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EDIÇAO NºLVII , II NUMERO  DE FEVEREIRO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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Histórias da Vida Real

Crónica por Martim Afonso Fernandes

 

 

Aventuras de Carnaval

 

 

Quarta-feira de cinzas, às quatro horas da manhã. Fim de mais um carnaval.

Havia alguns foliões deitados nos bancos da praça, outros sentados ao pé de uma árvore ou dormindo na grama.

Depois de dançar e pular as quatro noites, de dormir na praia, no sol ou debaixo de alguma canoa emborcada, a canseira era grande. Muita ressaca, e hora de retornar para casa com mais dois jovens amigos. Hoje, estes dois já se encontram no plano superior.

As ruas estavam silenciosas, desertas, nem um latido de cachorro se ouvia.

O único barulho era o ronco do movimento do motor de um jeep modelo e ano 1951, que era o nosso meio de locomoção para festas, passeios e serenatas.

O Carnaval de Laguna , desde 1930 até a data de hoje é tido como um dos dez melhores do Brasil, em se tratando de interior.

Como em nossa cidade o carnaval era nos clubes e recebia da diretoria a ordem de finalizar exatamente às zero horas da 4ª-feira de cinzas, eu e muitos jovens saíamos de Imbituba, distante 30 quilômetros de Laguna, e íamos para lá dançar, pois lá a festa acabava às duas horas da madrugada.

Foi nesta 4ª-feira que, ao voltarmos de Laguna para Imbituba, avistamos um carro alegórico estacionado em uma rua silenciosa.

Os pensamentos e os convites foram unânimes:
-Vamos levar?
Só houve afirmação.

Rebocamos o carro no jeep e começamos a movimentar. Como Laguna é uma cidade histórica de ruas estreitas, não houve jeito de manobrar o jeep com o carro alegórico rebocado, devido ao comprimento do mesmo, que era de mais de quinze metros.

Fizemos várias tentativas mas tivemos que desistir da façanha. O carro alegório ficou entalado em todo o ângulo da rua, impossibilitando até a passagem de uma pessoa.

Soltamos o cabo que prendia o carro no jeep e fomos embora frustrados por não conseguirmos levar o carro até Imbituba, que era o final da festa.

Como era normal, quase todas as noites íamos passear em Laguna, onde tínhamos amigos e amigas.

Na quarta-feira à tarde não havia nada para fazermos e resolvemos dar uma volta por lá, para ver que destino foi dado ao carro alegórico trancado. Quando lá chegamos, o carro já tinha sido tirado.

Encontramos uns amigos e comentávamos sobre os bailes e desfiles ocorridos. Eu perguntei se aquele carro grande que homenageou os pescadores tinha sido o vencedor e ganhador do prêmio. Nosso amigo respondeu que tinha sido outro o vencedor. Também falou que na noite passada tentaram roubar o carro mas o mesmo não passou na esquina.

Aí eu indaguei:
- Como é que fizeram um carro que não passa na esquina? E ele respondeu:
- O carro foi construído em um terreno e ali ficou estacionado. Só que no lado oposto de onde ele estava as esquinas eram mais largas e também as ruas. Os carros já eram construídos de acordo com as medidas das ruas por onde iriam passar.

Aí, eu fiz outra pergunta:
- Qual motivo leva alguém a roubar um carro alegórico? O amigo respondeu:
- Só pode ser coisa de bagunça, ou para ficar na história de uma aventura carnavalesca.

Na verdade foi isto mesmo, molecagem de jovens, pois na certeza, se chegássemos em Imbituba com o carro alegórico, seríamos vistos por muita gente e a autoria do rapto descoberta.

Seria provável que houvesse o envolvimento policial e nós receberíamos o convite do Delegado para levar o carro de volta para Laguna.

Depois de passados alguns anos, falamos para nossos amigos de Laguna que tínhamos sido nós os autores da façanha do carro alegórico.

Eles disseram-nos que, no dia seguinte os dirigentes do bloco carnavalesco ao qual o carro pertencia, falaram isto:
- Com certeza só podem ter sido aqueles três do jeep de Imbituba, pois eles são bem conhecidos e têm cara de quem gosta duma troça!!!

 

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