Pagª 33 - EDIÇAO NºLII, I NUMERO  DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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NA ILHA DE S. VICENTE

Crónica por João Furtado

Nunca senti tão só como estou a sentir há dois dias. Esta viagem a Ilha do Porto Grande, não posso dizer que não foi planeado, mas também não posso afirmar que estava convicto que a ia realizar. Há meses que tenho tido mil promessas de viagem em trabalho que tudo se desfez como nuvens nesta terra de pouca chuva. Bem não se pode dizer que este ano choveu pouco.

Muito pelo contrario, foi um ano muito promissor, este ano choveu e até a barragem, confesso envergonhado que pensei ser um desperdício de dinheiro o governo investir numa barragem na nossa ressequida Ilha de Santiago, encheu e com ela a esperança deste povo. Mais uma vez o povo teve muito pouco tempo para se sentir feliz e tão igual aos felizardos do mundo. Do nada surge um surto de Dengue e tudo se torna triste e a preocupação até faz o governo dar um dia para limpeza total das cidades e vilas, limpou-se mas o Dengue continua… Infelizmente…

Perece que ninguém acreditou que o problema é tão sério como se veio a comprovar. No princípio os primeiros casos foram vistos à boa maneira boémia caboverdeana. Lembro-me da Patrícia, minha sobrinha - filha, eu estava muito triste, acabara de vir do funeral do meu amado e estimado pai. Ela sentiu febres altas e fomos ao hospital, ainda quis ficar com ela em casa, mas a Lisita quase me obrigou a ir… chegamos, a urgência estava cheia, com sorte, nem sempre tenho comigo esta companheira, o servente era meu conhecido e sabia da muita recente morte do meu pai e me fez entrar com a Patrícia. Ouve a reclamação de dezenas de vozes, mas ele recorreu a expressão «rastreio» não calou a revolta dos outros pacientes, mas se sentiu melhor com ele próprio…

O médico mal viu a Patrícia. Fez algumas perguntas de praxe e, já tinha a receita feita, assinou e nos entregou dizendo:

- E «sacudin djan ben»[i], não a deixa cair na cama, ela deve se alimentar bem e tomar «paracetamol» e «vitamina C»….se não vomitar, não há com que preocupar…

Três dias depois ela se tinha recomposto e tudo se tornando normal e eu no ostracismo que me coloquei com a morte do meu pai, a ausência da minha mulher que se encontrava nos Estados Unidos em tratamento, só vim a saber que a Patrícia teve Dengue quatro ou cinco dias depois, quando recebemos a visita de uma técnica de laboratório. Na verdade a visita era para meu irmão. Ela afirmava que já se confirmou que era Dengue. Que o Laboratório Pasteur de Senegal havia confirmado e o meu irmão, céptico, afirmava que não podia ser…

-Vocês não sabem o que é Dengue de certeza! Dengue não é qualquer doença, ela não é qualquer febre, não senhor, Dengue é perigosa e mortal…

Não havia maneira de o convencer. Eu entrei no barulho, para ver se defendia a coitada, mas rapidamente vi que ambos, eu e ela, sairíamos derrotados…como poderiam as autoridades sanitárias estarem tão pacificamente estalados perante a ameaça de uma tamanha doença?

Meu irmão vive nos Estados Unidos e não esta habituado a nossa maneira crioula de ver as coisas… dois dias depois aconteceu o primeiro óbito e com ele o despertar da nossa consciência crioula. Tão rapidamente o alerta surgiu do nada. E Graças a Deus a postura dos hospitais e entidades sanitárias se mostraram a altura do acontecimento. Afinal sabemos nos agir, quando a nossa consciência se desperta…infelizmente tivemos que nos deparar com seis casos mortais, para vermos quanto o Dengue, bem não se pode resumir em «sacudin djan ben».

A urgência revelou-se pequena, mas algumas tendas e muita ajuda internacional e um «djunta mon»[ii] dos médicos Caboverdianos revelaram-se eficaz. Ninguém pode jurar que esta fora de perigo de uma dengue hemorrágica, mas ninguém pode acusar ninguém de negligência. Todos têm cumprido seus papeis…não obstante termos de adicionais à Dengue a gripe A e outras doenças, creio eu, com sintomas semelhantes, graças a Deus até hoje, tivemos apenas seis óbitos.

Nem tudo foi péssimo, com a morte do meu pai, não só o meu irmão veio dos Estados Unidos, como as minhas duas irmãs vieram de S. Tomé e Príncipe. Ninguém me pode condenar por me sentir feliz com o reencontro. Pela primeira vez, há 25 anos nos reunimos todos no mesmo espaço. atenuou um pouco a dor pela morte do meu pai, a saudade pela ausência da minha esposa e da minha Nuna...

Mas a preocupação voltou quando uma delas apanhou a Dengue. Não foi tão passageira como a da Patrícia, ela teve 10 dias de febre e vómito. Vivemos 10 dias entre centros de saúde e banco de urgência. Graças a Deus não teve sequela e passados os 10 dias tudo voltou a normal, só que foi no mesmo dia que o meu irmão regressaria aos Estados Unidos… elas ficaram mais alguns dias e depois, a vida continua, tiveram que regressar para S. Tomé. Graças a minha irmã, tirei a cabeça da arreia e vi a desgraça humana. Como é possível que…

Um simples mosquito, que ninguém nota se existe tornou-se o terror desta terra. As outras ilhas já começam a sentir o mesmo efeito da dengue, mas felizmente os casos estão a reduzir, espero que brevemente se torne a falar de «sacudin djan ben» a boa maneira crioula, com humor de uma saudade indesejada…

Entretanto a minha mulher chegou há duas semanas, vai ter que regressar de novo. Gostaria de estar ao lado dela neste momento, mas me encontro sozinho, no quarto desta pensão, aqui no Mindelo, Ilha de São Vicente. Estou a trabalhar quase 9 horas, quase 10 por dia, para ver se o tempo passa mais rápido.

Tenho saudades de casa, da minha Nuna, que esteve fora a acompanhar a avó e que tornará a ir. O tempo não passa, a noite é longa. Esta semana irei lançar o meu primeiro livro, no dia 27 de Novembro, quase nem penso neste grande acontecimento há muito esperado, mas sempre que me vem a cabeça, sinto um friozinho.

João Furtado

S. Vicente, 25 de Novembro de 2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A NOIVA DE PRETO

Conto por João Furtado

A Sofia estava no último ano do Liceu. Ela tinha boa nota e queria continuar com média alta para poder ser merecedora de uma bolsa de estudos. Sabia que os pais não tinham meios para lhe pagar e os irmãos ajudavam, mas não queria ser uma sobrecarga. Queria estudar por mérito próprio. A ordem era estudar, estudar, estudar.

Sabia que tinha de ir ao casamento da Lolita. Tinha que perder horas, talvez todo o fim-de-semana com um casamento que se adivinhava terminado desde o início, mas não podia faltar. Não podia fazer uma desfeita desta à uma amiga de há longos anos, a prima querida.

Não podia faltar ao casamento e nem queria suspender o estudo nem um minuto, por isso, levantou cedo naquela manha igual a muitas outras. