Este Jornal
aceita todas as colaborações que nos
queiram enviar e compromete-se a dar resposta sobre as mesmas em tempo útil.
Uma questão de coerência
Por
Mirian Cristina Ubaldo
Citarei em breves linhas três acontecimentos recen-tes que para uns
certamente não haverá nenhum ponto de ligação entre eles, mas por mais que
eu reflita não consigo encontrar qualquer índice de coerência nas atitudes
das pessoas envolvidas. Inicialmente citarei apenas os fatos para depois
analisa-los separadamente relevando as explicações dos envolvidos
Nas últimas semanas o fato que se tornou manchete em todos os canais da
mídia foi o caso da estudante que apareceu na faculdade com um micro vestido
vermelho e foi ridicularizada pelos colegas e demais estudante da faculdade.
Parecido com uma «rebelião de presos», os estudantes se aglomeraram pelos
corredores da faculdade gritando palavras que algumas mulheres se sentiriam
lisonjeadas do tipo «gostosa» e outras, mais ofensivas que se referiam a
honra moral da garota, mas pela qualidade do jornal prefiro não descrever.
O tumulto tomou uma proporção tão fora de controle que foi preciso uma
escolta policial para retirar a estudante da faculdade que mesmo assim saiu
sob vaias e provocações por parte mesmo de pessoas que não sabiam ao certo o
que estava acontecendo, mas movidos pelo calor do movimento gritavam
enlouquecidos.
Antecedendo a este caso, alunos, ainda crianças de acordo com o ECA
(Estatuto da Criança e do Adolescente), de uma tradicional escola particular
de minha cidade aproveitando a ausência do professor na sala divertiam-se
olhando a rua através da janela do segundo andar da instituição quando
avistaram uma senhora simples de profissão doméstica que passava pela
calçada, em turma gritaram «macaca».
A mulher constrangida e com apoio de populares chamou a policia e pediu um
boletim de ocorrência por ofensa e discriminação racial. A direção da escola
foi chamada e ficou de identificar «as crianças» que haviam cometido tal
ato.
No último dia 12 de dezembro em uma grande cidade próxima com um dos maiores
pólos estudantis universitários do país três jovens de classe média alta
estudantes de medicina em uma renomada faculdade particular (apenas para
pessoas com bom poder aquisitivo) passeavam de carro por uma das avenidas
mais movimentadas da cidades e ao avistarem um simples trabalhador, negro,
indo para o serviço em sua bicicleta passaram a chama-lo de «o seu negro» e
não bastante usaram o tapete do carro para improvisarem um cassetete e o
acertaram nas costas fazendo com que o pobre coitado caísse ao chão
ferindo-se com escoriações pelo corpo.
Segundo testemunhas os jovens ainda festejaram com gritos e risadas antes de
deixarem o local em alta velocidade. Identificados foram detidos e de açodo
com a autoridade responderão na forma da lei por agressão e discriminação
racial que sabemos aqui no Brasil ser crime inafiançável.
Tentamos agora analisar os fatos de forma totalmente racional sem envolver a
emoção, encontrar a ligação entre eles e se possível uma coerência que os
explique.
Em primeiro lugar esclareço que não sou psicóloga e não tenho nenhuma
relação com o movimento comportamentalista apesar da psicologia caminhar
paralelamente com meu trabalho de educadora. Portanto acho indispensável
esclarecer que de forma alguma procuro julgar ou justificar a atitude da
moça do micro vestido envolvida no primeiro caso, pois de acordo com a
maioria dos estudantes o que levou os colegas a terem um ataque por mim
visto como de selvajaria foi o fato de ela estar com uma roupa «indigna»
para o local.
Aqui encontro o primeiro indicio de ligação entre os três casos: o direito
de ir e vir de todo cidadão.
