EDIÇAO NºLIII , II NUMERO  DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS

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Inesperado Encontro

Conto por  Maria Petronilho

 

Ele estava sentado num ramo caído.

Era magro, grisalho, e segurava um raminho com que ia desenhando enigmáticos sinais no chão. Parecia absorvido no meio cinzento, uniforme, em que o englobavam a terra e o céu. O colete era castanho. A camisa verde azeitona. As calças estavam rotas, manchadas, queimadas nas bainhas. Os dedos dos pés saíam da biqueira das botas.
Eu viera caminhando ao acaso pelo campo, deixando o caminho pedregoso que me balançava os ossos a cada passo. Cansava a monotonia daquela cor única, tom sobre tom de cinza, até onde a vista alcançava.
Quando dera com a pequena figura, estava já tão perto dela que me sobressaltei, por inesperada e porque por pouco a não pisei. Mas ele nem pestanejou. Continuou desenhando no chão com a ponta do galho.
Discerni estrelas e folhas entre sinalefas. Um respeito enorme me invadiu. Queria meter conversa, perguntar-lhe quem era, o que fazia… mas sentia um nó na garganta.

Magoava-me porém a sua absoluta indiferença.
Jamais imaginara que fossem reais e não lendas; que existissem em terras do sul, pois tudo o que lera sobre eles se passava em setentrionais lugares, de abetos, aceres, veados de galhadas descomunais disputando os seus haréns sobre tapetes fofos de folhas carmim e ouro, verdes relvas, riachos cantantes que em breve seriam fitas de gelo.
No entanto, ali estava, bem vivo, o gnomo.
Devagarinho, porque as pernas me doíam, fui-me agachando, sem ruído. Fiquei a observá-lo e aos desenhos que fazia. Envolveu-os num círculo, de forma brusca, levantado poeira e cinza. Então fitou-me com penetrantes olhos azuis.

- Tardará muito até que tudo volte a ser como antes, disse. Eu assenti com a cabeça.
- As sementes perderam o alimento que continham. Só as que jazem muito fundo se salvaram, mas a água custará a chegar-lhes, agora mais do que nunca. - A primeira chuva não penetrará a terra, disse eu.
- Pois não! Escorrerá pela encosta como sobre gabardina. A crosta de cinza é muito espessa. - E não há nada que a retenha…
- Isso mesmo!

- O rio no fundo do vale secou, ficará tão feliz quando sentir humedecer-se o leito!
- A princípio, sim. E cantará muito alegre, fazendo rolar os seixos. Ficará à escuta do eco… mas não soará eco algum neste deserto!
- Ele precisa beber muito, está sedento!
- Mas não poderá conter toda a água que escorrer. Sufocará.
- E os ovos dos peixes e das rãs, onde estão?
- Debaixo das pedras maiores, em ninhos de musgo… mas poucos sobreviverão.

- Reparei nos teus desenhos, disse eu, mudando de assunto.
- Ah, reparaste?!
- Sim. Mas só entendi alguns.
- Isso é bom. Costumo deixá-los mas as pessoas recusam vê-los.
- Porquê?
- Porque têm medo. É mais cómodo não perceber. A pureza encontra-se no limiar da vida.

- Não compreendo bem o que queres dizer.
- Repara: As estrelas são luz, as folhas são espelhos. Tocam-se e o milagre acontece. Tudo morre e tudo volta a viver. A morte mete medo às pessoas que só vêem o lado negro das coisas. Esquecem que nada é eterno, e que o limiar da existência é o nosso ponto de encontro.

Levantou-se e, sem me dizer adeus, afastou-se em passo firme, até quase se fundir no horizonte.
Ainda lhe gritei:
- Porque deixas os desenhos no chão?
- Para que os astros se condoam.

Histórias da Vida Real

 

Crónicas por Martim Afonso Fernandes

 

 

CAMPEONATO DE FUTEBOL

Quarta-feira. Dia de campeonato catarinense de futebol. O Imbituba Atlético Clube era prejudicado pelos árbitros quando jogava contra clubes de cidades renomadas e de maior poder aquisitivo. Para a segunda divisão de futebol a Federação determinava que os jogos fossem disputados as quartas-feiras e domingos.

