Pagª 34 - EDIÇAO NºLII, I NUMERO DE
JANEIRO DE 2010- COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
O doutor dos passarinhos
Por
Daniel Teixeira
Ser médico (doutor) é uma profissão desejável quando se é criança. Talvez a maior parte dos inquiridos crianças queira ser médico quando for grande, isto a avaliar pelas respostas que se vêm normalmente quando se questionam crianças na televisão.
«O que é que queres ser quando fores grande!?»- Médico, ou médica,
dependendo do género, mas o médico que eles idealizam (e ainda bem) é aquele
médico que cura, aquele médico que repara convenientemente o ser humano, que
mete o organismo todo na ordem, que imaginariamente na inocência infantil
faz andar quem está entrevado, que salva as pessoas, ou seja, o médico
milagreiro, o Sousa Martins das nossas inocências.
Ser um médico daqueles que não resolvem nada, que não têm contacto directo
com as pessoas, que não fazem operações complicadas, que receitam
comprimidos e nem sequer auscultam as pessoas, daqueles que atendem mal o
pessoal de tão fartos estarem das frustrações das suas vidas , esses médicos
não têm porta franqueada na imaginação infantil embora alguns já tenham por
vezes alguma experiência negativa com a medicina sobretudo em vacinas (com
enfermeiras) ou na extirpação de algum objecto estranho numa ferida em
qualquer parte do corpo.
O acto médico, na imaginação das crianças, não dói, pois, é entusiasmante e
até é engraçado quando o clínico deixa ouvir o aumentado pelo estetoscópio,
deixa mexer no martelinho dos reflexos condicionados ou no esfignomanómetro.
Benditas sejam as crianças por pensarem assim porque não admitem o aspecto
falhado do médico, a impotência destes em face de certas situações, a
necessidade de dar notícias tristes e por vezes de ter de viver com elas.
Por isso - eu enquanto fui doutor dos passarinhos - nunca dei uma notícia
triste, nunca disse que o pardal que me tinham trazido tinha morrido, que
outro, apesar dos meus esforços, tinha ficado de tal forma estropiado que as
suas hipóteses de sobrevivência em meio livre eram remotas nem disse nunca
que alguns já estavam mesmo mortos quando os trouxeram.
«Ainda respira, ainda respira!» - dizia eu perante os olhos muito grandes
dos miúdos e das miúdas. «Não sentes o coração dele a bater?! - É porque
bate levezinho, uma batida de passarinho, uma respiração de passarinho!» -
na sua curta vida de passarinho acrescentava eu para mim.
E eram muitos os miúdos que me traziam pardais caídos dos ninhos, ou jogados
pelos pais passarinhos depois de um cálculo errado sobre as suas
potencialidades de voo, ou simplesmente porque tinha chegado a altura: nunca
percebi muito bem como estas coisas se passam mas eu acho que os pais dos
passarinhos têm um calendário e que não têm qualquer capacidade de avaliação
das possibilidades de sobrevida dos filhos que empurram dos ninhos. São
animais naquele plano mais inocente do seu estatuto, não raciocinam, não
analisam, apenas contam os dias ou as semanas ou as luas.
Para as análises, para os raciocínios, já em situação traumática contudo,
estava lá eu, o doutor dos passarinhos, como me chamavam. «Tratei» de
perninhas partidas com talas de palito, fiz encaixes de asas a olho nu e
apenas pelo princípio da simetria bilateral orgânica, dei comida moída a
alguns infantes com uma seringa sem agulha (normalmente milho em pó) e
tratei tudo aquilo que era tratável com os meus fracos meios caseiros.
E ganhei fama como doutor dos passarinhos porque o meu grau de sucesso era
de cem por cento para os miúdos embora fosse a rasar a metade para mim.
Lembro-me de um pássaro que ficou comigo vários dias, inchado sem eu saber
desde logo porquê e que me olhava com uns olhos extremamente tristes, tão
tristes que me lembravam os olhos do cherne do Alexandre O'Neill, os olhos
tristes dos peixes todos, aquele nublado no cristalino que anuncia um
adeus não dito, e pelo qual eu nada consegui fazer: não tinha ânus, vi
depois, e fazer-lhe uma operação era quase impossível.
Disse-lhe, disse ao pássaro triste, que tinha de abri-lo naquela zona, que
tinha de buscar com uma lupa aquilo que poderia ser a tripa que deitaria
para fora, que deveria vazá-la com alguma pressão com duas mini espátulas de
madeira, arriscando rebentar o tecido por não conhecer a sua resistência, e
depois, se conseguisse tudo isso deveria colocá-la em aberto e esperar que
as infecções não lhe tratassem da vida mais rápido do que eu poderia
tratar-lhe da continuidade da vida.
Mas aqueles seus olhos tristes deram-me a coragem que precisava e estudei o
caso, mas levei demasiado tempo a estudar a anatomia dos pássaros e aquilo
que podia fazer porque entretanto ele acabou por morrer quando eu me
preparava para fazer aquilo que tinha estudado.
