O SONHO

Por Manuel Fragata de Morais



Por volta dos meus cinco anos, costumava aprisionar uns gafanhotos castanhos gigantes que, ao voarem, ufanavam presunçosos suas belas asas de seda avermelhadas de um amarelo diáfano. Segurava-os com mestria e confrontava-os boca contra boca, tenaz frente a tenaz, voracidade mastigando voracidade.

Assim passava eu horas em encarnadas e sangrentas batalhas que ouvira da boca dos avós, nos contos das noites de sunguila (conversa). Ou nos jogos de crianças mais velhas, reconstruindo qualquer feito de qualquer herói da memória colectiva.

Uma águia-real pairou sobre o ninho em círculos concêntricos, e o vento aportou seus pios estrídulos de amor. Reconheci nela o amigo que tantas e tantas vezes sobrevoava, alto nas nuvens, a nossa senzala. Em voo picado baixou até desaparecer no horizonte e, pela primeira vez ao olhar para baixo, vi uma paisagem até ora por mim despercebida. Vi, perplexo, a embocadura de um rio voraz que espraiava, mar adentro, ruidosamente. Desorientado, procurei pela senzala familiar, o casarão do roceiro, os terreiros do café, qualquer coisa tranquilizante, qualquer cheiro conhecido.
Nada!...

Só rio, água do rio e aquela massa infindável que eu então julgava ser um grande lago, do qual não apercebia o fim. Espremi os olhos e vislumbrei três pontos pequeninos que avolumaram ao passo da aproximação. Maravilhei, nunca houvera visto embarcações de tal tamanho, barcos que nunca sonhara existir, gigantes bojudos das águas com línguas soltas ao vento.

A selva logo se manifestou no ribombar dos tambores coma a notícia estranha. Os ecos percorreram céleres caminhos montanhosos até à capital do reino. E ali, os corações encheram-se de alegrias e receios, enquanto aguardavam por mais notícias. Pela embocadura adentro desfilaram as caravelas. Nas margens, as gentes, vindas de perto e de longe, uns a pé, outros de canoas velozmente impulsionadas por braços sinuosos e decididos, aguardaram atrás d chefe local, que trajara suas peles de leopardo, adornara a real cabeça e segurava determinado a lança, os dentes da onça pendurados em argola no pescoço, oferendando-lhe ar imponente, desabrigado e senhoril.

Os velhos preocuparam-se e, de rostos contritos, buscavam um sinal da expressão do mfumu (chefe). Este, vendo-lhes a preocupação, levantou a lança e disse-lhes:
- Enti uwende emavungu, kewatembelanga ko. (A cadeira, trono, na qual o chefe se senta, não estremece - A autoridade de um chefe é inabalável)

As crianças corriam espalhafatosamente até ao rebordo da praia, corpos nus, luzidios negando o chamamento das mães temerosas, as praias engrossando com a chegada de novas gentes, admiradas e assustadas. A maioria ficava pelo rebordo da mata. Por fim, à medida que os monstros marinhos se aproximavam, línguas de pano desfraldadas em arrogância, as crianças foram chamadas e recolhidas. O mestre nganga (curandeiro), observando um milhafre voar razante com um rato morto nas garras, predisse augúrios e maus presságios, desaconselhando o fascinado chefe:
- Ngandu didi muntu, mfundu ba na mamba O crocodilo comeu um homem em conivência com a água – Há perigos que são misteriosos), disse.

O povo inteiro acocorou-se no mato quando do bojo do monstro marinho saíram pequenas embarcações, repletas de gente, que pousaram na água. De longe, as cordas que as sustinham não eram enxergadas e todos acreditaram da descensão maravilhosa, anúncio do poder dos estranhos, deuses albinos. O rato morto caiu aos pés do mfumu, largado pelo milhafre que ainda circulava em cima, talvez ele igualmente espantado.

Os estranhos remaram vigorosamente para a praia, lanças enormes reluzindo ao sol. As crianças, mal dominando o medo, irromperam em choros e prantos descontrolados, gritos de bicho acossado. As mulheres deitaram a fugir com as crias, como puderam, enquanto os homens colaram os corpos quase nus ao capim vergado. Só o mfumu e mais alguns se quedaram erectos.

