Pagª 16 - EDIÇAO Nº LII,
I NUMERO DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Prosas e Poéticas
Por
Ilona Bastos
Olhares
Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra.
Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa.
Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas. Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog.
Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os
aos olhos do mundo, os vídeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os
excertos de livros que se me tornaram inesquecíveis.
Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!
A Entrevista - Claire
Ouve! Estás interessado em saber os pormenores da minha aventura desta manhã? Compreendo perfeitamente a tua incontida ânsia, mas por favor não saltes na cadeira! Vou contar-te tudo o que se passou…
Depois de te telefonar, logo cedo, tomei o pequeno-almoço, vesti a gabardina e saí para a rua. Ia preocupadíssima com a entrevista, como deves calcular. Mal dormira durante a noite, revendo mentalmente os pontos altos do meu curriculum e ensaiando respostas inteligentes para as perguntas que eventualmente me pudessem colocar. Agora, sobre a hora, sentia-me confusa e assustada.
Caminhei pelo passeio, um pouco atabalhoadamente, e tentei deter dois ou três táxis, que simplesmente ignoraram os meus apelos. Evidentemente, principiei a entrar em pânico quando percebi que a antecedência, tão minuciosamente calculada, com que deveria partir para alcançar pontualmente o meu destino, começava gradualmente a esgotar-se. E, para cúmulo, o trânsito estava completamente engarrafado!
Desatei, literalmente, a correr, o que se mostrou pouco eficaz. Ao fim de alguns metros tive que desistir, esbaforida, derreada. Voltei a andar, rapidamente. Mas ao passar pela montra de um stand de automóveis vislumbrei, num repente, a minha imagem, e tomei consciência de quão ridícula parecia, no esforço de ganhar velocidade, inclinando-me — cabeça, pescoço e tronco —, obstinadamente, para a frente, como se dessa forma pudesse chegar mais depressa a lugar algum.
Ouvi, então, uma buzina forte, a que se seguiu uma completa orquestra de outras buzinas, igualmente desagradáveis e estridentes. Surgiam já gritos e impropérios, quando recomeçou a chover, desta vez torrencialmente, com rajadas de granizo a bombardear a calçada.
Abriguei-me na porta de um edifício, esperando uma aberta para retomar o caminho. Pessoas passavam a correr, por vezes cobrindo a cabeça com jornais ou pastas. A rua e os automóveis tinham-se tornado cinzentos, de contornos esbatidos, enquanto as árvores, ao fundo da rua, por contraste, sobressaíam brilhantes, assumindo novo colorido e perspectiva. Isso pareceu-me ilógico e, distraída, discorrendo sobre o assunto, meti-me ao temporal, debaixo do chapéu-de-chuva.
Entregue a tais pensamentos, atravessei a rua e novamente me deixei surpreender pelo reflexo da minha imagem na montra do stand de automóveis. Parei e, sem perceber como, dei comigo a pensar: «Que estranho é ser eu!»
Agradou-me a ideia, sorri e recomecei a andar. Agradava-me também, caminhar,
ali, naquele instante.
«Que estranho é ser eu!», repeti, saboreando o pensamento.
Era estranho ser eu, e era ainda mais estranha aquela frase que eu não conseguia esquecer, nem explicar, por resultar de uma sensação súbita, do abandonar-me a mim própria, durante momentos, para me encarar da terra dos outros. E, então, assim avistada, eu era estranha, qual personagem de um filme: uma criatura esbranquiçada, envolta numa enorme gabardina azul, entrando e saindo de edifícios anónimos, semelhantes no seu aspecto e estrutura, mas recheados de diferentes gentes; bebendo-lhes os sentimentos e as imagens, para depressa os esquecer numa passada larga pela calçada, debaixo de um chapéu-de-chuva, rodeada pelo abraço de uma cortina protectora de gotas potentes e projécteis de gelo!
Alguns quarteirões adiante, sustive o passo e voltei a encontrar-me na vitrina
de uma pastelaria. Novamente sorri.
