Pagª 37 - EDIÇAO Nº LII, I NUMERO DE
JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS
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A Purificação
Breve história e (breves) considerações
Por
Daniel Teixeira
Qualquer ser vivo superior tem de se manter limpo, eliminar substâncias
incomodas que, precisamente por isso, são definidas por «sujidade». No caso do
homem, a limpeza é uma vivência marcante da infância. A limpeza impõe limites.
Experimenta-se o facto de os outros se encontrarem prontos a excluir o indivíduo
sujo com a própria sujidade, e como mediante determinados procedimentos pode ser
readquirido um estatuto aceitável.
A limpeza é por isso um processo social. Quem quer pertencer a um grupo tem de
se conformar com o seu padrão de «pureza». O indivíduo rejeitado, o marginal, o
rebelde são considerados sujos. Os grupos que se isolam podem fazê-lo evocando
uma pureza particular, exacerbada.
Correspondentemente, os esquemas de actuação relacionados com a limpeza, tão
carregados emocionalmente, tornaram-se demonstrações rituais. Celebrando a
eliminação do que é incómodo, eles raiam um domínio que é avaliado de modo
superior, seja ele a própria comunidade em face do «exterior» caótico ou um
grupo esotérico fora da sociedade normal.
Estes esquemas de actuação proporcionam o acesso a esse domínio e assim a um
estatuto superior. Eles representam a antítese entre um estado negativo e um
estado positivo e por isso são apropriados para eliminar um estado que seja
realmente desagradável e perturbador conduzindo a um estado melhor, a um estado
«puro». Deste modo, todos os rituais de purificação fazem parte do trato com o
sagrado de todas as formas de iniciação.
No entanto, são também aplicados em situações de crise, de loucura, de doença,
de sentimento de culpa. Na medida em que o ritual se torna útil a uma finalidade
claramente discernida, ele adquire um carácter mágico.
O meio mais habitual de purificação é a água e, nos rituais de purificação
gregos, o contacto com a água é fundamental. Acresce a isso ainda a prática da
fumigação para afastar maus cheiros, uma forma primitiva de desinfecção.
Ulisses «enxofra» a sala após o banho de sangue que provocou. Possivelmente a
palavra grega para «purificar» é derivada da palavra semita para o «fumigar».
Uma vez que, além disso, o fogo consome e destrói tudo, incluindo coisas
desagradáveis e indigestas, pode-se também dizer então: «o fogo tudo purifica».
Praticamente «fumigar» e «incinerar» representam-se da mesma forma gráfica
derivada em grego.
Compreensíveis de modo menos directo são dois outros requisitos da «purificação»
grega; o crivo para os cereais e a cebola do mar. O crivo significa purificar o
grão ao deixar que, com o movimento, o vento leve e debulho.
Quando se abana o crivo sobre a cabeça do iniciado, pode-se falar de magia analógica, bem assim como, ao despejar algo sobre o iniciado, se pode identificar uma descarga de intenções agressivas semelhantes ao «arremesso de folhas» durante a homenagem a uma vitória.
Para a utilização da cebola, não existe explicação grega. Porém, um texto ritual
hitita é esclarecedor: a cebola é descascada pele a pele e no fim nada fica.
Assim o incomodativo é eliminado de um modo bastante elegante. A utilização do
sacrifício sangrento com a finalidade da purificação, ainda que integrada no
domínio central da «actividade sagrada» é ambígua.
Aquilo que na purificação é eliminado com a violência ritual pode ser
interpretado como dádiva a certos poderes que, sendo sinistros e perversos, é
melhor não serem nomeados pelos nomes: «Para vós a água suja, para os que é
necessária e para os que é justa».
Desde Xenocrátes, fala-se de «daímones» que, sendo associados a impurezas, são
eles próprios «impuros». Os interpretes modernos, tentando esclarecer as
representações que acompanham o ritual, falam antes de uma concepção material da
desgraça, a qual seria transmissível pelo contacto, mas poderia ser igualmente
isolada, concentrada e eliminada. Na prática, não seriam necessárias muitas
palavras e nenhuma explicação detalhada, pois a função social era manifesta e
eficiente de modo imediato.
Os rituais de purificação são correntes no antigo Oriente e no Velho Testamento.
Homero não só refere as «vestes puras» e a lavagem das mãos antes da oração e do
sacrifício, como também a purificação do exército inteiro após a peste. Nas suas
obras encontram-se prescrições específicas detalhadas. No mito foram
incorporadas «purificações» para curar a loucura - Melampo e as prétides- e
absolver o crime de sangue - Apolo e Orestes.
O problema do homicídio e do homicida, a sua influência ao longo das gerações e
a sua superação pela «purificação», parece ter passado cada vez mais a primeiro
plano no decorrer do Sec. VII. O oráculo de Delfos desempenhou aqui um papel
primordial, ainda que explorando tradições locais sempre que possível.
A par disso apareceram «sacerdotes de purificação» específicos, que prometiam
auxílio em caso de epidemias e desavenças civis. O mais famoso, Epiménides de
Creta, purificou Atenas da «profanação cilónica» pouco antes de 600. As famílias
e os particulares também se inclinavam a fazer remontar uma infelicidade a uma
velha «calamidade», ao «rancor» de um poder secreto. Da prática do ritual
desenvolve-se uma noção de culpa na figura da «impureza»- a purificação torna-se
redenção.
Com uma tal interiorização o ritual, obviamente, logo é posto em questão. Já em
Hesíodo, à dimensão exterior correspondia uma interior, quando ele avisa para
não atravessar um rio «sem lavar nem as mãos nem a ruindade».
«Impuro é quem é mau na sua alma», formula mais tarde Platão, e mesmo um orador
(Demóstenes) pode exigir que um sacerdote não se deve «manter limpo durante um
determinado número de dias, mas sim ser puro durante toda a sua vida».
«Pureza significa pensar em coisas piedosas», dizia-se num verso muito citado
que foi gravado na entrada do santuário em honra de Asclépio em Epidauro.
(Citado por Porfírio).
De facto, tal não era encarado como desvalorização das formas exteriores de
piedade, mas como aprofundamento das mesmas, que só penosamente eram conservadas
intactas. Na esfera da «purificação», o ritual e a reflexão ética podiam assim
transformar-se um no outro ininterruptamente.
Daniel Teixeira