Mas despediu-se de mim com aquele mesmo olhar triste, aquele olhar
extremamente triste, deitando-se de costas por efeito da gravidade e
deixando as suas duas perfeitas perninhas a tremelicar por segundos.
Foi, para mim, naquele curto tempo que esteve comigo um pássaro «consciente»
de que nada eu poderia fazer mais por ele, tenho quase a certeza disso, eu
tenho essa certeza. Ele foi bastante claro...
Para os miúdos, ele partiu mas não desta forma, da vida, mas sim da minha
casa, da sacada de rés do chão onde os atendia, imitando eu com as mãos e os
braços como o tinha posto a voar, dizendo-lhes que ele tinha voado até além,
até ao pé daquele poste, que depois tinha voado mais um bocado e que se
juntara ao bando que além estava, debicando migalhas. «Aquele mais gordo,
aquele além!»
E os olhos dos miúdos respondiam-me com mais admiração ainda: eu era para
eles sempre o tal idealizado doutor dos passarinhos, sempre sem falhas no
meu percurso, aquilo que alguns deles queriam ser quando fossem grandes.
Por isso, estas coisas dos pássaros, ao nível a que eu trabalhava, ainda que
por solicitação sazonal, tinha também como resultado o interesse desperto
nas crianças pela salvação da vida selvagem citadina. E eu salvava pássaros
e salvava-me a mim e às minhas recordações de infância no campo com fisga e
ratoeiras.
Depois os miúdos foram crescendo e os que apareceram de novo dobraram uma
esquina nas vidas e passaram a percorrer já outros caminhos. Os pássaros
feridos trazidos foram rareando até acabarem. Desse tempo ficam as
recordações e fica a minha convicção de que fiz sempre o meu melhor.
Mas fica também a certeza de que eu me sentiria ainda mais em dívida para com o mundo dos pássaros se aquele passarinho ao morrer não me tivesse «dito» que eu fosse esquecendo aquela parte da minha infância com fisgas e ratoeiras que ele naquele seu curto tempo de vida me ouviu tantas vezes repetir...

O Cairo é pequeno
Por Daniel Teixeira
Há um escritor egípcio, que teve um prémio Nobel e de cujo nome me não
lembro, que, na altura da atribuição do prémio e sendo praticamente
desconhecido, foi abundantemente dado a conhecer pelas publicações
relacionadas com a literatura. Isso durou para aí um mês, essa difusão
intensiva, depois vieram para a rua os livros que interessava publicar
devidamente traduzidos, discutiram-se os livros e mais qualquer coisa e o
homem, como todos os homens, acabou por ser relegado para o lugar que tinha
anteriormente com uma ligeira alteração: passou a ser um desconhecido
conhecido.
Não era propriamente sobre esta questão que eu queria debruçar-me, do
reconhecimento e do conhecimento, mas não resisto a escrever mais algumas
palavras sobre esta questão: o desconhecido é a pessoa anónima, precisamente
igual ao desconhecido serralheiro, ao trolha, ao técnico sanitário de
recolha de lixo (já não se diz os homens da carroça do lixo), aquele anónimo
que apenas é falado quando se diz que Portugal tem dez milhões de habitantes
e ele é um deles.
Já o desconhecido conhecido tem outro estatuto um pouco diferente. E
desconhecido mas torna-se repentinamente conhecido desde que o seu nome, as
suas indicações, neste caso o prémio Nobel, seja dado. Continua desconhecido
para a larga maioria das pessoas mas essas mesmas pessoas sentem que é quase
criminoso colocá-lo ao lado do tal trolha e etc. referidos acima.
Depois, e mais importante ainda, o desconhecido conhecido tem uma marca, um
sinal, um símbolo adormecido dentro dele. Basta dizer que ele ganhou um
Prémio Nobel, neste caso, e ultrapassa num ápice o rio do esquecimento e
mesmo continuando desconhecido para quem o passa a conhecer desta forma é
para sempre mais conhecido que o sempre desconhecido trolha, pedreiro,
serralheiro; estes estão afinal, e para clarificar, mais próximos da
invisibilidade do que do desconhecimento.
Pois bem, na altura do seu prémio Nobel li eu um conto dele, assim não muito
complicado ou muito sujeito a análises, cujo título traduzido era «O Cairo é
pequeno!» onde ele dissertava sobre aquelas coisas da vida que só acontecem
se partirmos do princípio, neste seu caso, de que o Cairo é mesmo pequeno, o
que como todos sabemos, não é verdade e que a sua população mete a da zona
metropolitana de Lisboa numa gavetinha numérica.
Tinha o narrado personagem cometido uma qualquer tropelia com uma rapariga,
havia anos, e um dia, tendo-se perdido nesse Cairo pequeno, foi precisamente
ter, depois de algumas bolandas, a casa de um familiar da dita rapariga que
o reconheceu e logo ali terá tratado daquelas coisas que normalmente são
atribuídas aos árabes (e só aos árabes e aos negros e muito pouco aos
outros) que foi uma vingança fria, um pagamento justiceiro daquele seu erro
cometido no passado.
