EDIÇAO NºLVII
, II NUMERO DE FEVEREIRO DE 2010 -
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COLUNA
UM
Selecções - XII -Quase no final da finalíssima parte.
Daniel Teixeira
As crises dos escândalos
Para quem já anda nesta vida há alguns anos e quem os tem aproveitado da melhor forma para ir memorizando e aprendendo algumas coisas, os constantes escândalos de corrupção que envolvem uma parte substancial dos governantes de todo o mundo são, na minha opinião normais, sem que com isso se queira dizer que não se deve combatê-los.
Logo na minha juventude, que foi bem interessante diga-se, tanto no carrego de livros como na selecção dos autores, li um livro (um calhamaço) de Aquilino Ribeiro - Constantino de Bragança VII Vizo - Rei da Índia, encomendado ao Aquilino pela Casa de Bragança. Não se põe como é claro em causa a neutralidade analítica e histórica que este autor terá tido em relação à encomenda e em relação ao tema tratado, mas falando-se no livro da corrupção que desde sempre era apanágio da governança na Índia, o Constantino aparece no livro (romanceado quase) como a excepção possível dentro de um contexto geral em que já era bom combater aquilo que era possível ser combatido e logo, no final, se estou bem recordado, Aquilino terminava com uma afirmação do Rei sobre o dito Governador do género: devíamos ter mais como ele.
Ora esta retrospectiva tem semelhanças com quase toda a história e quase todas as histórias de todos os povos ou dos seus governantes e das relações entre ambos. Os antropólogos que eu conheci, nos seus diversos estudos, raramente fazem referência ao roubo e não é porque os valores em causa naquela altura de pobreza quase absoluta não fossem importantes. Um simples quilo de feijão valia, nesse tempo, o valor do feijão mais o valor do acto no proprietário despojado: era uma questão de honra e era passando pela honra do outro que o ladrão roubava. As penas eram duras, não pelo valor por vezes irrisório em causa, mas pelo acto cometido.
Em compensação e por outro lado, há valores que defendemos como sendo «de honra» hoje que naquele tempo tinham um outro tipo de tratamento, a infidelidade, por exemplo e as relações pré-maritais e essas coisas assim parece terem ocupado muito mais as folhas dos antropólogos do que propriamente o substancial dos valores reais através da observância dos quais as sociedades primitivas se erguiam e se mantinham.
Em certo sentido, e vendo muito por alto, houve uma objectivação de alguns valores primitivos e uma subjectivação dos seus valores (ou da ausência deles) vistos numa perspectiva dita civilizada. Um feiticeiro de uma aldeia «empenhava» o seu símbolo de estatuto e mantinha-o empenhado (quer dizer com posse diferida) enquanto não conseguisse resolver um diferendo entre duas pessoas / famílias. Mais importante do que qualquer problema era aquilo que identificava uma dada pessoa no seio da sociedade em que vivia e essa identificação era eminentemente simbólica.
A posse do símbolo representava todo um percurso de vida (hereditariedade, longo e duro ensino, tempo para substituição por morte do antecessor, etc.) e a perca desse símbolo representava o acabamento abrupto de tudo isso. Na nossa sociedade moderna, que está nalgumas coisas convencida que é superior (que sempre foi) a estes tipos de lógica, entregar ou não entregar um símbolo (uma fiel declaração de posse e respeito pelas funções) não tem qualquer valor nem quaisquer consequências para o desviante. Numa sociedade primitiva era o próprio (no caso exemplificado involuntariamente desviante) que abdicaria do símbolo por não se julgar digno dele.
Reconhecendo os limites das coisas e até onde se poderia avançar retrocedendo no tempo, penso que um ligeiro e didáctico reflectir sobre estas coisas seria importante. Fala-se tanto dos direitos que seria bom instituir o direito à antropologia retroactiva reflexiva.
O «risco» maior seria o de ficarmos seduzidos, saudosos e desiludidos pela falta de aceitação desta ideia, mas nunca estranharíamos muito.
Daniel Teixeira