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O Quebra-Galho

Por José Pedreira da Cruz

(Pura verdade...Será? ...)

 

 

A alegria era contagiante em todo o Brasil e o povo delirava com a música que enaltecia os brasileiros na qual dizia «estarem todos em ação».
Eu era, sem dúvida, um fragmento dessa euforia em terras cariocas. Um recém-chegado das caatingas que nada entendia da vida metropolitana, e por isso estranhava tudo ao meu redor.

Lembro-me de que a vida não estava, assim, tão risonha para mim, que vivia desempregado, desdentado, duro e dependente de uma oportunidade.
Se bem me lembro era um domingo, e nele o último jogo da Copa: a decisão final: Brasil e Itália. E eu não tinha rádio nem TV.

Nesse dia eu estava na casa de um irmão, um fuzileiro naval que eu acreditava não necessitar fazer nenhum tipo de «bico» para complementar seu soldo, mas, mesmo assim, ele havia dado uma estudadinha em alguns livros de eletrônica e se auto-intitular técnico de rádio e de tv.

A notícia de que no bairro havia um consertador de televisão se espalhou rapidamente pela vizinhança, pois um aviso com a tal indicação permanecia afixada na fachada de sua moradia e isso lhe afluía alguns minguados fregueses. E foi naquele inesquecível domingo, em que a cidade já amanheceu inquieta e com um clima de festiva euforia, que apareceu um indivíduo e contrata o meu irmão para consertar seu aparelho de televisão, exigindo urgência urgentíssimo, pois nele veria a decisão da Copa do Mundo.

– Tá legal! Tá legal! Lá para uma da tarde estarei lá! Fica frio! – E esfregando as mãos de tanto contentamento, meu irmão selou verbalmente o compromisso com o tal indivíduo, e depois virou-se para mim dizendo:
– Mano, vai chover um dinheirinho! Vai cair uma bela grana!

Os ponteiros do relógio corriam enlouquecidos em direção às treze horas - hora do dito compromisso – e, num piscar de olhos lá estávamos subindo a escada do prédio rumo ao apartamento do fulano. Bem rápido atingimos o terceiro andar onde o encontramos sentado no último degrau da escada bebendo cachaça no gargalo da garrafa e dizendo estar pregado ali por mais de horas, e que tudo era só por nossa culpa. Notei que o sujeito cantava sem parar a tal música alusiva à seleção canarinho.

Ele mal respondeu ao nosso boa-tarde e nos foi ordenando:
– Entrem, e só saiam daí com essa porcaria funcionando, beleza?! – Disse e logo voltou a lamber o gargalo da garrafa.
Atendemos e adentramos encabulados: algo inesperado iria acontecer.
O homem estava visivelmente ansioso, bêbado, e cantarolando incessantemente a tal música da seleção auriverde.

Deixou-nos no interior do apartamento e voltou para os degraus da escada, cantando, e, às vezes, narrando imaginários jogos de futebol. Vez em quando ele gritava urrando por um «gol» inexistente. Parecia louco, mas era só cachaçada.

O CONSERTO

Meu irmão desparafusou o televisor e se pôs a mexê-lo como se bem o entendesse. Mexe daqui, mexe dali, e de repente ele encostou a ponta da chave de fendas onde não deveria e uma terrível explosão balançou o andar do prédio. A fumaça negra saiu da TV com um odor insuportável e, enquanto isso, nós pulamos para as paredes.

O sujeito saiu da escada e apareceu na sala tal qual um fantasma. Ele ficou por um instante empalidecido e meio abestalhado - sem nada entender -, mas quando sua «ficha caiu», ele sacou de uma faca-peixeira e nos encurralou no apartamento, gritando:
- O quê você fez com a minha TV? Você é louco, cara? Você só sai daqui se essa (p---) funcionar, entendeu?

Lá fora era tudo agitação e alegria.
O Rio de Janeiro estava freneticamente alegre e contagiante com a aproximação do início do jogo. A todo instante se ouvia estampidos, gritarias e buzinaços. Era tudo uma única loucura.

– Escute aqui moço! Por favor moço, me escute! – dizia meu irmão tentando dialogar ou mesmo desviar a atenção do freguês que não nos dava trela, e nesse entrave de perfeita discórdia eles ficaram trocando palavras e discutindo o improvável. O fulano, com a mão esticada, nos mirava com a faca em punho, e nós, em pânico, procurávamos um jeito óbvio e prático de escapulir dali.

– Calma moço, calma! Beba mais uma pinga! - Era só o que eu lhe dizia na tentativa de fazê-lo raciocinar. Mas o indivíduo virando-se para o meu irmão, cambaleou, e, atropelando sua própria fala, discursou:
– Você não é um eletrotécnico? Você não se diz um técnico? Então arrume essa (p) dessa TV antes de começar o jogo porque eu quero ver o Brasil ganhar, entendeu, seu filho da (---)?

E acrescentou: ta todo mundo vendo essa (p) desse jogo na TV, menos eu! Agora, ou você arruma, ou morre! Ok?
E meu irmão quase se borrando, retrucou:
– Moço! Eu sou apenas um quebra - galho! Fica frio!

Aquela foi a cena mais horrível já vivida.
Num belo instante o sujeito descuidou da atenção e nós escapulimos pela escada abaixo, menos ele, que estava bêbado demais para isso.

Amedrontados corremos pela rua, e mal chegamos em casa ouvimos a cidade explodir num único grito:
Goooooool
Goooooool do Brasil!
Pelé, Pelé!

E eu fiquei a imaginar o tal freguês sentado na frente da sua velha e esfumaçante TV, sem nada poder ver.
– Coitaaaado!

 

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