Pagª 27 - EDIÇAO NºLI
, III NUMERO DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Carta ao Pai Natal (II)
Lisboa
Querido Pai Natal:
Eu sei que já não tenho idade, mais de 50 anos, para escrever cartas ao Pai Natal, e muito menos para ainda acreditar no Pai Natal, mas como eu não quero matar a criança que continua a viver dentro de mim, continuo a acreditar no Pai Natal.
Pai Natal, eu não quero matar a criança que vive dentro de mim, porque é ela que faz com que eu continue a acreditar que ainda é possível construir um mundo de paz e de amor, onde todas, mas todas mesmo, as crianças tenham direito a ser felizes e a ver respeitados os seus direitos universalmente aceites e mundialmente violados.
Pai Natal, eu não quero matar a criança que vive dentro de mim, porque é ela que
faz com que eu continue a acreditar que envelhecer não é sinónimo de sofrimento
mas sim um sinal de que somos aceites, compreendidos e respeitados como alguém
que deu muito de si ao mundo, e que quando tivermos a idade que nossos pais têm,
ou teriam, agora, não teremos de passar pelas privações e humilhações a que são
sujeitos dia a dia.
Pai Natal, eu não quero matar a criança que vive dentro de mim, porque é ela que faz com que eu continue a acreditar que estará para breve o dia em que as mulheres serão vistas como companheiras, amigas, seres humanos iguais aos homens e não como seres que nasceram para sofrer na pele toda a espécie de marginalização, humilhação e desprezo com que ainda hoje são tratadas em tantas partes do mundo.
Pai Natal, eu não quero matar a criança que vive dentro de mim, porque é ela que faz com que eu continue a acreditar que um dia os doentes sentirão, não dó, nem compaixão, mas sim compreensão para o momento difícil que atravessam e terão direito aos cuidados essenciais de saúde.
Pai Natal, eu não quero matar a criança que vive dentro de mim, porque é ela que faz com que eu continue a acreditar que ainda me será dado a conhecer o mundo onde os deficientes não serão vistos como um obstáculo, um empecilho, um estorvo, uns inúteis para a sociedade, mas sim como alguém que somente nasceu algo diferente dos outros, mas que já tantos, e tantas vezes, provaram que basta acreditarem neles para que essa mesma sociedade que os marginaliza se venha a surpreender com as suas capacidades.
Pai Natal, eu não quero matar a criança que vive dentro de mim, porque é ela que faz com que eu continue a acreditar que um dia, os homens que detêm o poder, conseguirão colocar de lado as invejas, os ódios, as ganâncias que os têm levado a cometer tantas atrocidades contra os mais fracos, mais debilitados, menos preparados para enfrentar esse seu poder, sofrendo na carne, e na alma, os resultados desses sentimentos, frustrações, recalcados dos poderosos deste mundo.
Pai Natal, eu não quero matar a criança que vive dentro de mim, porque quero pedir-te uma prenda de NATAL.
Já devias estar a estranhar tanta prosa, já devias estar à espera que te pedisse algo, afinal todos te escrevem a pedir uma prenda, pois é verdade, quero pedir-te uma prenda, ainda por cima uma prenda muito especial, quero pedir-te PAZ para o mundo.
Poderá parecer-te um pedido difícil de satisfazer, mas não o é, não te peço que mudes o coração de quem manda no mundo, peço-te antes que impeças que homens com coração de pedra voltem a governar.
Pai NATAL, não te preocupes em comprar carrinhos telecomandados, pistas de
comboios, bonecas muito bonitas que até falam e cantam, dedica o teu tempo nessa
cruzada de dar PAZ ao mundo, e as crianças, essas mesmas que neste NATAL ficarão
tristes por não terem o brinquedo que te pediram, te agradecerão, no futuro, por
as terem deixado ser crianças, por poderem ser mulheres livres e respeitadas,
por
poderem adoecer com tranquilidade, por poderem envelhecer com honra e dignidade,
por não recearem vir a ter um filho deficiente.
Sim Pai NATAL, é isto que te quero pedir.
Obrigado Pai Natal
Francis Raposo Ferreira (Um homem de 50 anos que continua a gostar de ser menino)

Continuação das Colunas de Francis Raposo Ferreira (Ver Início)
Continuação do conto Sonho de Natal
Aproximava-se o Natal e Belinha sentia crescer dentro de si um medo terrível, não pelo Natal, mas sim pelo que isso significava, muito mais trabalho e, sobretudo, muito mais frio, o que para a sua saúde era um grande sinónimo de sofrimento. Sofrimento que lhe era provocado pelo frio.
Os dias iam passando e procurava desdobrar-se para conseguir acudir a todas as exigências que a quadra exige, isto para além da enorme pressão psicológica que lhe era transmitida no seu local de trabalho.
Chegou o dia 23 de Dezembro e Belinha debatia-se entre dois sentimentos, por um lado ansiava pela chegada da noite de consoada e poder ver a alegria estampada na face dos filhos, mas por outro lado sabia que aquela noite significava muito mais trabalho, muito mais louça para lavar, muito mais coisas para arrumar, isto é, significava muito mais sofrimento.
