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EDIÇAO NºLVII , II NUMERO  DE FEVEREIRO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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UM POUCO DE HISTORIA DO CARNAVAL

 

Por Arlete Deretti Fernandes

 

A etimologia da palavra Carnaval sempre foi de interesse dos estudiosos. Uma hipótese existente é que se origina de «carrum navalis», que era um barco alegórico com o qual os romanos abriam alguns festejos. Animais bem enfeitados o carregavam e sobre este barco iam homens e mulheres nus e cantando obscenidades. Não havia distinção de classe ou idade, romanos e escravos diziam o que queriam, a quem queriam, em absoluta e total libertinagem, isto segundo Petrônio, no século I d.C.

 

A origem do Carnaval se perde em hipóteses. Seu surgimento já foi relacionado com cerimônias do ano agrícola que existiu entre os povos da arqueocivilização européia. Outros já afirmam que surgiu entre os antigos egípcios, nas alegres festas a Ísis(a lua), e de Ápia, (o boi sagrado).

 

Também supõem-se outra significação da palavra, que é carnem levare, (adeus à carne), pelo período de abstinência da Quaresma, que começa na 4ª-feira de cinzas. Esta localização temporal da festa é devido ao catolicismo, que determinou que o domingo de Carnaval deve ocorrer sempre sete semanas antes da Páscoa. Acontece que, festas semelhantes ao Carnaval foram encontradas entre os mais diversos povos da antiguidade e em muitas épocas.

 

O Carnaval sempre foi zombeteiro e licencioso. O catolicismo nunca o tolerou e na impossibilidade de evitá-lo, regularizou-o. Na Espanha medieval as flores lhe emprestavam poesia. Contam-se que, na França até Napoleão gostava de mascarar-se e participar da folia carnavalesca. Na Itália realizavam-se as festas dos mascarados, a partir de um tema mitológico. No final do século XIX o carnaval europeu definhava.

 

O Carnaval no Brasil

 

No Brasil, foram os portugueses que trouxeram o carnaval para a Colônia. O primeiro foi realizado em 1641, pelo Governador Correia de Sá e Benevides, com uma série de festas pela subida ao trono de D. João IV, o restaurador da monarquia portuguesa. Este primeiro carnaval contou com blocos e préstitos. As festas foram abertas pelo Governador , que desfilou pelas principais ruas da cidade do Rio de Janeiro à frente de 116 cavaleiros com compridas capas brancas, dando vivas a D. João IV. A partir daí a folia continuou por uma semana, com combates simulados, corridas de argolinhas e blocos de pessoas fantasiadas e mascaradas.

Só mais tarde o carnaval brasileiro passou a ter cunho popular e a ser realizado periódicamente. Aos poucos incorporou figuras folclóricas de origem negra e portuguesa. No princípio do século XIX o carnaval se resumia no entrudo. Havia verdadeiras batalhas em que as armas eram fulige, goma, água, farinha, ensopando e sujando pessoas, famílias e ruas inteiras. O costume era tão divulgado que, conta-se que D. Pedro II gostava de atirar limões de cheiro (um frágil envólucro de cera, em formato de limão, contendo água) e bacias de água nos nobres que frequentavam a Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

 

A violência do entrudo era tanta que muitas famílias nem ousavam sair às ruas durante o carnaval. Foi inutilmente proibido pelas autoridades. Com o tempo o entrudo foi declinando e apareceram os confetes e as serpentinas. As primeiras máscaras surgiram em 1834, feitas de cera muito fina e de papelão. Nesse tempo já era desenvolvida pela imprensa uma campanha a favor de um carnaval no estilo das festas européias, principalmente venezianas. A partir daí começaram a surgir os bailes de mascarados nos salões, e as famílias passaram a freqüentar estas festas.

 

Abram alas para as Columbinas e os Pierrôs 

 

O aparecimento destes bailes foi muito importante para a participação da mulher no carnaval, havia um grande preconceito anteriormente. Agora, com um carnaval veneziano, delicado, colorido com confetes e serpentinas as damas da elite também poderiam ser acolhidas.

 

Surgiram diversas sociedades carnavalescas. Nesse tempo dançavam-se a quadrilha, o xote, a valsa, a polca, e a partir de 1870 o maxixe, primeira dança nacional, (uma mistura de polca com lundu africano). Foi a maestrina Chiquinha Gonzaga quem deu o passo mais importante para a definição de música de carnaval de início de século. Em 1899 ela recebeu a encomenda de compor uma marcha para o Cordão Rosa de Ouro.

 

Usando dos dizeres dos cartazes das associações que pediam a população passagem para fazerem as suas evoluções, compôs o eterno «Abre Alas». Foi um grande sucesso, mas em 1902 veio a inovação com «Vem Cá Mulata», composição de Arquimedes Oliveira e Bastos Tigre.

 

Salve o Zé Nogueira

 

Mais ou menos em 1846, o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes introduziu o bumbo e seu ritmo no carnaval do Brasil. Sentindo saudade de sua terra, convidou seus patrícios para reviverem uma festa portuguesa e todos armados de zabumbas alugadas, saíram em barulhento cortejo pelas ruas centrais. Tarde da noite, depois de muita festa e vinho, os portugueses trocaram o nome do amigo, de Zé Nogueira para Zé Pereira, e o sucesso da festa foi tal que não faltaram imitadores. Durante meio século os blocos de Zé Pereira foram uma tradição do carnaval carioca.

