Sanio Aguia Morgado - Mário Quintana
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FEEDS


FLORBELA ESPANCA

Por Sanio Aguiar Morgado

Naquela noite de 7 para 8 de Dezembro de 1930, Florbela Espanca avisou a sua criada Teresa de que não ia dormir no seu quarto habitual, do casal, mas noutro mais tranqüilo e pediu-lhe para não ser despertada no dia seguinte. Disse-lhe, ainda, que andava com insônias e que queria dormir em paz...o máximo de tempo possível. Pela manhã, quando foi encontrada, era tarde demais Florbela morreu durante a noite, possivelmente às duas horas da manhã, à mesma hora e no mesmo dia em que tinha nascido, 36 anos antes.

O dia 8 de dezembro é o dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal, e curiosamente, Florbela Espanca nasceu a 8 de Dezembro (1894), casou a 8 de Dezembro de 1913, suicidou-se a 8 de dezembro de 1930, foi baptizada na igreja de Nª Sª da Conceição, aos 8 anos adotou o nome «da Conceição», e lecionou no colégio Nª Sªda Conceição, em Évora . O dia 8 de dezembro era ainda o aniversario da sua mãe, mãe que Florbela não conheceu bem.

Procurou incessantemente a felicidade no amor, mas a tragédia rondava sua vida, suas constantes decepções amorosas e finalmente a perda de seu irmão, amigo e confidente, através de cartas, selou sua desilusão pela vida.

O facto de ter assumido dois divórcios e três casamentos, numa época em que não era permitido a mulher tal liberdade, fez cair sobre ela o peso de uma sociedade austera, desumana, mesquinha e caluniosa. Perdia-se aí a maior poetisa de nossa língua.

Seu livro «Poesia Completa» na sua 5ª edição da Publicações Dom Quixote - Lisboa - em 2004 é particularmente especial para se compreender este ser tão especial.

Infelizmente até os dias de hoje há os que a julgam e condenem atribuindo-lhe o rótulo de libertina que ultrapassou as barreiras da natureza como sendo uma pessoa que escolheu as contradições «contra natura» que a conduziu a depressão e ao suicidio conforme publicação de nº 60 de maio de 2009 de «O Campanário» da paróquia de Ervidel.

A poetisa e contista alentejana, na verdade, não cabia em Vila Viçosa, era maior do que a aldeia que a castigou com o desamor das pessoas preocupadas em falar da vida alheia parecendo como o que se passou em texto biblico, querendo atirar-lhe pedras .

A igreja naquela altura proibiu a exposição de seu busto em praça publica, como uma e pecadora que Deus misericordioso a castigaria. De facto, ao falecer o irmão poucos anos antes de morrer perdia seu unico amigo e confidente, lentamente morreria também numa sociedade que não lhe perdoaria.

 

OS VERSOS QUE TE FIZ

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem para te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim para te oferecer.

Tem dolências de veludos caros,
São como sedas brancas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos para te endoidecer!

Mas, meu amor, eu não vos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E, nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

 

Sanio Aguiar Morgado

Agradecimento ao jornal Barracondominio

 

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