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A Estrada

Ray Bradbury

Tradução do texto original com o título : The Highway in THE ILLUSTRATED MAN - Flamingo Modern Classic/Harper Collins - London, 1995
©Luís Varela Pinto

 

Continuação - Leia desde o início a biografia do autor

 

A chuva refrescante da tarde tinha caído sobre o vale tocando os cereais nos campos cultivados da montanha e batendo levemente sobre o capim seco do telhado da cabana. Naquela escuridão chuvosa a mulher moía o grão entre pedras de lava, trabalhando perseverantemente. Naquela penumbra húmida, um bebé chorou algures.

Hernando estava à espera que a chuva parasse para poder levar de novo a charrua de madeira para o campo. Em baixo, a água do rio agitava-se barrenta e adensava-se no seu curso. A estrada de cimento, um outro rio, não corria; estava ali, a brilhar, vazia. Na última hora não tinha passado um único carro. Isto era, em si mesmo, uma coisa invulgar. Durante anos, não passava uma só hora em que não passasse um carro e alguém gritasse, «Olhe lá, podemos tirar-lhe uma fotografia?». Alguém com uma caixa que fazia clic e uma moeda na mão. Se ele atravessava o campo sem chapéu, às vezes gritavam-lhe, «Oh, nós gostávamos que ficasse de chapéu!» E acenavam com as mãos cheias de coisas de ouro que diziam as horas, ou os identificavam, ou não faziam absolutamente nada mas piscavam como olhos de aranha ao sol. E ele voltava para trás e ia buscar o chapéu.

A mulher falou.
— Aconteceu alguma coisa, Hernando?
— Sí. A estrada. Alguma coisa grande aconteceu. Alguma coisa grande que deixou a estrada assim vazia.

Saiu da cabana devagar, calmamente, a chuva a encharcar-lhe os sapatos de bambu entrelaçado e borracha grossa de pneu. Lembrava-se bem do incidente dos sapatos. Uma noite, o pneu tinha entrado pela cabana adentro violentamente estilhaçando louças e galinhas. Tinha vindo sozinho a rolar velozmente. O carro de que ele tinha saltado continuou a andar até à curva, ficando por momentos suspenso, os faróis reflectidos, antes de mergulhar no rio. Ainda lá estava. Num dia bom, quando o rio corria devagar e o lodo assentava, podia ainda ver-se. Bem no fundo, com os cromados a brilhar, lá estava o carro, grande, rasteiro e rico. Mas depois o lodo voltava e já não se via nada.

No dia seguinte, já ele tinha posto umas solas da borracha do pneu nos sapatos.
Chegou à estrada e ficou a escutar os pequenos ruídos que a chuva fazia ao cair no asfalto.

Então, subitamente, como se respondendo a um sinal, vieram os carros. Centenas, quilómetros de carros a passarem por ele velozes. Carros grandes, compridos, negros, a dirigirem-se para Norte, para os Estados Unidos, a roncar, fazendo as curvas a grande velocidade. A soprar, a buzinar incessantemente. E havia qualquer coisa nos rostos das pessoas amontoadas nos carros, havia neles qualquer coisa que o fez cair em profundo silêncio. Recuou para deixar passar os carros a roncar, contou-os até se cansar. Passaram quinhentos, mil e havia qualquer coisa naqueles rostos todos. Mas os carros iam depressa demais para que ele fosse capaz de dizer do que se tratava.

Por fim, o silêncio e o vazio voltaram. Aqueles carros velozes, compridos, baixos, descapotáveis desapareceram. Ouviu a última buzina a desvanecer-se.
A estrada ficou de novo vazia.
Aquilo parecia um cortejo fúnebre, mas um cortejo fúnebre desenfreado, em corrida, cabelos ao vento, a silvar para qualquer cerimónia lá para o Norte. Porquê? Limitou-se a abanar a cabeça e a esfregar levemente os dedos nas pernas.

E agora, completamente isolado, um último carro. Havia nele alguma coisa de definitivamente final. Pela estrada da montanha abaixo, no meio daquela chuva fina e fresca, aproximava-se um velho Ford. Vinha a andar tão depressa quanto podia. Dava a impressão de que podia desfazer-se a qualquer instante. Quando o velho Ford viu Hernando, encostou à berma e parou, cheio de lama e ferrugem, o radiador a borbulhar zangado.
— Pode arranjar-me um pouco de água, señor?

O condutor era um jovem talvez de vinte e um anos. Trazia um pullover amarelo, camisa branca de colarinho aberto e calças cinzentas. Dentro do carro aberto a chuva caía e molhava-o, a ele e às cinco jovens amontoadas lá dentro de tal maneira que mal se podiam mexer. Eram todas muito bonitas e resguardavam-se da chuva, a si próprias e ao condutor, com jornais velhos . Mas a chuva passava e encharcava os seus belos vestidos e também o rapaz. Ele já tinha o cabelo empastado da água. Mas nenhum deles parecia importar-se com isso. Ninguém se queixava, e isto não era natural. As pessoas costumavam sempre queixar-se: da chuva, ou do calor, ou das horas, ou do frio, ou da distância.

