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PROSA E POESIA POR ILONA BASTOS

Fauna & Flora: Aquarela do Brasil
Um belo casal de periquitos! Ele, de uma delicada plumagem amarela, dá pelo nome de Tom Jobim. Ela, de verde vestida, chama-se Adriana Partimpim. Em conjunto, tratamo-los por Pimpins.
A lembrança destes nomes, algo surpreendentes, surgiu-me quando os trazia para o seu novo lar e me recordaram uma deliciosa aguarela, maravilhosamente desenhados e coloridos, em contraste com o cinzento da rua e dos passantes automóveis, adereços grosseiros desta paisagem urbana.
«Parecem uma Aquarela do Brasil», pensei. E, numa bizarra associação de ideias – afinal, não escolhi Ary Barroso para baptizar as criaturas – entendi prestar homenagem aos dois talentosos artistas brasileiros.
Na nossa casa, os Pimpins vivem na marquise, de onde assistem ao nascer do sol, e se abrigam ao anoitecer. Têm poleiros feitos de ramos de árvores, bebedouro com água e vitaminas, ossos de choco onde afiam os bicos, algumas guloseimas com sementes, frutos secos e mel, comedouros, e uma ampla banheira, para se refrescarem.
Faz-me lembrar uma luxuosa piscina das termas, este recipiente branco, coberto por uma abóbada transparente, onde os periquitos se banham. A base da alimentação destas lindas aves é uma mistura de sementes de vários feitios e cores, entre as quais me é possível identificar a alpista e o sésamo.
Constituem, para mim, um mistério, esses outros grãos redondinhos e brilhantes em vários tons de caramelo, bege e dourado, que os periquitos depenicam com prazer. Olhando para a comida dos periquitos enquanto alimento, nunca me consciencializei de que é constituída por sementes, ou seja, gérmen, promessa, base de vida.
Assim, foi com surpresa que hoje encontrei, ao lavar a piscina dos Pimpins, uma pequena planta composta por duas tenras folhas ligadas a um só caule, terminando numa pálida e diminuta raiz. Recuperada do espanto, apercebi-me de que aquele pequeno milagre de vida surgiu da imersão, em água, de uma das minúsculas sementes que constituem o essencial das refeições dos periquitos. Tão simples como isso!
Basta uma semente e uma gota de água para que a vida nasça, exaltada, veemente. E é suficiente um pouco de sol para que se expanda, ilimitada, em raízes, caules, folhas, flores e frutos!
Com que facilidade nos esquecemos da riqueza, complexidade, simplicidade e fascínio do milagre da vida que brota desta bendita Terra, que temos urgentemente, absolutamente, que começar a respeitar!
Parou, subitamente, e ponderou, por momentos, que talvez nunca conseguisse escrever o romance. Faltavam-lhe, porventura, a paciência, a aplicação e a perseverança necessárias! Nunca esta ideia lhe ocorrera anteriormente. Na verdade, começara por julgar que o problema residia na cadeira, onde não lhe era possível sentar-se, a escrever, por mais de cinco minutos.
Tal convicção levara-o, em certa ocasião, a acalmar-se e observar o assento com
extremo cuidado. Analisara-lhe a estrutura, a matéria prima, o design. Apalpara
conscienciosamente a almofada que o cobria, no que fora apanhado em flagrante
pela empregada, como sempre sorrateira a percorrer as divisões da casa em
passinhos silenciosos.
Ilibada a cadeira, voltara o olhar acusador para a desarrumação que cobria a secretária, para os montes de livros e papeis, em caos, que o cercavam. Como queriam que escrevesse no meio daquela confusão?! Nem conseguia ouvir os próprios pensamentos, cercado de tanta retórica, tanto ensaio, tanta lei, tanto apontamento desgarrado! Aquela escrita gritante afugentara até uma ideia fabulosa que lhe surgira no dia anterior, após o café.
Convencera-se, durante algum tempo, de que tomando uma chávena suficientemente grande de café suficientemente forte conseguiria escrever um romance magnífico, essa obra-prima de suspense e emoção de que falava aos amigos havia anos - o aguardado best seller que em tudo suplantaria as historietas banais, tão em voga, que a televisão e os jornais não se cansavam de elogiar.
Evidentemente, o seu romance teria um alcance absolutamente fora de série: à semelhança dos clássicos, narraria uma história universal, susceptível de tocar todos os homens e mulheres, independentemente da nacionalidade, raça ou credo; original, jamais se apagaria da memória de quem o lesse; intenso, inteligente e subtil, prenderia a atenção do leitor desde as primeiras até às últimas palavras; profundo e filosófico, traçaria uma nova concepção do mundo; épico, inspiraria feitos grandiosos; complexo, porém, linear, reuniria o aplauso unânime dos intelectuais; enfim, valer-lhe-ia o Nobel...
Nunca tivera dúvidas da sua elevada capacidade e do seu talento excepcional. E
com o café, então, as ideias que lhe atravessavam o cérebro tornavam-se
verdadeiramente geniais! Só havia o problema de se dissiparem com tanta rapidez.
Ao ponto de não conseguir passá-las ao papel. Quando chegava a garatujar algumas
palavras e as relia, constatava, estarrecido, que nelas não encontrava sequer
uma sombra da ideia magnífica que lhes dera origem.
E então, enervado, atirava com a caneta, amarfanhava o papel, levantava-se da cadeira, deambulando, desesperado, pelo escritório. Daí, naturalmente, que a primeira suspeita tivesse recaído sobre a cadeira... não é verdade? Mas, pensando bem... não seria, antes, uma deficiência da caneta? Como não se lembrara disso?
Sempre suspeitara do aparo, um tudo nada grosso em demasia, de uma maciez excessiva, que lhe tornava a letra grande, infantil, pouco profunda... e o gesto da escrita extremamente lento. Com certeza, encontrava-se aí o motivo por que, após tantos anos de tentativas infrutíferas, não conseguira ainda iniciar o seu romance!
Entusiasmado com esta hipótese, que revelava um sem número de novas perspectivas, decidiu explorar-lhe as potencialidades: abriu a segunda gaveta da secretária e de lá retirou, em transportes sucessivos, dezenas de canetas e esferográficas, que largou sobre o tampo, em euforia.
Passou, depois, a experimentá-las, uma a uma, metodicamente, desenhando elipses contínuas que percorriam o papel da esquerda para a direita, do topo para a base.
E assim preencheu folhas e folhas do seu bloco especial, durante a tarde toda,
indiferente à presença da empregada, que o espreitava, encostada à porta,
silenciosa, atenta, respeitosa, orgulhosa do seu patrão, o romancista.
EDIÇAO NºLIX
, I NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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