EDIÇAO NºLIV , III NUMERO  DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS

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COLUNA UM

Selecções - XI -Quase no final da finalíssima parte.

Daniel Teixeira

Esta parte, que deveria ser a mais fácil, está com ligeiros problemas. Mas tudo se resolve...

Ao longo dos dias, todos os dias, infelizmente, vamos sentindo na pele aquilo que se pode chamar «os custos emocionais» da comunicação e quando faço esta referência foco um aspecto que tem sido estudado, ainda que com maior incidência noutros campos.  Têm sido estudados os casos dos custos para o mais são possível desenvolvimento das crianças e jovens perante o fenómeno da televisão e das novas tecnologias e jogos, nomeadamente no que se refere à mostragem de violência e ainda referindo-se os riscos das novas formas de comunicação.

São fabricadas funções de «controle parental» na Internet, limitando o acesso a sites e funções consideradas de maior risco, ou com maior potencialidade de risco, mas quem por aqui anda - como nós que temos de fazer uma parte da nossa vida neste «cómodo» posto - entende facilmente que as limitações impostas reduzem as coisas mas não as anulam.

A «intromissão» da Net, por exemplo, nas nossas vidas privadas é uma situação com a qual temos de estar de acordo, ainda que obrigados, uma vez que a filtragem das coisas é de certa forma cega. Tenho na minha vida aqui (na Net) encontrado sites das mais prestigiadas instituições cobertos por avisos de eventualidade de perigo (porque o protocolo da origem é duvidoso, dizem, ou não reconhecido) assim como tenho encontrado sites, normalmente de imagem (busco muitas imagens na Net) que já não me surpreendendo acabam por não ser aquilo que deveriam ser, de facto.

Não temos controle, pelo menos um controle aceitável, e as coisas irrompem no ecrã pelas mais diversas janelas ou técnicas de desvio de link. Está muito na moda agora falar-se aqui em Portugal dos medicamentos comprados na Net, e da publicidade que lhe é feita, mas são literalmente toneladas os mails que se recebem sobre isso. Mas quanto a mim essa talvez fosse a última coisa que eu fizesse se um dia tivesse de estabelecer  uma relação mais confiante com a Net : embora na sua grande parte o medicamento não seja um bicho de sete cabeças para quem é doente de longa data, ou mesmo não o sendo, que seja uma pessoa mais informada. Eu ... mesmo daqueles que tenho de comprar legalmente tenho receio...e em rigor, gostaria de estar lá ao pé do operador na altura em que ele é feito e metê-lo logo depois no bolso.

Contudo, apesar da Net já incluir um largo número de pessoas com acesso à mesma isso não se compara nada com o número das pessoas que têm acesso a uma televisão. E por ela passa praticamente tudo, e só não passa mais porque os chamados Canais Premium porque custam dinheiro acabam por coarctar o aparecimento de algumas coisas. E essa é uma das poucas vezes em que vejo alguma utilidade na existência dos canais fora de pacotes acessíveis e correntes.

Ora a Televisão tem trazido, com algum pudor nem sempre muito evidente a desgraça da população do Haiti, assim como noutras alturas trás outras coisas. Pressionados eticamente para não mostrar muito do horrível, acabam os canais de televisão por enveredar pela cobertura das acções de salvamento, onde realmente têm acontecido coisas extraordinárias em termos de demonstração de capacidade de sobrevida em situações de extrema carência. Mas uma coisa é mostrar-se essa realidade venturosa do ressurgimento outra é numerizar-se os outros, os que morreram.

A ética e a notícia (o critério noticioso) nem sempre convivem bem e é necessário haver primeiro jornalistas responsáveis e depois uma supervisão cuidadosa que possa apanhar e questionar eventualmente o equilíbrio dos  dois pratos da balança. Mas, pergunta-se e responde-se: num mundo onde quase tudo é possível, há quase sempre quem acabe por furar as normas, mesmo que elas tenham sido contidas e respeitadas por A, B e C sucessivamente.

Claro que reconheço que nestes momentos possa existir alguma confusão nas cabeças das pessoas chocadas com tanta brutalidade e que até possa existir a reprovação pelos actos de violência que se lhes seguem: evidentemente que não é bonito, não devia acontecer, mas aquele pessoal luta pela vida em condições extremamente difíceis, em situações de limite do humano. Neste momento não lhes cabe a eles raciocinar e distinguir entre o Bem e o Mal : cabe sim às organizações criarem condições para que essas coisas não aconteçam.

Mas, e também, com tanta tecnologia, tanta peneira pela eficácia, os EUA por exemplo já demonstraram quando do furação Katrina em New Orleans que tudo é relativo neste mundo e tão relativo é que no caso do Haiti apregoam e mandam para o Haiti tropas de elite (de guerra) para fornecer assistência humanitária. Não é que eu tenha alguma coisa contra: os homens até nova ordem deveriam ser todos iguais e os soldados de elite ou não deveriam servir para tudo, se não estivessem especializados noutras coisas que tornam pelo menos duvidosa uma actuação eficaz num campo para o qual duvido que tenham tido meia hora de preparação num ano de treino.

Em termos reais, os EUA neste caso fizeram o pior fornecimento de homens para operações humanitárias que era possível.

De mal agradecidos está o inferno cheio. diz-se aqui em Portugal...e seria verdade para este caso se não se tratasse desse gigante, que em termos humanitários é um pequeno gigante em face da União Europeia.

A cultura europeia, apesar de todos os problemas e de todas as desgraças que tem sofrido ao longo dos séculos é ainda um baluarte do humanismo, e sobre isso, apesar de ser Europeu e suspeito, sinto um grande orgulho, assim como devem estar orgulhosos muitos que ainda guardam um pouco ou muito do saber humanístico que deste lado do Oceano emanou.