A coisa para mim está difusa neste ponto e não sei descrever exactamente
qual foi o castigo aplicado (acho que a morte) mas a ideia é que nós,
através da escrita, pudemos tornar os universos mais largos ou mais
estreitos, desafiar as leis das probabilidades, fazer quadrados geográficos
e sociais consoante os critérios e as medidas que nos aprouverem. Basta que
tenhamos um argumento, um guião. Isto através da escrita...
Mas, através da realidade, como se consegue tal coisa? Não se consegue, como
é evidente, mas não deixamos de pensar que existe uma coisa qualquer acima
de nós que faz com que as coincidências apareçam como acontecimentos normais
e vice versa quando elas têm lugar: já me aconteceu fazer diariamente um
dado percurso, quase sempre à mesma hora ou mesmo à mesma hora, e um dia,
por causa de um obstáculo simples, um taipal daqueles de fita da Câmara
Municipal colocado no percurso enquanto se arranja um cano rebentado, por
exemplo, e ter de optar por um desvio e encontrar, devido a esse desvio, um
amigo ou um conhecido que não vejo há anos e se tivesse seguido o percurso
normal, agora impedido, não o encontrava certamente ou não reparava nele.
Pois e indo à história propriamente dita: aqui há tempos ia pela estrada, um
pouco atrasado, e a dada altura do percurso deparo-me (eu e quem me
acompanhava) com um acidente que envolvia dois ciclistas e um carro: um dos
ciclistas estava já morto e não foi ressuscitável, apesar dos esforços e o
outro, não sabendo exactamente com que limitações ficou, foi transportado na
ambulância normal (porque há uma ambulância especial para os cadáveres e uma
ambulância especial para os vivos).
Nós fomos os segundos a chegar com alguns conhecimentos de saúde, que não
vou dizer quais são e já lá estava uma médica, anestesista por sinal que
seguiu quase espontaneamente as suas rotinas de reanimação, entubando,
fazendo massagem cardíaca, usando o desfibrilhador depois deste ter
chegado...mas não havia mesmo nada a fazer. O homem estava definitivamente
morto se é que a morte não é sempre definitiva.
O outro, que também merece algumas palavras, seguiu consciente para o
Hospital e por aquilo que me apercebi não corria risco de vida embora
estivesse em muito mau estado. Passados cerca de três anos vim a saber que
ele, ciclista de passeio desportivo semanal, tinha levado precisamente esses
três anos para conseguir meter-se de novo à estrada em bicicleta como fez
durante tantos anos antes do acidente.
Pois bem e regressando às coincidências: bastava-me ter passado por aquele
local um minuto ( ou mesmo dois) antes e não haveria para mim ainda
acidente. Bastava-me ter passado por aquele local cinco ou dez minutos
depois e já estaria lá toda a gente de socorro, desde ambulância a carro
rápido e embora acabássemos por parar e perguntar se era precisa ajuda o
mais provável era que essa mesma ajuda não fosse necessária.
Outra coincidência de notar : entre os quinze dias em que fizemos
regularmente aquele percurso levámos sempre uma criança connosco, excepto
nesse dia. Criança essa à qual não seria desejável «mostrar» o trágico
daquela forma tão crua, ou mesmo de outra...
Ainda, e por último, ambos ficámos a reconhecer o falecido depois de
sabermos por outras vias quem ele era. Ali, no local do acidente, a nossa
identificação da pessoa não era possível. Era um desconhecido que passou a
desconhecido conhecido por duas vias: devido ao acidente e à sua morte e
devido ao facto de ficarmos depois a saber quem ele era.
Era um senhor com o qual não privámos muito durante cerca de dez anos em que
vivemos num local próximo do seu trabalho mas que nos era conhecido. E
era-nos conhecido, ou mais conhecido, devido sobretudo ao que se segue. A
nossa mente não tem o poder da previsão e neste caso eu teria bem dispensado
que ela tivesse guardado esta memória e não uma outra sobre o senhor.
Tinha uma particularidade que agora me custa descrever, mas que vou ter de
referi-la porque esta era a sua marca enquanto vivo e enquanto o conhecemos
(nós e muitos outros, quase todos, afinal) : tinha o cabelo longo, o que não
era muito próprio da sua idade na altura (talvez uns cinquenta anos) cabelo
esse que utilizava de uma forma não muito discreta para passar sobre o
crânio calvo de forma a sucessivamente e por camadas passar de um lado para
o outro e assentá-lo depois com uma faixa de tecido que ia da fronte à zona
da nuca e por isso, por causa da faixa que trazia sempre, chamavam-lhe o
Sandokan.
Estas coisas, por muito insignificantes que possam ser (e são), quando
incluídas num tema tão trágico e grave como este, e quando tenho mesmo que
os referir porque fazem parte da ideia e são essenciais para a descrição da
ironia do viver e do morrer fazem-me sempre pensar que os desígnios de Deus
são, pelo menos estranhos e que o seu arco de acção é, por vezes, menor que
o Cairo, quando Ele quer.