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Crónicas «Ver e Sentir»
Por Cristina Maia Caetano
(LV)
Um belo sol!
Um belo dia!
Quanta cor brilhava!
Quanto doce movimento havia!
Ah! Como o dia estava mesmo perfeito!
«Bem-Aventurado» caminhava confiante e graciosamente!
Como era dono do seu mundo!
E que bem, que isso lhe sabia!
Passito a passito, as suas patitas galgoreavam as pedras da calçada uma a uma,
suave, suavemente...
Como o seu reflexo na sua ondulante sombra, transmitia segurança e protecção!
Como se sentia mimado e venturoso!
E, como se sentia deveras amado!
Passito a passito, nem a sua comprida linguita saÃda da boca avassalada ao
tórrido calor, o perturbava!
Sabia, que água aparecer iria,
Sabia, que a sua querida doninha, tudo lhe providenciaria,
Sem de nada suspeitar, passito a passito, feliz e contente, caminhava e
caminhava....
Nem quando em cima de um providencial tejadilho de um carro logo ali estacionado
se encontrou, «Bem-Aventurado» se moveu...
Ele bem sabia, que a sua doninha, também a sua protecção certamente lhe
providenciaria!
De soslaio, olhava perplexo para aquele enorme cão, que a tudo a um lobo se
assemelhava. Como era portador de uns belos mas ameaçadores olhos azuis!
Porque estaria tão zangado com ele?
«Bem-Aventurado» não conseguia compreender!
Seria simples inveja de tão amado ser?
Ou seria apenas e, tão apenas, a tão aclamada «natureza», que do fervilhar do
sangue do canzarrão, para todos os músculos do seu ser pulava e pulava?
Providencialmente, com o seu lindo cãozito em cima do forçado apoio, cuidadosa
dona, rapidamente um relance de olhos deu. Mesmo ao lado, num outro carro, a
quem o supremo calor, as janelas abertas tinha, um bondoso senhor, daÃ
rapidamente saltou e, destemido aos apelos de ajuda prontamente acorreu.
Sob o olhar atónito do protegido cãozito e da sua doninha, como o boçal
canzarrão ao generoso senhor se atirou!
Felizmente, mais uma vez, o bondoso senhor não esmoreceu!
De braço dorido, mas felizmente não ferido, uma brecha de desatenção do
canzarrão, o complacente senhor bem aproveitou!
Com gestos rápidos e seguros, rapidamente «Bem-Aventurado» se viu sentado no
banco do carro, mesmo ao lado deste generoso condutor, atento aos passos
protectores que a sua doninha, continuava a manter na calçada, apressando o
passo para melhor acompanhar o lentÃssimo andamento do veiculo.
Doninha, bem percebia, que a sua imagem na retina do seu amado cãozito,
atentamente se mantinha.
Finalmente, transferido a são e salvo para o carro da sua dona, como bem
«Bem-Aventurado» se portou!
Como o doce cãozito nem um só latido proferiu!
Afinal, ele sabia que estava a ser salvo!
Ele, nos seus instintos confiou!
Ele, bem sabia, que naquele momento, o bondoso senhor, o seu anjinho da guarda
era!
Ele também sabia e bem compreendia que o canzarrão, afinal não era mau! Era
apenas e somente mais um produto de uma sociedade num fervilhar de constantes
atropelos!
Lembrem-se pois, de pensarem carinhosamente no assunto, com a certeza que
coincidências não existem, e que o melhor é mesmo não se fazerem julgamentos...