Hernando fez que sim com a cabeça.
— Vou buscar a água.
— Oh, mas depressa, por favor! — exclamou uma das raparigas, e o tom parecia mostrar importância e receio. Não era impaciência, apenas um pedido fruto do medo. Foi aquela a primeira vez que Hernando correu a pedido de um turista; antes, pelo contrário, abrandava o passo a tais pedidos.

Voltou com um tampão de roda cheio de água. Este fora também uma dádiva da estrada. Tinha voado para o campo, uma tarde, como uma moeda atirada ao ar, redondo e brilhante. O carro a que pertencia prosseguiu o seu caminho, esquecido de que perdera um olho prateado. Até agora, ele e a mulher tinham-no usado para lavar e cozinhar; fazia uma bela bacia.

Enquanto deitava a água no radiador a ferver, Hernando olhou aqueles rostos aflitos.
— Oh, obrigada, muito obrigada — disse uma das jovens. — O senhor não imagina o que isto representa.

Hernando sorriu.
— Tanto trânsito a esta hora, todo no mesmo sentido, para o Norte.
Ele não queria dizer nada que os magoasse. Mas quando ergueu de novo os olhos para todas elas, ali sentadas à chuva, estavam todas a chorar. A chorar muito. E o rapaz tentava acalmá-las pondo-lhes uma mão no ombro e abanando-as delicadamente, uma de cada vez, mas elas conservavam os jornais sobre a cabeça, bocas a mexer, olhos fechados, rostos a mudar de cor, e choravam, umas alto, outras baixinho.

Hernando ficou parado com o tampão meio de água na mão.
— Foi sem intenção, señor — desculpou-se ele.
— Não tem importância — disse o condutor.
— O que é que se passa, señor?
— Então não soube? — perguntou o jovem, voltando-se e agarrando firmemente o volante e inclinando-se para a frente. — Já aconteceu.

Isto ainda foi pior. As raparigas começaram a chorar ainda mais agarradas umas às outras, esquecendo os jornais e deixando que a chuva se misturasse com as suas lágrimas.

Hernando ficou tenso. Deitou o resto da água no radiador. Olhou o céu, que estava escuro da tempestade. Olhou o rio caudaloso. Sentia o asfalto sob os sapatos.
Pôs-se ao lado do carro. O jovem apertou-lhe a mão e deu-lhe um peso.
— Não — Hernando devolveu-lho. — Foi um prazer.

— Obrigada, o senhor é muito amável — disse uma das jovens ainda a soluçar. — Oh, Mamã, Papá, eu quero ir para casa, quero ir para casa! Mamã, Papá! E as outras agarravam-na.
— Eu não soube de nada, señor — disse Hernando calmamente.
— é a guerra! — gritou o rapaz, como se não se conseguisse ouvir bem. — Chegou a guerra, a guerra atómica, o fim do mundo!

— Señor, señor — disse Hernando.
— Obrigado, muito obrigado pela sua ajuda. Adeus — disse o rapaz.
— Adeus — disseram todos, à chuva, sem o ver.

Ele ficou parado enquanto o carro engatava as mudanças e roncava estrada abaixo, cada vez mais pequeno, através do vale. Por fim desapareceu o último dos carros, levando as raparigas com os jornais sobre as cabeças.

Hernando não se mexeu durante algum tempo. A chuva escorria-lhe fria pela cara abaixo e pelas mãos e penetrava o tecido das calças. Susteve a respiração, à espera, hirto, tenso.

Observou a estrada, mas já não havia mais movimento nenhum. E pensou que provavelmente não ia haver mais movimento durante muito tempo.
A chuva parou. O céu começou a aparecer por entre as nuvens. Em dez minutos a tempestade foi-se, como um mau hálito. Começou a soprar um vento ligeiro que lhe fez chegar os aromas da floresta. Ouvia o rio seguir mansamente o seu curso. A floresta estava muito verde: tudo parecia muito fresco. Dirigiu-se para casa através dos campos e pegou na charrua. Com a mão sobre ela olhou o céu, que começava a arder de calor com o sol.

Do seu trabalho, a mulher chamou-o:
— O que é que aconteceu, Hernando?
— Nada, não foi nada — respondeu ele.
Meteu a charrua no rego e chamou vivamente o burro, «Burrrr…o!». E partiram juntos, sob um céu a abrir, campo fora, pela sua terra cultivada junto do rio.

— O que é que eles querem dizer com «o mundo»? — perguntou.

 

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