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Varanda do Oriente

Legado Português - Maria de Guiomar

Por José Gomes Martins (Tailândia)

Continuação - Leia desde o início

Maria de Guiomar está sepultada em campa desconhecida no adro da igreja de São Domingos do «Bang Portuguet».

Maria de Guiomar como ironia da sua memória, deixou na Tailândia várias especialidades culinárias bem portuguesas e entre estas destaca-se o fio de ovos, ao qual foi dado o nome de «Foi Tong» cuja receita foi introduzida pelos portugueses, pouco depois de se estabelecerem em Ayuthaya. Actualmente a receita de Maria continua a ser a especialidade de confeitaria de excelência, a mais preferida e de enorme popularidade do norte ao sul da Tailândia.

Na velha capital do Sião, Ayuthaya, destruída em 1767 pelas tropas do reino do Pegú, depois de 233 anos, renasce, agora das cinzas uma nova e moderna cidade e, ainda hoje, o «Foi Tong» é confeccionado nos moldes da receita de Guiomar, sem a aplicação do amarelo a imitar a gema de ovo. Não há o funil de lata para verter na calda, açucarada, a ferver, o fio da gema, mas um feito da folha de bananeira.

Os japoneses exilados organizaram-se e fundam a sua comunidade do lado oposto do Bangue Portuguete, junto à margem do Rio Chao Prya.

Maria Guiomar desde criança foi educada primorosamente sob os preconceitos da Igreja Católica. Entre as várias virtudes que possui, não passam despercebidas as qualidades magnânimas de que é dotada, ajudando as mulheres siamesas que tiveram filhos de homens portugueses, que acidentalmente morreram, ou as abandonaram depois de as engravidar.

Constantino Falcão, nasceu em 1647 na Ilha Cefalónia na Grécia. Com nove anos, apenas, partiu para a Inglaterra como criado de barco da marinha mercante inglesa. Entra, anos depois, para o quadro do pessoal de bordo da companhia da India Oriental.

Falcão sem princípios académicos é possuidor te rara inteligência que consegue assimilar vários idiomas orientais, inclusivamente falava e escrevia correctamente o português, a língua franca em todos os portos asiáticos. O aventureiro grego ganhou experiência e sabedoria na prática do comércio marítimo, abandonou a Companhia da India Oriental, associa-se a um colega inglês, Samuel White e constituem a sua própria companhia de navegação.

Fizeram negócios com o Rei do Sião, cujas mercadorias, em quantidades significativas chegavam à Pérsia. Os sucessos comerciais do Falcão e do Branco foram de tal ordem que acabam por receber toda a confiança do Rei Narai do Sião que lhes faculta o crédito. Um temporal no Mar de Andanama fez naufragar o junco de Constantino Falcão e do britânico Branco. Resta-lhes a roupa do corpo. Tudo perdido. Os dois sócios voltam à posição da estaca zero. Terão de recomeçar tudo de novo.

O Rei Narai conhece perfeitamente a agilidade do Falcão para negócios e, em vez de o financiar com outro barco e mercadorias agrícolas, com muita abastança no Reino, oferece-lhe o lugar de chefia nas relações internacionais do comércio com o estrangeiro. O inglês White é nomeado Governador do porto de Mergui, nas águas do Mar de Andanama.

Foi enviado, como cabeça de missão comercial siamesa à Pérsia e os sucessos alcançados foram de tal ordem para o Reino do Sião que o Rei Narai não hesita em o convidar para Primeiro Ministro da sua Corte.

Os francesas começam por descobrir as riquezas do Sião, querem tomar conta dele; Luís XIV pretende a todo preço e meios balançar as posições tomadas pelos ingleses na India e a dos holandeses em Java. A França terá de usar «pézinhos de lã» para entrar com suavidade em Ayuthaya.

As guerras não interessam, mas sim o aliciamento em vez da diplomacia. Utiliza a igreja para alimentar a ambição do poderio no Sudeste Asiático.

Os portuguese estavam já estabelecidos em Ayuthaya há 150 anos, quando os franceses ali chegam. Os missionários portugueses foram atingidos perda da independência de Portugal, em 1580, a favor de Castela. O Papa no Vaticano retira privilégios espirituais e poder aos missionários do Padroado Português do Oriente e concede-os aos jesuítas das Missões Estrangeiras de Paris.

Os jesuítas franceses chegam nas embarcações francesas ao Sião cerca dos anos de 1655. Com eles um Decreto Pontifício selado a dar a conhecer aos missionários portugueses que no futuro seriam eles os senhores da jurisdição da Igreja Católica no Reino.

Os religiosos a soldo de Luís XIV, chegam a Ayuthaya financeiramente bem providos, enquanto os missionários do Padroado viviam em extrema pobreza, recebendo esmolas dos fieis do «Bangue Portuguet», onde no aldeamento já tinham feito Obra notável construindo três igrejas.

