EDIÇAO NºLIII , II NUMERO  DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS

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Uma questão de coerência

Por Mirian Cristina Ubaldo

Citarei em breves linhas três acontecimentos recen-tes que para uns certamente não haverá nenhum ponto de ligação entre eles, mas por mais que eu reflita não consigo encontrar qualquer índice de coerência nas atitudes das pessoas envolvidas. Inicialmente citarei apenas os fatos para depois analisa-los separadamente relevando as explicações dos envolvidos

Nas últimas semanas o fato que se tornou manchete em todos os canais da mídia foi o caso da estudante que apareceu na faculdade com um micro vestido vermelho e foi ridicularizada pelos colegas e demais estudante da faculdade. Parecido com uma «rebelião de presos», os estudantes se aglomeraram pelos corredores da faculdade gritando palavras que algumas mulheres se sentiriam lisonjeadas do tipo «gostosa» e outras, mais ofensivas que se referiam a honra moral da garota, mas pela qualidade do jornal prefiro não descrever.

O tumulto tomou uma proporção tão fora de controle que foi preciso uma escolta policial para retirar a estudante da faculdade que mesmo assim saiu sob vaias e provocações por parte mesmo de pessoas que não sabiam ao certo o que estava acontecendo, mas movidos pelo calor do movimento gritavam enlouquecidos. Antecedendo a este caso, alunos, ainda crianças de acordo com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), de uma tradicional escola particular de minha cidade aproveitando a ausência do professor na sala divertiam-se olhando a rua através da janela do segundo andar da instituição quando avistaram uma senhora simples de profissão doméstica que passava pela calçada, em turma gritaram «macaca».

A mulher constrangida e com apoio de populares chamou a policia e pediu um boletim de ocorrência por ofensa e discriminação racial. A direção da escola foi chamada e ficou de identificar «as crianças» que haviam cometido tal ato.

No último dia 12 de dezembro em uma grande cidade próxima com um dos maiores pólos estudantis universitários do país três jovens de classe média alta estudantes de medicina em uma renomada faculdade particular (apenas para pessoas com bom poder aquisitivo) passeavam de carro por uma das avenidas mais movimentadas da cidades e ao avistarem um simples trabalhador, negro, indo para o serviço em sua bicicleta passaram a chama-lo de «o seu negro» e não bastante usaram o tapete do carro para improvisarem um cassetete e o acertaram nas costas fazendo com que o pobre coitado caísse ao chão ferindo-se com escoriações pelo corpo.

Segundo testemunhas os jovens ainda festejaram com gritos e risadas antes de deixarem o local em alta velocidade. Identificados foram detidos e de açodo com a autoridade responderão na forma da lei por agressão e discriminação racial que sabemos aqui no Brasil ser crime inafiançável. Tentamos agora analisar os fatos de forma totalmente racional sem envolver a emoção, encontrar a ligação entre eles e se possível uma coerência que os explique.

Em primeiro lugar esclareço que não sou psicóloga e não tenho nenhuma relação com o movimento comportamentalista apesar da psicologia caminhar paralelamente com meu trabalho de educadora. Portanto acho indispensável esclarecer que de forma alguma procuro julgar ou justificar a atitude da moça do micro vestido envolvida no primeiro caso, pois de acordo com a maioria dos estudantes o que levou os colegas a terem um ataque por mim visto como de selvajaria foi o fato de ela estar com uma roupa «indigna» para o local.

Aqui encontro o primeiro indicio de ligação entre os três casos: o direito de ir e vir de todo cidadão.

 

 




Se no estatuto da faculdade não havia nenhuma clausula estabelecendo o tipo de vestimenta que os estudantes deveriam usar, já me deixa dúvidas se o fato de usar uma roupa curta, provocante, talvez até imprópria para o local (respeitando a opinião dos demais) seria motivo para um «motim» estudantil, pois todos lá tem o mesmo direito de se vestir, ou não, como bem quiserem.

Neste caso a garota acabou virando celebridade, foi tema de telejornais, pousou para revistas teve programas de auditório em horário nobre com o tempo todo reservado para ela. Sua defesa foi feita por grandes advogados sendo provado que ela foi a grande vitima com direito a uma gorda indenização.

Analisando agora o segundo caso: Tudo não passou de uma matéria em emissora de rádio local sem grande repercussão, a vitima foi ouvida pelo repórter apenas uma vez, a escola se justificou (não em público) pedindo desculpa à senhora em nome dos alunos com a promessa de puni-los caso fossem identificados. Nenhum advogado se ofereceu para defender a vítima e o caso foi esquecido sem «manchar» o nome da instituição. Nada de indenização.

Analisando o terceiro caso, não é preciso dizer mais uma vez que tanto ele como a doméstica tiveram seu direito de ir e vir assegurado na Constituição Federal interrompidos, já que estavam a caminho do trabalho ao serem agredido de forma verbal e física. Neste caso pessoas com a mente um pouco mais aberta e consciente de que a muito tempo negros e brancos deixaram de ter qualquer diferença, não deixaram que os agressores fugissem em pune fazendo com que fossem rapidamente detidos e acreditando na justiça, recebam o devido castigo. Que não seja aqueles tão difíceis convertidos em trabalhos sociais, pois coitados dos estudantes, prontos para se formarem para médico, seria muito humilhante!!!!

Ah... esqueci-me de dizer que o trabalhador foi encaminhado ao pronto atendimento, passa bem com apenas algumas escoriações sendo liberado para voltar ao seu trabalho, vida normal. As lágrimas em seus olhos ao dar a entrevista, provavelmente foram devido ao susto da queda não deixará seqüelas.

Tal como no caso anterior, nenhum advogado se manifestou em sua defesa. O segundo elo de ligação entre os três casos que consigo traçar, é o preconceito explicito, a falta total de respeito ao ser humano. Quantos outros casos semelhantes ou piores a estes acontecem bem diante de nossos olhos e fazemos não ver.

Quantos professores negros são ridicularizados por alunos e ficam em silencio por não terem o apoio da direção que por medo de represálias se omitem e quantas crianças são também desvalorizadas por educadores despreparados que estereotipam os alunos de acordo com sua classe social e etnia.

Não era minha intenção quando comecei escrever este artigo, me aprofundar mais uma vez na questão da escola como reprodutora do preconceito, mas impossível não entrar nesta questão já que os três casos envolveram instituições escolares, estudantes e classes ditas como dominantes, onde o ensino e a educação (formal ou não) deveria ser envolta a igualdade dos seres.

Onde esta a lei 10.639/03?

«Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.
§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

Quando isto sair do papel e o ensino da cultura e história afro brasileira e africana for realmente trabalhada desde a educação infantil, atos como estes citados acima deixarão de acontecer.

Nos orgulharemos daqueles que construíram nosso país, formaram nossa sociedade e só assim o direito de ir e vir será realmente respeitado.

Isto não deve ser feito apenas pelas escolas, afinal educação começa em casa, pois segundo o glorioso Mandela «A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo».

O que não podemos meu caro colega filósofo Contador de Histórias, é não deixar de acreditar, como educadores que somos, crer é o degraus inicial para as mudanças, lembre-se meu caro que Mandela nos deixou a lição:

«Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.» [Nelson Mandela].

Mirian Cristina Ubaldo

13 dezembro de 09