Anne Brontë
O leitor atento conseguirá desde logo discernir a minha quase antipatia por Anne. Não se trata de uma questão pessoal, até porque Anne é sempre retratada como uma rapariga piedosa e a especialmente amiga de Emily, pela qual tenho forte predilecção. Não, a minha quase antipatia relativamente a Anne é similar aquela que teria quando perante três quadros pendurados numa mesma parede, um destoasse de forma berrante.

Visto que as irmãs Brontë são frequentemente referidas conjuntamente, como se a qualidade das três fosse equiparável, vejo Anne como o quadro que destoa numa parede de pinturas de alta qualidade.
Sou incapaz de ler em «Agnes Grey» mais do que uma versão suavizada demais e altamente marcada pela religiosidade que Anne apresentou em toda a sua vida, de «Jane Eyre», faltando-lhe a paixão, a emoção e mesmo a crueldade que Charlotte conseguiu incutir na sua obra e que, mais ainda, Emily conseguiu imprimir em «Monte dos Vendavais» («O Morro dos Ventos Uivantes», versão brasileira).
Anne nasceu a 17 de Janeiro de 1820, no mesmo ano em que a família se mudou para Haworth onde o reverendo encontrou uma posição que viria a ser vitalícia.
Quando tinha pouco mais de um ano Anne perde a mãe e muito pequena ainda as duas irmãs mais velhas. Manifestou precocemente particular inclinação para a religião, o que se manifestou na sua atitude perante a vida, perante a própria morte, contra a qual lutou com um seguimento estrito dos conselhos médicos e fervor religioso, e na sua escrita.
Gondal foi o mundo imaginário que Anne e Emily partilharam durante muitos anos e a relação entre as duas foi sempre muito próxima embora seja sugerido que Anne ficou muito chocada ao ler «Monte dos Vendavais», o que terá decerto criado uma tensão entre as duas.
De facto visto a obra é tudo excepto uma história de personagens piedosas e com cunho religioso, é uma história de obsessão, vingança e de um amor demasiado intenso para ser considerado socialmente aceitável para a época, e seria natural que tivesse incomodado a alma de Anne.
Em 1840 Anne é aceite como governanta para a família Robinson onde trabalha durante três anos antes de Branwell ser também contratado como tutor, criando uma situação difícil que leva a que em 1845, provavelmente antevendo o desfecho triste da situação, ela tome a decisão de sair da posição, voltando para casa, sendo pouco depois seguida pelo irmão que é despedido.
Em 1846, por incentivo de Charlotte que descobre alguns poemas de Emily e neles considera existir grande qualidade, as três irmãs lançam-se para a primeira publicação em conjunto. Sendo ainda uma época difícil para mulheres escritoras, as três irmãs escondem-se atrás de três pseudónimos: Currer (Charlotte), Ellis (Emily) e Acton (Anne) Bell e o livro de poemas é publicado em Maio.
Diz-se que o motivo do uso dos pseudónimos era particularmente para evitar provocar sofrimento ao irmão Branwell que sempre quis reconhecimento pelos seus talentos artísticos, e raras vezes o encontrou em vida.
No ano seguinte o livro «Agnes Grey» é aceite para publicação juntamente com o «Monte dos Vendavais», de Emily, enquanto «O professor», de Charlotte, é recusado, sendo no entanto aceite «Jane Eyre» que ela escreve um pouco depois.
As críticas iniciais são fortemente focadas no «Monte dos Vendavais» devido ao seu tema controverso, mas «Agnes Grey» obtém um relativo sucesso, embora tenha sido bastante negligenciado face a «Jane Eyre».
Em 1848 outro romance de Anne é publicado: «The Tenant of Wildfell Hall» (versão portuguesa «A inquilina de Wildfell Hall») ainda sob o pseudónimo de Acton Bell.
Esse ano será marcado na vida de Anne pela morte de Branwell e, três meses depois, de Emily. Pouco depois Anne apresenta sinais de doença e vem a morrer a 28 de Maio de 1849, sendo enterrada em Scarborough, na costa, onde se encontra com Charlotte num esforço para se curar.
Esta opta por enterrá-la ai, procurando poupar ao pai o sofrimento de assistir a mais um funeral de uma filha.

Continua com Emily Brontë no próximo numero
Por Virginia Teixeira