 

O Zé Pereira desapareceu por volta de 1912, quando os blocos passaram a usar além do bumbo , cuícas, tamborins, pandeiros, frigideiras , etc. Sua maior importância foi ter devolvido ao povo uma festa que se aristocratizava com a importação de máscaras, bailes e danças européias. Os que não tinham como freqüentar os salões participavam dos três dias de farra na rua. Ao lado das sociedades havia também os cordões organizados . Foi aí que apareceram as fantasias. Apareciam grupos com trajes de militares, de padres, de diabinhos, dominós, odaliscas, dançarinos, jardineiros e outros.

 

As danças e apresentações folclóricas apareceram. O carnaval torna-se nas grandes cidades como Salvador, Rio de Janeiro e Recife, um catalizador do folclore. Chama a si e incorpora os cucumbis baianos, o maracatu de Pernambuco, os congos e congadas e até mesmo certos elementos do bumba meu boi e dos bailes pastoris. O carnaval de rua como é conhecido hoje iniciou-se por esse tempo. Foram aos poucos surgindo diversos blocos com músicas características, combinando num enredo, fantasias, músicas e danças.

 

O Samba nasce e faz Escola

 

O grupo se reunia na casa de tia Ciata e aí surgiu o primeiro samba gravado com esta definição em 1917. Seu autor teria sido Donga, que com Sinhô e Caninha, freqüentava a casa da Tia velha. Mesmo assim, por influência do maxixe continuavam existindo traços de música negra pouco adaptada à dança carnavalesca.

 

O Carnaval de rua ganha outro impulso a partir de 1928 quando Ismael Silva funda a primeira escola de samba. A partir daí as escolas de samba iriam se constituir na maior atração do carnaval além de motivarem o aparecimento de vários compositores e de um novo estilo musical: o samba-enredo.

 

O Aparecimento do Rei Gordo  

 

Em 1933 os jornalistas de A Noite estavam preocupados com um personagem da mitologia grega que não fazia senão rir de seus companheiros do Olimpo. Um rei irresponsável e zombador, protetor da burla e da contravenção: Momo.

 

Este senhor da orgia tinha todo prazer em desmascarar os homens e os outros deuses e isto o aproximou do carnaval. O pessoal de A Noite resolveu dar forma de rei ao irreverente personagem: moldou-o em papelão colorido, com uma barriga imensa suportando um fivelão dourado. Sob uma brilhante coroa de lata, o rosto pintado de carmim, exibia um sorriso aberto. Desde aquele sábado gordo este personagem passou a presidir o carnaval brasileiro.

 

Momo, desde a época da fundação de Roma era adorado através do sacrifício de animais. A igreja tentou transformar estes rituais em festas disciplinadas cristãs. Momo passou a ser festejado na véspera da Quaresma. Na Idade Média as festas momescas deram origem aos carnavais de Veneza e Turim, que começavam com a festa de Santo Estevão e acabavam na 4ª-feira de cinzas, numa celebração que visava tirar do homem os pecados cometidos no carnaval. A igreja cansou-se e acabou excomungando o Momo. Mesmo assim ele permaneceu ativo e inspirador.

Na França, a Revolução de 1789 foi implacável com os costumes da aristocracia, tirando de Momo seu prestígio, pois sua lembrança estava comprometida com a elite expurgada. Quando a aristocracia se fortaleceu, tomou-o como símbolo das orgias que renasciam. No carnaval de 1936 surgiu um Momo de carne e osso e muita gordura, criado pelo jornal A Noite. Até nos dias de hoje o Rei Momo é uma figura característica do carnaval brasileiro.

 

Estácio Mangueira e a Classe Média

 

Em 1930 teve início o período de ouro do Carnaval carioca. É quando surge uma cantora famosa e cheia de trejeitos, que ia marcar uma fase de grandes sucessos populares: Carmem Miranda. E neste ano que surgem também os concursos das escolas de samba.

 

As rádios divulgavam as marchinhas e outras músicas. Criavam-se uma nova geração de compositores e intérpretes. Os compositores de origem tipicamente popular - como os do grupo baiano que freqüentava a casa da tia Ciata e os moradores da favela de São Carlos que formavam o grupo do Estácio não podiam enfrentar os rapazes de classe média. Estes, como Noel Rosa e Lamartine Babo vão aos poucos tomando conta dos meios de divulgação e, em conseqüência impondo seu estilo e seus padrões.

 

Além da origem social , esse grupo trazia , em função do nível intelectual, maiores possibilidades de controlar as programações das rádios, como no caso de Noel, contra-regra na Rádio Philips. Foi esta geração que partindo das experiências já concretizadas , adaptando-se e tornando-se fiéis às motivações mais populares, fixou o samba carnavalesco e a marchinha. O samba comunica o lirismo da época. O grande sucesso das músicas desta fase se deve a fidelidade aos problemas do dia a dia do povo. Muitas eram censuradas pelas críticas aos políticos.

 

(Continua)