Estava ela entregue aos seus pensamentos quando foi chamada à presença do
director da empresa. Ficou intrigada e preocupada, o que lhe desejaria ele, logo
naquele dia. Belinha entrou no escritório do director e ficou surpreendida ao
ver o homem que estava à sua frente, um velho companheiro de trabalho:
- Desculpa, o que fazes aqui? Onde está o director?
- Calma Belinha, senta-te e ouve.
Belinha sentou-se sem compreender o que se passava. O seu anfitrião explicou-lhe que muita coisa mudara na empresa e que ele era o novo director, explicando-lhe que a nova direcção sabia reconhecer tudo o que ela sempre dera à empresa, e que essa sua dedicação e entrega iria ser devidamente recompensada.
- Agora podes ir para casa, dia 26 cá te esperamos para definirmos as tuas novas funções. Belinha nem queria acreditar, saiu do escritório e correu para casa. Contou as novidades ao marido, e aos filhos, e preparou-se para ir adiantar os preparativos para o dia seguinte.
- Não mãe, tu este ano não estás autorizada a fazer nada, trabalhaste um ano inteiro na empresa e ainda fizeste todas as tarefas de casa. Agora chegou o Natal, a festa da família, e nós, a tua família, queremos recompensar-te por tudo quanto nos deste durante, não um ano, mas sim durante uma vida.
Belinha via cumprir-se num, simples dia, todos os sonhos que um dia ousara
sonhar, ver reconhecida a sua dedicação à empresa e sentir que valera a pena
lutar pela sua família. Era o seu sonho de Natal.
Moral da história: «Bastam simples gestos de gratidão e reconhecimento para
alegrar o Natal»
Querido Pai Natal:
Desculpa estar a incomodar-te outra vez, eu sei que te tinha prometido que me ia
deixar destas coisas, que já não tenho idade para andar metido nestas coisas,
que Tu precisas de todo o teu precioso tempo para responderes aos milhares de
cartas que recebes de crianças de todo o mundo, mas foi precisamente por causa
das crianças que eu resolvi voltar a escrever-te, ou melhor, foi por causa das
crianças mas não só, foi também por causa dos velhos, sim já sabes que prefiro
chamar-lhes velhos com carinho do que idosos com hipocrisia, e ainda por causa
dos doentes, enfim, por causa dos desprotegidos da vida, sim porque os outros
têm muito quem escreva por eles, felizmente.
Pai Natal, vou fazer uma coisa que não devia, mas sei que tu me compreenderás e
me perdoarás o meu atrevimento, vou pedir-te que faças alguns cortes nos pedidos
que tens recebido. Estás admirado?
E verdade, vou pedir-te que em vez de distribuíres carros telecomandados,
distribuas antes carros mais simples, que em vez de grandes bonecas que falam,
choram e riem, te contentes em dar bonecas menos sofisticadas, não fiques
preocupado, podes ter a certeza que os pais, os padrinhos, os avós, os tios,
etc., desses meninos e meninas, se encarregarão de lhes dar os brinquedos
pretendidos, pois se eles já aspiram e sonham com brinquedos tão sofisticados é
porque já têm os seus quartos repletos de outros brinquedos mais simples, e com
o dinheiro que poupas talvez pudesses oferecer um quarto digno a muitos outros
meninos que passam pela vida sem saberem o que é ter um quarto, ou então um
prato de sopa quentinha a tantos e tantos velhos que se fartaram de trabalhar,
toda a vida, e hoje têm de mendigar por um bocado de pão duro para saciarem a
fome.
Pois é, Pai Natal, eu sei que deves estar a pensar, «lá vem este outra vez com a
ideia de mudar o mundo», mas lá no fundo tu sabes, tão bem como eu, que aquilo
que pretendo não é mudar o mundo, esse nunca muda, é somente tentar tocar no
coração daqueles que podendo, eles sim, mudar o mundo se contentam em olhar para
o lado e fingir que não sabem de nada.
Olha Pai Natal, hoje vou pedir-te uma prenda para mim, é verdade, a minha esposa tem insistido comigo para eu lhe dizer que prenda é que quero para o Natal, sinceramente não sinto falta de nada, daí a minha dificuldade.
Pensei, pensei e resolvi pedir-te uma prenda composta de muitas peças, tal como se fosse um puzzle, a Felicidade. Sei como te deves estar a sentir, então eu digo que não me falta nada e agora peço-te a Felicidade!
A felicidade de que falo é uma felicidade diferente daquela que nos é permitida
no nosso dia-a-dia, falo-te da felicidade de poder continuar a amar a minha
esposa e a minha filha como até hoje, poder continuar a desfrutar do seu amor
como até aqui, a felicidade de poder continuar a ver a minha neta a crescer, a
felicidade de poder continuar a partilhar momentos com os meus sogros, cunhados
e sobrinhos, a felicidade de saber que os meus amigos estão bem e são felizes, a
felicidade de poder continuar a acreditar que um dia o mundo será mais justo,
onde não haverá pessoas que escravizam os seus semelhantes, onde não haverá
crianças que nunca sabem o que é ser criança, onde os velhos envelhecem sem medo
de envelhecer, onde as grandes potências gastarão milhões na procura da
felicidade do ser humano, na procura de cura para as doenças mais incríveis e
não em armamento.
Enfim, Pai Natal, não te maço mais, vai lá tratar das tuas cartas e tem cuidado
com a gripe A.
Um velho que teima em não envelhecer