Pagª 17 - EDIÇAO NºLI , III NUMERO  DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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 Coluna de Liliana Josué  

NATAL

Cheira a pinheiros e a neve…
Toscas imagens de barro…
Sinto aquele ar muito leve
Desses tempos que eu agarro

Olhos fremindo ilusões
De criança enfeitiçada
P’los brilhos dos corações
Com que a vida é enfeitada

Mas sentada ali na esquina
Está uma suja menina
Duma pobreza brutal

O sonho esvai-se sombrio
Em mim instalou-se o frio
E deixou de ser Natal.


AS ESTRELAS NO NATAL

Cristais de gelo vestiram meu corpo de frio; pedras lindas, preciosas; lágrimas do céu debulhadas pelo chão. E tudo se tingiu de branco transparente.

Há muito que o sol se despedira, correndo através do horizonte. Foi galantear outras terras com sorrisos largos e quentes que elas, em sinuosas ondulações, aceitavam e queriam.

A noite chegou de mansinho em ares de menina caprichosa. Acariciou os adormecidos cristais e por mim roçou o seu frio manto numa alegria etérea; brincou com as sombras das nuvens, desaparecendo elas como ninfas fugindo ao seu perseguidor.

A nívea lua adormeceu no seu quarto minguante, enquanto esperava serenamente a metamorfose da lua nova.

Brancas farripas de neve deslizaram do alto, juntando-se aos seus enamorados cristais fundindo-se num só ser, pois assim é o amor.

As estrelas rebentaram no céu negro e austero em forma de deus mítico. Elas, cintilavam na excitação do seu existir e brilhavam tanto, que meus olhos choraram só de as olhar.

Surgiam as desejadas estrelas de Natal, no seu trage mais rico do ano.

Pedi-lhes um beijo no êxtase da minha alma. Elas no seu majestático porte ofereceram-me o seu sorriso, enquanto um sopro terno percorreu meu corpo e minhas faces.

Uma, maior que todas as outras, desenhou flamejante cauda no firmamento enquanto dançava uma valsa embaladora envolta nos seus sete véus num pronuncio do maravilhoso que estava prestes a acontecer.

Todas as outras se lhe juntaram num cântico de luz, melodia e cor. O frio fustigava-me o corpo tenso, mas sem saber porquê aquecia-se-me a alma num querer espalhar amor por todo o mundo.

Juntei-me a elas e mais uma estrela brilhou no céu, enquanto ao longe se ouvia um sumido choro de criança recém-nascida.

http://lilianaeomundo.blogspot.com/

 

Coluna de Rosa Pena

O Natal é vermelho

A mãe já estava entrando na terceira idade e começava a sentir aquela pontinha de desânimo, aquele tanto faz como tanto fez, entre eles... armar a árvore de Natal, fazer ceia.

E pensar que ela sempre fez uma questão danada de muitos enfeites, do presépio, da guirlanda na porta, de um peru maravilhoso. Foram festas lindas, fantásticas. E pensar, e pensar, e pensar!

Pronto: Agora nada de pensar, muito menos navegar na nostalgia. Saudade vá procurar outro coração, pois esse não lhe pertence. Replay de Natal fica por conta do Rei RC que só varia a roupa de branco para azul ou de azul para branco. Inovar é a palavra de ordem.

O marido sempre acompanhou suas resoluções. Dos sete filhos agora só dois moravam com eles naquela casa linda e imensa. Empregados nessa época folgam. O trabalho e o silêncio dobram.

O temporão insistiu tanto na confecção da árvore que ela acabou por enfeitar displicentemente a antiga num cantinho qualquer da casa.

Como cada um dos outros filhos passaria num lugar diferente, sugeriu impondo aos quatro que fossem cear num quiosque em frente à tão badalada árvore da Lagoa. 

Dois toparam, mas levou um susto quando o caçulinha disse:
—Cear fora de casa? Logo na data em que as árvores armadas em casa ficam mais bonitas... O menino não nasce mais?

Foi ao supermercado  comprou um tender cheia de love e muitas cerejas.

O Natal é pintado de vermelho, é vida, não é luto.

Mas o Rei vai estar de azul e cheio de flores. São tantas emoções que a gente vive por mais que tenhamos quase certeza que elas se esgotaram com o tempo. 


Desmemória

Hoje pela manhã vi homens trabalhando arduamente para colocarem enfeites de Natal nas vias. Subiam em postes, botavam lâmpadas e ao mesmo tempo espantavam os meninos de rua que por ali perambulavam atraídos pelo brilho.

Maldita curiosidade em relação à alegria têm esses moleques.

Ontem recebi mais um convite para jantar, onde decidiremos como será o Natal sem fome.

Quantos anúncios publicitários devem ser feitos para se ajudar ao próximo? De quanto é a doação para acreditarmos no programa Fome Zero?
 
 Final de ano! Qual é a maneira de pagar o tributo social com aqueles tratados como inferiores durante onze meses?

Do décimo andar vejo novos cartazes com propagandas de olho no décimo terceiro, não andar, mas salário. Começo a pensar que para ser uma pessoa normal, vou ter que trocar todos os celulares da família. Já estão tão fora de moda!

Maria...Ah! Maria... Não há relatos que tenha tido acompanhamento pré-natal. Jesus não fez o teste do pezinho, José não tinha Bolsa Família, os reis não foram avisados por celular.

Estranha ultra-sonografia do passado, bizarra ressonância magnética do presente que só falta ler a nossa mente. Ainda assim continuamos esquecidos da desigualdade durante o ano todo e só nos lembramos em cima do laço.
 
Maria já entrou no nono mês!

www.rosapena.com