Contos de Abilio Pacheco
Em
Antologia Literária Cidade - Volume III
Teoria do Conto Breve
A Lygia e Cortázar
I
Sentou-se à mesa, sabia: não há que se respirar fundo, basta somente um sopro.
Preparou o pito (água e sabão), cochichou bem de leve como se contasse segredo
ou soprasse vela sem querer apagá-la. Apurou os olhos no côncavo da borbulha.
II
Súbito, preciso, soltou-se o globo no ar. E explodiu.
sonambolibro
Toda madrugada, o vizinho chegava do trabalho com o som do carro ligado em
volume muito alto. Perturbava a todos, acordava a vizinhança, às vezes
queixavam-se ao síndico. De nada adiantava. Chamado à atenção, deixava o som do
carro ligado até às três, às quatro, às cinco... Há mais de dois anos, ninguém
reclamava mais.
A música sempre assustava o rapaz, que levantava da cama, caminhava pela casa,
ia para o cômodo onde ficavam os livros e, de luz acesa, percorria os dedos
pelas prateleiras, nos cortes superiores dos livros, em busca daquele que havia
deixado com o marca - página na noite anterior.
Depois, continuava a narrativa interrompida, quase até a hora d’alva, quando algo (alarmes de relógio, buzinas de carro, cantos de galo) cortava-lhe o fio da história e ele voltava ao quarto, deitava-se para em seguida despertar para um dia sem letras e livros.
Durante madrugadas assim, entraram em sua convivência Quixote, Ulisses, Gregor
Samsa, Hamlet, Santiago, Lucíola, Bovary... Quem quer que o visse entre livros,
sabia que dali não poderia extraí-lo. No início, todos da casa cuidavam para que
nada lhe despertasse da leitura, depois relaxaram.
Nas noites em que o vizinho barulhento tornava a madrugada altissonante e a leitura inviável ou quando alguém inadvertidamente retirava o marca - página da leitura de então, o rapaz amanhecia com melancólico transtorno ontológico, um efeito colateral.
Um dia, entretanto, o quarto amanheceu vazio. A cama desalinhada confirmava que
dormira as primeiras horas normalmente e depois levantara. A irmã afirmou não
encontrá-lo em cômodo algum da casa, nem na biblioteca. A mãe, tranqüila,
passava café: Deve estar entre os livros. E estava.
Havia virado personagem de Borges ou Cortázar.
Espólio
Vivia numa alegria enorme, cabendo mal em si. Havia nascido grande, perto de
adulto. Seu pai -demiurgo o havia feito assim. Completo; à base de tinta em face
lisa, alva e chã. Tinha amigos, nome e cor de olhos. Mais que isso, cosido e
recosido, desfiado e retecido, tinha já história: plena, embora de curto enredo,
intriga simples, desfecho claro. Sentia-se brioso.
E mais ainda, ao ter por certo, quando posto num cubículo escuro junto a outros
parelhos seus, que dali sem tardança partiria rumo ao prelo. Ansioso sempre, de
mais a mais, notava um fio de sol e a luz cegante, sentia ímpeto de... Antes,
contudo, aumentado o aperto, o espaço de novo escurecia.
As vezes, de surpresa, eram recolhidos e postos à mesa; ele ficava convicto da
viagem à prensa. Eram remexidos, embaralhados, uns apartados, outros riscados,
uns amassados, outros dobrados... mas ele sempre voltava à gaveta fria e bafia.
Com o tempo se foi recolhendo, perdendo todo o gáudio. E mesmo quando sentiu
bruscos vacilos no móvel, fado algum lhe apontou a mais remota edição.
Da escrivaninha ouvia vozes raras, portas rangentes, mastigados silêncios.
Sentia-se estático e inconcluso, década a fio em meio trevoso. A face desalvecia.
Seus parelhos encarunchavam, bafiavam mais. Até que, às vozes próximas, ouviu:
«escritor», «morreu».
Súbito, a luz! E de novo trevas.
Desentendeu-se. Solavancaram seu casulo e saculejaram por via custosa a termo
baldio. A convicção precária voltava de lenta e – sendo desfolhado de todos –
sentia que, enfim, vinha a lume.
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EDIÇAO NºLIV
, III NUMERO DE JANEIRO DE 2010 -
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