pela crítica, surpresa pela forma com que ele desmontara a
estrutura do conto.
Logo Salinger se tornou o ídolo da contracultura, que via em Holden
Caulfield, personagem do Apanhador No Campo de Centeio, sua figura máxima.
Este personagem tornou-se adorado por adolescentes e adultos. Publicado há
quase 60 anos, continua vendendo cerca de 250 mil exemplares por ano.
Ainda hoje, as primeiras frases do livro manifestam um poder de sedução
incomparável. Os demais livros de Salinger que foram publicados, tiveram
excelente repercussão. Além do Apanhador no Campo de Centeio, foram
publicados: Nove Estórias(1953); Francy e Zoey (1961) e Carpinteiros,
Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymor, uma Apresentação(1963).
Salinger fez parte daquele grupo de autores que, conhecidos, à certa altura
da vida se retraem do público, uns por um certo tempo e outros para sempre.
Isto aconteceu com Rimbaud, (1854-1891), muitíssimo precoce, que parou de
escrever poesias aos 19 anos para exercer atividades comerciais. Paul Valéry
(1871-1945) interrompeu sua carreira aos vinte e quatro anos e só retornou
vinte anos após. Stéphane Mallarmé (1842-1898), escreveu apenas sessenta
poemas nos trinta e seis anos de sua vida de poeta.
No Brasil temos Campos de Carvalho (1916-1998), autor de A Lua Vem da Ásia
(1956) , Vaca de Nariz Sutil (1961), A Chuva imóvel (1963) e que depois de O
Púcaro Búlgaro (1964), interrompeu quase totalmente sua trajetória de
romancista. O paulista Raduan Nassar, autor do lendário Lavoura Arcaica, que
há anos não publica.
O escritor brasileiro, Moacir Scliar, em seu artigo: «O Mito do Escritor Que
Não escreve» cita o seguinte: «Hoje em dia se fala do bloqueio do escritor,
de uma inibição do processo criativo, este igualmente misterioso e que não
depende da benevolência das musas. Usando uma explicação freudiana, trata-se
de uma falta de comunicação entre o consciente e o inconsciente. Neste
residem as fantasias, inclusive as literárias e no primeiro, onde elas são
passadas em termos literários. Por razões desconhecidas às vezes esta
comunicação se interrompe.»
Continua Moacir Scliar: «O problema com Salinger era um pouco diferente.
Talvez ele não tenha tido, ao menos nos primeiros tempos de sua reclusão, um
bloqueio. Até os anos 1970 continuou a escrever, e, segundo sua namorada de
então, Joyce Maynard, terminou dois romances. Mas não queria publicá-los.
Numa rara entrevista para The New York Times, disse que queria escrever
apenas para si mesmo, para seu prazer pessoal. Na apresentação de Franny &
Zooey, comentou: -Tenho uma subversiva opinião segundo a qual a sensação do
anonimato e da obscuridade representam algo valioso para o escritor.»
O Apanhador no Campo de Centeio
«Holden Caulfield perambula pela cidade à procura de si mesmo, de um
sentido para continuar a viver, e rememora momentos marcantes de sua vida.
Entre eles, quando a irmã pergunta-lhe porque era rebelde, porque se
auto-destruía e porque não gostava de nada, ele, angustiado, depressivo,
evoca a imagem criada pelo poeta escocês Robert Burns, uma metáfora de sua
vida. Imaginou um campo de centeio repleto de crianças brincando e ele na
borda do abismo apanhando as que caíam! Assim sentia-se, um reflexo de sua
geração.»
.
No decorrer da narrativa, o protagonista se formou. Holden sai de um colégio
rígido, no interior do estado de New York, para viver a vida com que
sonhava. O livro é um mergulho profundo no universo adolescente de Holden
Caulfiel.
Caulfield foi reprovado no colégio que freqüentava. Ele narrou suas
peripécias do ponto de vista de alguém que já foi tolhido pelos pais em suas
trapalhadas. Caulfield deixou o colégio e foi para New York, onde
encontrou-se com a garota que amava e tentou convencê-la a fugir com ele
para Vermont.
Após várias peripécias, encontrou-se com a irmã, mas evitou o contato com os
pais; saiu para a noite novaiorquina e teve um encontro – frustrado – com
uma prostituta.
Por seu ponto de vista carismático, a narrativa de Caulfield gerou muita
empatia e ajudou a tornar J. D. Salinger um mito, junto de sua
excentricidade já conhecida.
Há muitos pontos de contato entre a biografia de Salinger e esse texto:
Salinger estudou na Academia Militar de Valley Forge. Ele gostava muito de
conviver com adolescentes, tendo vivido com uma moça bem mais nova.
Holden Caulfield também afirmou não gostar do cinema de Hollywood, no que
também tem pontos de contato com Salinger.
Ele teve um texto adaptado para o
cinema e transformado no filme My Foolish Heart (Insensato Coração), fato
que decepcionou-o muito, daí ter proibido qualquer adaptação de seus livros
para sempre, além de também exigir que os textos saiam praticamente só com
seus títulos na capa, contracapa e orelhas. Excentricidades desse gênio que
foi e continua sendo Salinger .
Holden Caulfield, sai da escola porque foi expulso. Bebe, fuma e acha que
todos são hipócritas. Todos menos as crianças. Ele tem uma irmã menor,
Phoebe, a única pessoa que ele quer estar perto, que ele não acha falsa.
Phoebe é uma menina muito inteligente e sensível, sempre quando aparece no livro é como se ela fosse a «salvadora»de Holden. D.B, é outro irmão dele, mais velho. Embora Holden se mostre amoroso com a família (mais com os irmãos), ele não gosta que D.B escreva para Holywood, e o chama de «whore» por isso, por «se vender».
Por mais que Holden seja um menino meio estranho e certamente depressivo, ele respeita as pessoas e é carente. É um jogo de contradição, ele diz o quanto odeia alguém, mas por estar sozinho liga para essa pessoa.
Tem um grande ciúme de uma menina de quem gostou muito no passado, mas que deixaram de falar. Ela agora está ficando com o amigo dele. Não é muito bem um amigo, Holden só fala que ele é folgado, superficial e orgulhoso. É triste para Holden, ver a menina que ele mais se identificou e gostou, com um cara daqueles, que fica com todas e não respeita ninguém.
Ele teve outro irmão, o Allie, que morreu. Muitos acreditam que foi a morte do mano que deixou o Holden naquele estado, afinal, ele fala muito sobre o irmão e sente muito a sua falta.
Holden é ao mesmo tempo revoltado e bom. Parece que ele tenta ser mais rebelde do que é, pela raiva que tem do mundo. Mas ele não consegue, por que está sozinho e carente. Vai ao cinema e parece que entende de filmes, mas odeia todas as películas. Odeia tudo, todos os lugares que ele vai são ruins, todas as pessoas as quais ele conversa são tolas e hipócritas.
Ele acha que não consegue achar o lugar certo ou a pessoa certa, (tirando sua irmã com quem se sente bem), mas o problema é que ele carrega todos esses sentimentos, não importa onde ele esteja ou com quem. Ele sempre terá as mesmas queixas.
«A vida é um jogo, meu filho. A vida é um jogo que se tem de disputar de acordo com as regras.»
«-Sim, senhor, sei que é. Eu sei. Jogo uma ova. Bom jogo esse. Se a gente
está do lado dos bacanas, aí sim, é um jogo- concordo plenamente. Mas se a
gente tá do outro lado, onde não tem nenhum cobrão, então que jogo é esse?
Qual jogo, qual nada» (pag.12-13)