Os clérigos de Luís XIV, apresentaram a Bula papal aos portugueses, embora, estes a tenham recebido condignamente, não acatam as ordens emanadas pelo Vaticano. Começa, então a «guerra fria» entre a comunidade religiosa portuguesa e a francesa.

Estes construem a primeira igreja e sem perderem tempo iniciam a prática do culto. Os pobres missionários de Portugal não aceitam tamanha rebelião. A jurisdição católica em Ayuthaya pertence-lhes há mais de um século. Não admitem intrusos no caminho.

São afixadas excomunhões nas portas das Igrejas Portuguesas aos indesejáveis jesuítas de Paris.

O Papa não as aceita e despacha outra Bula onde reza: «os missionários do Padroado não podem excomungar ninguém em território estrangeiro».

Foi assim que a França se estabelece religiosamente no Sião com o objectivo de colonizar o Reino. Coisa que nunca viria acontecer e termina em tragédia poucos anos depois.

Constantino Falcão, em Ayuthaya, na monarquia do Rei Narai tornou-se um Homem poderoso. Personalidade inteligente, dotado de maneabilidade diplomática, comercial, respeitado pelos países estrangeiros e muito em particular pela França.

Falcão no Sião não procura poder e influências, junto da Corte siamesa, ou bens materiais, deseja apenas alcançar nome e alimentar ambições pessoais. Nele é que o Rei Narai confia os negócios do reino com o exterior. A pouco mais de 100 metros do palácio real, em Lopburi e a 60 quilómetros da capital, Ayuthaya, mandou construir duas opulentas residências, cujo desenho é de arquitectos franceses, chegados estes ao Sião, com os missionários jesuítas das Missões Estrangeiras de Paris.

Os edifícios são de rés-do-chão e primeiro andar. Raros ainda no Sião. Nas janelas, os caixilhos são revestidos com vidros multicores, vindos de França e semelhantes aos das janelas do Palácio de Versalhes, na capital francesa.

Os jesuítas, os diplomatas e outros enviados de Luís XIV, actuam como raposas matreiras, usando a mais raras artimanhas na prática do aliciamento. São os jesuítas incumbidos de procurar a conversão do Rei Narai à religião católica.

Constantino Falcão, durante as sua aventuras, troca de religião conforme as conveniências. Nasce debaixo da ortodoxia, professa depois o protestantismo quando se emprega na Companhia da India Oriental e depois no Sião, para se poder casar com Maria Guiomar, os jesuítas convertem-no ao catolicismo.

Maria de Guiomar uma jovem formosa, prendada, cheia de virtudes de bem-fazer aos desprotegidos que a rodeiam em Ayuthaya. Está ligada, desde criança às três paróquias do «Bangue Portuguet».Ocupa a maior do seu dia a dia no arranjo dos altares das Igrejas de São Domingos, São Paulo e São Francisco.

Os jesuítas franceses logo após de se estabelecerem em Ayuthaya, não tardaram a construir a Igreja de São José, num terreno doado pelo Rei do Sião. Localiza-se a pouco mais de três quilómetros, ao Norte, do Bangue Portuguet.

Uma das missões mais importantes dos jesuítas franceses é procurarem a conversão do Rei Narai do Sião. Falcão está convertido e casado com Maria de Guiomar. O Primeiro Ministro grego facilmente convence o monarca para os missionários entrarem no seu palácio e principiar a doutrinar o Rei Narai.

A diplomacia francesa actua na retaguarda apoiada pelos militares franceses, que juntos, também chegaram ao Sião. Sem nunca ter sido provado, corria entre o povo que o Rei Narai tinha abraçado a religião católica. Os jesuítas usam estratégias no propósito de iludirem os siameses.

Constroem igrejas, cuja configuração arquitectónica se assemelham aos templos tradicionais budistas.. Um observatório para aproximar a visão dos astros do céu, com lentes de longo alcance, foi montado junto do Palácio do rei Narai e convidam-no para olhar, de perto, o brilho das estrelas.

Narai está fascinado com tanta beleza e das coisas novas que Luís XIV o presenteou. O rei está enfermo e à cabeceira do seu leito está está um jesuíta. Conforta-o e prepara-o para a entrada no reino dos céus. Os súbditos murmuram em segredo: o rei abandonou o budismo. Não se atrevem abrir a boca contra a figura sagrada do Rei.

O boato espalha-se e vem a ofender o patriarcado budista. As iras não se voltam para o monarca, doente, mas sim, para Constantino Falcão, marido de Maria de Guiomar e, para os franceses. As modernices chegadas de Paris não seduzem os siameses. Impera o ciúme, entre elementos da Família real, de um «farangue» (nome dado a um estrangeiro na Tailândia), dirigir os negócios externos da monarquia.

