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EDIÇAO NºLVII
, II NUMERO DE FEVEREIRO DE 2010 -
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Esta gente…
Crónica
por Maria das Candeias Leal
«Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros. Na
minha família os animais domésticos eram os pobres. Cada uma das minhas tias
tinha o seu pobre pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma
vez por semana, buscar com um sorriso agradecido a ração de roupa e de comida.»
Isto diz-nos, António Lobo Antunes num dos seus livros de crónicas. Quando li
esta fiquei triste; como é possível, nos anos cinquenta haver pessoas
consideradas como animais domésticos? Aqui está mais uma razão para se detestar
a pobreza. Acho que mesmo não havendo esta gente na ilha onde nasci e me criei,
eu sentia a dor dos pobres na nossa capital. É muito triste saber que há pessoas
que se consideram, mais do que as outras a ponto de as tratarem como animais.
Nós somos todos gente, uns com mais, outros com menos, mas todos humanos.
Na minha terra todos éramos remediados. Claro que havia uns mais ricos do que
outros, mas ninguém nunca era tratado como animal doméstico. A minha família não
era rica, porém tínhamos de tudo ou quase tudo. Nunca mendigámos e nunca vi os
meus vizinhos fazê-lo. Ajudávamo-nos uns aos outros. O meu pai cultivava de
tudo, havia abundância que dava para nós e que repartíamos com algumas das
minhas tias que tinham menos e com os vizinhos. Por vezes também recebíamos
algumas coisas dos outros. Algo que a minha mãe sempre recusava.
Talvez a minha mãe fosse um pouco como as tias do Lobo Antunes, gostava de dar e
não de receber. Será que ela se julgava mais do que as outras? Hoje, estas
perguntas, baralham-me a mente, tentando saber o porquê de ela gostar de dar e
recusar o que os outros lhe davam. Sei que ela tinha nojo da comida feita pelos
outros, ainda hoje tem, do resto não sei. Apenas tenho a certeza que ela era e
continua sendo muito limpa. O meu pai já não era assim, dava, mas quando lhe
davam algo ele recebia mesmo que não gostasse. Penso que mesmo analfabeto,
compreendia o sentimento de dar e receber.
«Não se chegue muito que esta gente tem piolhos». Diziam as tias de António Lobo
Antunes, quando, com elas, ele ia distribuir a ração aos seus animais domésticos
duas vezes por ano, na Páscoa e no Natal. Também nunca criei piolhos, mas havia
algumas crianças que tinham, só que não julgo ser pela pobreza mas sim pela
falta de higiene.
Outra característica dos pobres nesta crónica, era os filhos «desta gente» não
irem à escola, serem muito magrinhos e muitos deles morrerem. Ora, quando me
criei, apenas dez anos mais nova do que Lobo Antunes, por obrigação, todas as
crianças iam à escola, não morriam e não eram magrinhos. Pelo contrário, alguns
até que eram bem gordinhos! Não faltava leite de vaca, de cabra, farinha,
legumes e hortaliça com abundância, e assim se fazia uma deliciosa sopa de
couves com um naco de banha de porco, batatas, cebola e por vezes feijão, favas
ou ervilhas. Sopas muito mais saudáveis das que fazemos agora com tanta carne e
outros ingredientes. Fazia-se também pão de duas farinhas, ou bolo de milho, uma
vez por semana, e as sopas de leite com esse pão ou bolo eram bastante
alimentícias. Houvesse vontade para comer que comida não faltava.
Retrocedendo vinte anos, no tempo das minhas avós, nos anos trinta, uma criou
oito filhos, a outra cinco e eram todos bastante saudáveis. Todos tiveram
escola, todos sabem ler e escrever, excepto o meu pai, que não gostava de ir
para a escola, a minha avó preparava-o mas, em vez da escola, ele escolhia os
banhos de água salgada nas poças da costa abrupta da ilha.
Pelo o que eu entendo, nas grandes cidades, havia e continua havendo, muito mais
gente pobre do que nas aldeias. O mesmo acontece aqui no continente canadiano,
nas pequenas vilas perto de mim não temos os sem-abrigo; existem pobres mas
todos têm onde dormir e algo para comer. E julgo nunca terem sido tratados como
animais domésticos.
Lobo Antunes é considerado um grande escritor, não o duvido, mas, olhando a sua
foto, e lendo suas crónicas, sinto que ele herdou das tias, um pouco desse
sentimento de ser dono dos doutros. Posso estar errada, e espero que sim, mas é
essa a impressão que se tem dele, filho de boas famílias, nascido na grande
cidade.