Que seres seriam aqueles, tão estranhamente trajados e de pele que nunca recebera o sol? Divindades das águas? Estava anunciado que a salvação do reino do Congo viria de seres albinos, seria esta a hora? Se não fosse, só poderiam ser seres doentios, feras ou divindades malignas esconjuradas pelas rezas e artes ineficazes do nganga, que urgia o chefe a desbaratá-los com o seu espanta raios.

Este, fascinado pelos adornos jamais vistos, pensava que com eles poderia ser a inveja dos chefes vizinhos. Em gesto ousado e corajoso, mostrou-se de longe, sua imponência e ar arrogante anunciando a condição de realeza. Ainda que amedrontados, os nobres imediatamente o seguiram, precedidos pelo conselho de anciãos.

Lá em cima, na tranquilidade do ninho da mbemba (Águia das palmeiras), admirei a coragem dos homens enfrentando aqueles que ainda não sabiam ser o pior dos monstros existentes. Monstro que durante longos e ignóbeis séculos iria alimentar-se na inocência e pureza que agora os recebia. Que regalar-se-ia pantagruelicamente no seu sangue, sofrimento, humilhação e morte. Como desejei poder descer e avisar, gritar com todas as minhas forças de criança que trespassassem imediatamente com suas setas a cobra venenosa que lhes acenava encantos jamais vistos, o mundo maravilhosos do arco-íris.

O nganga contorcionava-se em pasmos de agonia, espuma esvaindo-se-lhe da boca que murmurava sons ininteligíveis. Certamente que pedia, em suas pragas, que o chefe os não recebesse. Talvez sentindo o poder ameaçado, vi-as como curandeiros mais fortes e ferozes, contra os quais desconhecia medicinas.

- Nyoka kababakilanga ya ko ha kati kati (Ninguém segura uma cobra pelo meio – A confrontação desnecessária do perigo pode trazer consequências) - afirmou de novo o nganga.
Que impotente e só me sentia, mero espectador fascinado pela visão do futuro e horrorizado pelo conhecimento do presente.

Os estranhos, os brancos, aperceberam-se do chefe e sua comitiva e acenaram gestos amigáveis, todavia as lanças ríspidas para a defesa. Ordenaram que viessem uns baús e, em acto de magia e feitiços, panos coloridos, quinquilharia da mais variada, miçangas, argolas, sacos e sacolas, espelhos, colares e pentes, flautas e instrumentos de corda pronto rodopiaram no ar em cumplicidades multicoloridas, fascinantes e convidativas. Buzinas, apitos, badalos e tamboretes que encantaram de modo irremediável o próprio nganga.
E o transe hipnótico atraiu inexoravelmente o povo.

As peles trajadas do leopardo, cautelosas ainda em seus passos humanos aos ombros do mfumo, observavam com desconfiança a palidez epidérmica dos forasteiros. Seus estranhos cabelos lisos por baixo de capacetes ainda mais raros, pés revestidos de peles peladas e, no peito, uma carapaça de cágado protegendo-os. Como resistir a tal fascínio?

E as artes mágicas continuaram, agora já vestidas nos corpos dos nobres, enfeitando cabeças da realiza, vomitando sons musicais agreste nas bocas das gentes, adornando esbeltos pescoços femininos, e colares e pinturas sobressaindo nos peitos másculos dos guerreiros. Sim, como resistir a tal encanto e felicidade, que essa gente poderia ser má?
Não!...

Havia pois que mandar vir os tambores e os dançarinos, agradecer o recebido tão realmente e dar as boas vindas aos novos amigos, até porque todos sabiam que um estranho com fome não fala livremente. Havia muito a indagar, a saber e a aprender.

Dias poucos mais tarde, partia para a grande Mbanza capital do reino, uma longa marcha de gente, acompanhando os pálidos emissários, que haveriam igualmente de fascinar o poderoso rei e, o monstro forâneo, engoliria irremediavelmente o primeiro troço da sua conquistada vitima, entre batucadas festivas e honras dignas de boa fé e confiança.

Todo este espectáculo esvaziou-me por inteiro e as minhas pálpebras pesaram como um robusto cacho de bananas. Minha cabeça pendeu para o lado e adormeci até despertar, não sei quanto tempo depois, aos gritos de uma multidão delirante que saudava os barcos a descer o grande rio, Mzadi, sem saber que haveria de ser esmagada até à hora em que resolutamente sacudisse esse peso ignóbil das suas vidas e consciências.

(Continua)

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EDIÇAO NºLIX , I NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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