Se no estatuto da faculdade não havia nenhuma clausula estabelecendo o tipo de
vestimenta que os estudantes deveriam usar, já me deixa dúvidas se o fato de
usar uma roupa curta, provocante, talvez até imprópria para o local (respeitando
a opinião dos demais) seria motivo para um «motim» estudantil, pois todos lá tem
o mesmo direito de se vestir, ou não, como bem quiserem.
Neste caso a garota acabou virando celebridade, foi tema de telejornais, pousou
para revistas teve programas de auditório em horário nobre com o tempo todo
reservado para ela. Sua defesa foi feita por grandes advogados sendo provado que
ela foi a grande vitima com direito a uma gorda indenização.
Analisando agora o segundo caso: Tudo não passou de uma matéria em emissora de
rádio local sem grande repercussão, a vitima foi ouvida pelo repórter apenas uma
vez, a escola se justificou (não em público) pedindo desculpa à senhora em nome
dos alunos com a promessa de puni-los caso fossem identificados. Nenhum advogado
se ofereceu para defender a vítima e o caso foi esquecido sem «manchar» o nome
da instituição. Nada de indenização.
Analisando o terceiro caso, não é preciso dizer mais uma vez que tanto ele como
a doméstica tiveram seu direito de ir e vir assegurado na Constituição Federal
interrompidos, já que estavam a caminho do trabalho ao serem agredido de forma
verbal e física. Neste caso pessoas com a mente um pouco mais aberta e
consciente de que a muito tempo negros e brancos deixaram de ter qualquer
diferença, não deixaram que os agressores fugissem em pune fazendo com que
fossem rapidamente detidos e acreditando na justiça, recebam o devido castigo.
Que não seja aqueles tão difíceis convertidos em trabalhos sociais, pois
coitados dos estudantes, prontos para se formarem para médico, seria muito
humilhante!!!!
Ah... esqueci-me de dizer que o trabalhador foi encaminhado ao pronto
atendimento, passa bem com apenas algumas escoriações sendo liberado para voltar
ao seu trabalho, vida normal. As lágrimas em seus olhos ao dar a entrevista,
provavelmente foram devido ao susto da queda não deixará seqüelas.
Tal como no caso anterior, nenhum advogado se manifestou em sua defesa.
O segundo elo de ligação entre os três casos que consigo traçar, é o preconceito
explicito, a falta total de respeito ao ser humano. Quantos outros casos
semelhantes ou piores a estes acontecem bem diante de nossos olhos e fazemos não
ver.
Quantos professores negros são ridicularizados por alunos e ficam em silencio
por não terem o apoio da direção que por medo de represálias se omitem e quantas
crianças são também desvalorizadas por educadores despreparados que estereotipam
os alunos de acordo com sua classe social e etnia.
Não era minha intenção quando comecei escrever este artigo, me aprofundar mais
uma vez na questão da escola como reprodutora do preconceito, mas impossível não
entrar nesta questão já que os três casos envolveram instituições escolares,
estudantes e classes ditas como dominantes, onde o ensino e a educação (formal
ou não) deveria ser envolta a igualdade dos seres.
Onde esta a lei 10.639/03?
«Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e
particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura
Afro-Brasileira.
§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o
estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a
cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando
a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes
à História do Brasil.
§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão
ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de
Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.
Quando isto sair do papel e o ensino da cultura e história afro brasileira e
africana for realmente trabalhada desde a educação infantil, atos como estes
citados acima deixarão de acontecer.
Nos orgulharemos daqueles que construíram nosso país, formaram nossa sociedade e
só assim o direito de ir e vir será realmente respeitado.
Isto não deve ser feito apenas pelas escolas, afinal educação começa em casa,
pois segundo o glorioso Mandela «A educação é a arma mais poderosa que você pode
usar para mudar o mundo».
O que não podemos meu caro colega filósofo Contador de Histórias, é não deixar
de acreditar, como educadores que somos, crer é o degraus inicial para as
mudanças, lembre-se meu caro que Mandela nos deixou a lição:
«Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou
ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem
aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.» [Nelson Mandela].
Mirian Cristina Ubaldo
13 dezembro de 09