EDIÇAO NºLIII
, II NUMERO DE JANEIRO DE 2010 -
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«Morreste-me»
Crónica
por Maria das Candeias Leal
Na sexta-feira, dia 13 de Novembro, recebi uma encomenda de uma amiga. Já sabia
que iria receber essa encomenda pois recebi um e-mail anunciando-me a sua
chegada. Não tinha a certeza do que se tratava, desconfiava ser um livro. Não
estava errada, contudo, em vez de um recebi dois, obrigada amiga, por este e
pelo outro que estou lendo.
Adivinhaste
que ando com fome de ler algo novo. Estou habituada a receber o nosso jornal
todas as semanas, enviado por um outro amigo, mas livros, foram os primeiros.
Debrucei-me sobre o mais pequeno e li-o todo num serão. «Morreste-me» de José
Luís Peixoto, é um livro com apenas sessenta e uma páginas, mas escrito com
palavras pesadas, palavras de dor, palavras sentidas. Senti o peso delas,
senti-as como se fossem escritas por mim e dirigidas ao meu pai. Porque tu,
também me morreste pai! Como tantas outras coisas que se deixaram morrer na
minha vida.
Meu caro José Luís, nunca julguei ler palavras como as tuas saídas da alma de um
homem. De um homem com coração de menino. Aliás, para mim, ainda és um menino,
nasceste no mesmo ano em que nasceu a minha filha. Ao lê-las, senti vontade de
te abraçar, de repartir contigo essa dor de perda.
«Morreste-me é sobre o luto mas sobretudo sobre o amor». Disse José Luís
Peixoto, na sua palestra no dia da apresentação dos seus livros na Casa do
Alentejo, segundo li no jornal. Verdade, só ficamos de luto quando nos morre
alguém amado. Quando morre um vizinho, ficamos tristes, mas não de luto. Quando
«morre» algo que amamos de verdade na nossa vida, ficamos de luto até ao fim da
caminhada. Podemos até esquecê-lo um pouco, mas haverá sempre um motivo que nos
aviva a cor negra do luto.
Quando o meu
pai morreu, eu já estava um pouco mais madura e vivia longe dele, mesmo assim
senti muito essa perda, principalmente as suas palavras ao telefone. Quase no
fim da sua viagem por este mundo, as palavras já estavam um bocado desalinhadas,
mas a voz era a mesma. Mesmo desarranjadas gostava de as ouvir e sentir o seu
carinho através da linha telefónica. Depois ficou apenas a voz da minha mãe, com
palavras de dor. Dor essa, que até hoje, continuo ouvindo e que me retalha a
alma. Porém, quando as deixar de escutar será muito pior.
Ainda era muito jovem, quando reconheci que o amor por mim, do meu marido, o pai
dos meus filhos, havia morrido, acho que a dor foi muito mais profunda do que a
da perda do meu pai mais tarde. Uma dor sem explicação, como todas as outras,
porque a dor não se explica; sente-se. Com apenas vinte e poucos anos, fiquei de
luto serrado, um luto que não se via com os olhos, apenas era visto por aqueles
que tem o dom de ver com o coração.
Fiquei revoltada com esse luto, revoltada comigo própria, mas não tinha força de
o pôr de lado. Lutei muito, uma luta de muitos anos entre mim e esse luto que
achava ser errado. Uma mágoa que não merecia. Após vinte e tal anos de conflito,
consegui arrancar das minhas entranhas essa tristeza, essa roupa preta com que
vesti a alma.
Com a alma
desnudada de negro senti-me melhor, mas notei que haviam ficado algumas nódoas
desse luto que nenhum outro amor as poderia lavar. Vejo a minha alma como uma
radiografia, onde há branco e preto mas concentro-me no branco para poder viver.
Todavia, a cor do azeviche e do ébano lá continua.
Para a Maria Candeias, este livro que é muito importante para mim e que espero
que possa ser importante para si também. Com a estima de José Luís Peixoto.
Estas palavras estão escritas nas primeiras folhas do livro, dedicadas à minha
pessoa.
Obrigada José Luís, e acredita que o teu livro é bastante importante para mim.
Ele tem um valor especial, pela coragem que tiveste de o escrever e por ser
escrito por um homem. Um grande abraço da Maria Candeias.
Candeias Leal