Um irmão do rei Narai, seu sucessor directo, não está em condições de poder ostentar a coroa do Reino. Disto aproveita-se um sobrinho do Rei, Petraja, e proclama-se a ele próprio rei. Faz com que a plebe se revolte e entre no Palácio, sem contudo molestarem o velho monarca. Petraja obriga o seu tio Rei a assinar um mandato em que lhe dá toda a autonomia de reger os destinos do Sião.

Segue-se a vingança do Petraja contra o Falcão e os franceses. O Palácio de Falcão está junto ao Palácio real que corajosamente aguarda as consequências, acompanhado de sua esposa, Maria de Guiomar. Os franceses já com tropas num fortim em Banguecoque e outras em Lopburi, servindo de guarda real ao palácio, abandonam Constantino Falcão. Procuram, apenas, salvar a pele, fugindo debandadamente em direcção à Barra do Sião.

O Falcão é preso, julgado e condenado à pena capital com a idade de 40 anos. Na sua consciência nada existe que o julgue como conspirador. Afirma que serviu: dois Reis, o do Sião e o de França, a religião católica e a protecção dos pobres. A morte não o assusta. Maria de Guiomar conforta-o e antes que os soldados cheguem e o levem para a sua última viagem. Suplica que não façam dano à Maria Guiomar, sua esposa e ao seu filho.

Saiu da sua residência no dorso de um elefante. A poucos metros de distância, um tronco de bambú, espetado no solo, espera por Falcão, onde os seus braços são amarrados. A plebe, espreita por entre os ramos de arvores rústicas.

O condenado antes da execução tira do pescoço uma volta com a Cruz da Ordem de São Miguel; a negação da condecoração que Luís XIV o agraciara. Pede que a entreguem ao seu filho quando for adulto e lhe recomendem de a fazer chegar ao Rei de França.

De tronco nu, sentado numa folha de bananeira, o cadafalso improvisado, baixa a cabeça, ao carrasco de olhos desvendados que saltando, segurando a espada com as duas mãos a desfecha e a corta cerce num golpe só. O resto do corpo do Falcão e feito em pedaços, levados para a selva, onde os abutres os farão desaparecer.

Maria de Guiomar, após a morte de seu marido, fica com o seu filho em residência fixa. Não há conhecimento que tenha tido maus tratos pelo lado siamês. Mais tarde, foi-lhe restituída a liberdade. O mercador português Jerónimo de Abreu ofereceu-lhe transporte no seu barco armado, para a retirar do Sião que não aceitou. Franceses e jesuítas das Missões Estrangeiras de Paris, abandonam apavorados Lop Buri e a capital em Ayuthaya. Refugiam-se no fortim de Banguecoque.

Guiomar granjeou a amizade dos membros da família real nas suas andanças, protocolares, na Corte do Rei Narai. Foi zeladora de um pequeno principe, que este lhe ganhou tal afeição que passava o dia inteiro com ela. Entretanto a lusa/descendente começa por suspeitar que sua vida e do seu filho correm perigo.

Forjou a fuga de Lopo Buri. A sua avó está gravemente enferma no Bangue Portuguet, precisa de ir lá visitá-la. Parte de Ayuthaya acompanhada por um tenente francês e já preparada para partir do Sião para outro país.

Chega a Banguecoque, o comandante do fortim, General Desfargues recusou-se a dar-lhe asilo com receio que os siameses atacassem os franceses no último abrigo. Maria de Guiomar fica dentro da embarcação.

O Bispo jesuíta Le Blanc intervém junto do Desfargues para que não deixe abandonada a senhora ao sabor da corrente do rio Chao Prya e dos siameses.

O clérigo francês reside no fortim por razões de segurança. Não são hóspedes que o general Desfargues ali deseje. Deixa, pouco depois de existir a coligação entre os militares e os missionários jesuítas. Apenas há a intenção: «salve-se quem puder».

Um comandante de um barco de guerra da armada de Luis XIV, ofereceu a Maria de Guiomar protecção e asilo em França. Não a aceita, porque sabe, que durante a viagem, iria ser sujeita aos apetites sexuais do seu protector.

Regressa ao Bangue Portuguet, em Ayuthaya para depois ser a responsável da cozinha real.

Parte do seu tempo é dedicado em ajudar os lusos/descendentes, nas três comunidades, residentes junto ao Porto Internacional de Pom Phet.

A nobreza, natural, de Maria Guiomar está hoje esquecida.

Dela, ficaram, os fios de ovos «Foi Tongue», mais outras duas especialidade da doçaria portuguesa a relembrar e a incluir a outros factos, relevantes, da História de Portugal na Tailândia.

José Gomes Martins

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