EDIÇAO NºLIII
, II NUMERO DE JANEIRO DE 2010 -
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Poemas de Patrícia Neme
Soneto da Saudade
O céu desperta triste, em tom cinzento,
qual lhe fora penoso um novo dia;
aos poucos, verte, em gotas, seu lamento...
Um pranto ensimesmado, de agonia.
Um rouco trovejar, pesado, lento,
parece suplicar por alforria,
num rogo já exangue, sem alento...
A chuva... O cinza... A dor... A nostalgia...
O céu despertou triste... O céu sou eu,
perdida num sonhar que feneceu,
sou prisioneira à espera de mercê.
Sonhando conquistar a liberdade
desta prisão, que existe na saudade...
Saudade, tanta, tanta... De você!
Ultimo Soneto
Quero o manto da noite a velar meu cabelo,
do luar, a centelha, mostrando-me o norte.
Às estrelas suplico, o mais profundo apelo
ao Senhor do existir: que me conceda a morte.
Quero ondas de brisa a ninar-me, em desvelo,
quando o corpo, exaurido, perder o seu porte;
quero o abraço do fogo ao cruel pesadelo
de uma vida sofrida, madrasta, sem sorte.
Que ninguém me lamente, sequer mandem flores
- não suporto o fingir, travestido de cores - ...
Minhas cinzas? Libertas ao vento, mais nada.
Nada mais?... Quero, ainda a benesse do olvido,
não lembrar deste mundo, infiel, desabrido,
onde o amor tem, na dor, sua rima adequada.
Saudade
Eu, hoje,
acordei com saudade.
E, assim como quem procura
na gaveta da ventura,
entre mil e um guardados...
Achei o teu rosto
amado,
no agora,
amanhã,
no passado,
dos sonhos, o mais sonhado,
minha mais terna ilusão.
E sem temer tempo ou idade,
envolta em mansa loucura,
me dei a ti com ternura,
me dei a ti sem cuidados,
num ato
tão encantado,
que o Tempo,
de emocionado,
deixou o mundo parado...
E dormiu na minha mão.
Poesia de Mário Matta e Silva

CULPAS
1
Desamarraram-se os barcos
Cá dentro do meu peito
E tudo ficou à deriva…
Poisaram pombas nos charcos
E o tempo tomba desfeito
Sem outra alternativa.
2
Desataram-se as veias
Que me percorrem, fervilhando
Deixando o sangue em desordem…
No cérebro emaranhadas teias
E engrenagens avivando
Sonhos que não ponho em ordem.
3
Desatinaram-se os prantos
As noites são tormentosas
Até à alvorada dos dias…
Há confusão, desencantos
E culpas bem monstruosas
Que estrangulam alegrias.
9.12.2009
MARIO MATTA E SILVA
VOU COM AS LUAS
Andam as luas troçando
Do meu jeito de ansiedade
Que tropeça sem maldade
No mal que o vem animando.
Trocam-se as luas brincando
Com as minhas emoções
Dando luz às impressões
Da impressão embarcando.
Ao vislumbrar a Lua nova
Enchi-me de novidades
Fiz-me feliz e de vaidades
Enchi este ar de trovas.
De lua em lua saltei
Qual delas mais desvairada
E sua cor alaranjada
Em sonhos eu transformei.
Mudando a lua, mudei-me
Na bruma da realidade
P’ra viver de felicidade
E no agora eternizei-me.
Cada luar a angústia traça
Meu caminho impertinente
Que duma forma insistente
Traz-me a graça e a desgraça.
MARIO MATTA E SILVA