Os jogos das quartas-feiras em Imbituba tinham as melhores rendas e a maior quantidade de espectadores. Estava a ocorrer uma partida de futebol entre o time de Imbituba e o de Concórdia. Ambos estavam bem colocados, mas o Concórdia não podia perder o embate. Qualquer que fosse o adversário de Imbituba, o Juiz já estava preparado para que o resultado fosse empate no máximo. A casa estava cheia. As empresas liberaram os trabalhadores mais cedo para assistirem ao jogo.

Os dois times tinham jogadores de bom nível profissional. Iniciou-se a partida, o Imbituba atacava e dominava o jogo. O resultado do primeiro tempo foi zero a zero. No início do segundo tempo o árbitro começou a prejudicar o Imbituba, quando este aproximava-se da área e o gol era ameaçado. Como o árbitro é autoridade dentro do campo, cabe aos espectadores julgarem seus procedimentos.

Aconteceu uma coisa que os imbitubenses não queriam. Uma confusão na área do gol do Imbituba. O árbitro apitou penalidade máxima contra este time. Na verdade, quem colocou a mão na bola foi o jogador do Concórdia. Passaram-se alguns minutos e o Concórdia vencia por um gol. Os jogadores que já conheciam o árbitro e tinham-lhe amizade pediram-lhe que empatasse o jogo.
Um jogador conhecido por Choquito deu ao juiz alguns minutos para terminar o jogo:
_O Juiz, (como são chamados os árbitros de futebol no Brasil,) empata este jogo, senão tu vais levar uns tapas dentro de campo!!!

O Juiz, que era arrogante porque tinha as «costas quentes» na Federação, respondeu ao Jogador:
-Imbituba não tem homem nem tem macho, eu não empato e me garanto!!!
Toda a torcida e a Diretoria do Clube, angustiados com a roubalheira do árbitro ficaram indignados. O técnico do Imbituba era jogador conhecido no Brasil e ex campeão do mundo pelo Flamengo do Rio de Janeiro. Sabendo o que poderia acontecer trancou a porta do vestuário do árbitro .

O jogo foi encerrado com o juiz no meio do campo. Um diretor do Imbituba abriu os portões e os espectadores inconformados com a safadeza do juiz invadiram o campo para tirar satisfações com o árbitro. Este parecia um recordista mundial de velocidade. Ao deparar com a porta fechada, invadiu o vestiário dos jogadores adversários.
A porta trancada onde estavam os pertences do juiz, foi arrombada e ateado fogo em seus documentos, roupas e sapatos. Até o seu revólver desapareceu. A torcida enfurecida respeitou o time adversário. Os poucos policiais que estavam em campo não conseguiam manter a calma.

Algumas pessoas foram pelo lado de fora do campo, pegavam touças de capim seco, ateavam fogo nas mesmas e as jogavam pela janela do vestuário onde se metera o juiz.
Um conhecido torcedor que acabava de chegar no campo , desligou o quadro elétrico de comando, deixando todos no escuro, inclusive dentro do vestuário, que deixou de ser um purgatório e quase vira num inferno.
A polícia especial de Laguna foi chamada para atender e livrar o árbitro. Os quatro pneus de seu carro estavam vazios.
A polícia o acompanhou por alguns quilômetros na estrada, até que o mesmo chegasse a cidade de origem.

Ele nunca mais apitou jogos em Imbituba.
Quando seu filho começou na mesma função, em Imbituba foi logo avisado:
- Faça uma arbitragem honesta, que serás benquisto nesta cidade.
Sendo Imbituba uma cidade pacata, tem habitantes desportistas de várias modalidades. Até hoje não se soube de qualquer violência em quadras de desportos onde houvesse uma disputa.
Este fato ocorrido foi uma exceção devido ao árbitro ter sido muito arrogante e autoritário. Mesmo assim, não houve danos físicos a qualquer pessoa que fosse. Lamentamos o ocorrido em campos de futebol, onde ocorrem grandes violências.