JORNADA CREPUSCULAR

Por: Mário Matta e Silva

ALMEIDA GARRETT – UM POETA QUE FOI POLITICO LIBERAL E VISCONDE…

Na penumbra que nos deixa a tarde crepuscular, eu faço a minha jornada de hoje, por tempos conturbados do século XIX, tecendo uma simples homenagem a João Baptista da Silva Leitão de «Almeida Garrett,» nascido em 1799.

Estamos assim a 210 anos do seu nascimento. Não há jornada crepuscular da Revolução Liberal que o esqueça, pela sua biografia acidentada, como pela sua produção exemplar de muita prosa e muita poesia. Foi a este homem, que desde 1817, estudou Leis em Coimbra, que atribuíram o lugar de iniciador do Romantismo (embora discutível, dada a participação activa dos designados por pré-românticos).

Personagem invulgar, na luta constante que travou pela vitória dos liberais, o que o levou a vários exílios e, ao mesmo tempo, ao desempenho de altos lugares políticos. Foi Almeida Garrett, em criança,
atirado com seus pais para os Açores, Ilha Terceira, devido à primeira invasão francesa a Portugal, onde foi educado por um seu tio, o Frei Alexandre da Conceição, escritor e Bispo de Angra, que lhe incutiu valores clássicos e iluministas, onde se incluíram estudos sobre Voltaire e Rousseau…

São de influência arcádica os seus primeiros poemas, inseridos em 1829 na Lírica de João Menino. Em 1822 é nomeado funcionário no Ministério do Reino, mas em 1823, com a reacção miguelista da Vilafrancada é obrigado a exilar-se em Inglaterra e depois em França, onde se torna correspondente de uma filial da Casa Lafitte, o que o envolve na literatura romântica de Byron, Lamartine, Vitor Hugo, Walter Scott, e outros.

E em 1825-26, que Garrett publica em Paris, (para além da preparação do Romanceiro) os poemas Camões e Dona Branca, que se incluem nas primeiras obras portuguesas, em verso, de cunho romântico. Em 1826 regressa a Portugal, entusiasmado com o acordo entre D. Pedro e D. Miguel, conseguido através da Carta Constitucional. Dedica-se ao jornalismo político nos jornais O Português e o Cronista.

Em 1828, com D. Miguel no poder, volta a exilar-se em Inglaterra. Em 1830 publica o tratado politico: Portugal na Balança da Europa, no qual faz a análise da crise portuguesa e exorta à unidade e à moderação politicas. Em 1832 segue com destino à Ilha Terceira de onde participa no desembarque no Mindelo, escrevendo, durante o cerco do Porto, O Arco de Santana.

Ao mesmo tempo, colabora com Mouzinho da Silveira nas reformas administrativas. Em 1834 é nomeado Cônsul-Geral em Bruxelas, onde se ligará à literatura Alemã (Herder, Schiller, Goethe), regressando a Lisboa em 1836, altura em que vem fundar o jornal O Português Constitucional. No mesmo ano, Passos Manuel, atribui-lhe a organização do Teatro Nacional, impulsionando o projecto do Teatro Nacional D. Maria II… e outras actividades de âmbito teatral.

São dele as obras: O Alfageme de Santarém, Frei Luís de Sousa, um auto de Gil Vicente, Viagens da Minha Terra etc.… Em 1838 torna-se deputado à Assembleia Constituinte. Em 1851 funda o jornal a Regeneração e aceita o titulo de Visconde, sendo nomeado em 1852 Ministro dos Negócios Estrangeiros. O seu livro de poesia lírica Folhas Caídas, de 1853… fez escândalo na vida deste Deputado, Ministro e Visconde! Com uma vida grandemente preenchida e nesta trajectória alucinante, morre Garrett em 1854.

Nesta viagem crepuscular constato que talvez seja um delírio querer encontrar hoje uma figura tão brilhante no nosso meio politico e intelectual… se procurarmos bem talvez encontremos, com outros «títulos» mas não com o de Visconde, claro!

22 de Novembro de 2009


Visitante de Porlock

Abilio Pacheco

Precisava voltar para casa. Um poema para ser escrito após quase quatro anos. Vieram-lhe de assalto idéia, versos de início e, entre rostos vários e vazios, ia já ao quarto ou quinto pé tramado.
Cruzados os braços, fechados os olhos e sentado contra a janela da condução repetia o mote, refazia versos, comutava termos... Por pouco não passou do ponto. Não tivessem gritado o nome do bairro...
Atravessou portaria e vizinhos como se cumprisse um silêncio de rito. Entrou no cafofo, tocou-se no quarto, sentou-se à mesa, mas, à idéia intacta, ao verso tecido a pôr-se em linha, chamaram à porta.
A vizinha de frente queria saber se ele também estava sem água. Aconteceu que, recebendo incumbência de suspender o serviço de um dos vizinhos, fizeram – por descuido – o mesmo ao bloco todo.
Foram se queixar. A vizinha matraqueava a não mais poder. O síndico pedia paciência. O rapaz era novo no emprego. Tudo seria resolvido. Voltem para casa e esperem.
A custo livrou-se da vizinha. De volta à mesa, lia e relia, mas as palavras (três inteiras, a quarta pela metade), já não faziam o menor sentido.

 

 

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EDIÇAO NºLIII , II NUMERO  DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS

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