«É estranho ser eu!», insisti, espantada por com esse pensamento me sentir mais
eu do que nunca.
Dentro da ampla gabardina azul que se me enrodilhava nas calças também azuis, húmida da cabeça aos pés, encontrei o coração e os olhos frescos, livres, ferreamente decididos.
Com surpreendente firmeza, com uma vontade que me pareceu inabalável, avancei solidamente pela calçada.
Invadi o prédio imponente, ignorando o rasto de água que me jorrava do chapéu-de-chuva e do vestuário. Galguei os degraus, agrupados em lanços, desprezando os patamares, que não levavam a lado nenhum. Empurrei sem hesitar a porta de vidro, e à empregada da recepção anunciei-me, importante, para a entrevista aprazada.
Precedi-a no corredor, até ao gabinete pequeno com uma mesa de vidro e um júri de três cavalheiros. Cumprimentei-os, sobranceira, mas amabilizei a conversa com pancadinhas nas costas. Expliquei-lhes ao que ia e interroguei-os.
Inquiri um a um, com calma estudada e simpática atenção. Ao primeiro, de óculos, pálido e de feição miúda, porque tímido e retraído, para não o assustar, indaguei das características do emprego que tinha para me oferecer. Ao segundo, mais rosado e bem nutrido, cabelo a escassear, sugeri, com simpatia, que dissertasse sobre o ordenado e as regalias sociais envolvidas. Ao terceiro, bonacheirão, de risíveis patilhas alouradas, confiei banalidades, a troco de detalhada descrição do gabinete amplo e confortável que me seria destinado.
No final, perante tão evidente ansiedade, guardei silêncio por apenas dois
minutos. E, então, para me portar à minha altura, ergui-me, cumprimentei-os e
anunciei:
«Muito bem, meus senhores, convenceram-me! Aceito o lugar. Estão contentes?».
Ainda acrescentei, com bonomia: «Afinal não havia razão para tanto sobressalto,
não é verdade?»
Já na rua, percebi que parara de chover e abanei ligeiramente o guarda-chuva, para o aliviar de alguma água. Desabotoei dois botões da gabardina e retomei o meu caminho. Olhei-me, benévola, satisfeita comigo própria, em paz.
Bendito o meu olhar complacente, que, conivente, me aprova, me afaga e me inunda
desta estranha felicidade!
Ilona Bastos
Coluna de Maria Petronilho
Lamento
Não esqueças a minha ternura
como poeira
chita esgarçada
no fulgor de teus dias
se bem eu seja
uma figura etérea
que vive
atrás de uma incógnita janela,
não colecciones as minhas lágrimas
no bolso da tua camisa
nada farão crescer senão a angústia
no lugar da paixão
que
dos nossos corações se eleva
em comunhão
na ideia
no carinho
na palavra alada
distante
que nos dá a ilusão de acordarmos
com a mesma aurora
de olharmos o mesmo sol,
eu dentro de mim prisioneira
e tu vogando ao sabor do que te convier
te for talvez possível.
Onde os poemas imbuídos
de doçura
que me cantavas
onde apaixonadamente me enlevavas
no sopro da tua procura?
Não me deixes afogada no silêncio
no humilde silêncio de ser
a poeta triste que não mais
do que a tua fugaz atenção
necessita!
Porque me terá deixado
ao partir, o meu amado,
em tristeza sem sentido?!
Tendo as saudades matado
porque é que terá ficado
solto no ar este pranto?
Meu amor vê as marés,
tem sete dores meu cais,
vem navegar-me outra vez!
O circulo do ar
só o ar
me abraça
nem há sol
nem há lua
só o ar
me rodeia
vou só, no ar!
mas o ar
é circular
ora me leva
ora me trás
ora me deixa
suspensa
e vaga
no nada
AS FLORES
as flores são estrelas
iluminando os dias
reacendem a esperança
de que quanto existe
em beleza fulge
se a fagulha
desaparece
breve o sol aquece
as pétalas estendem
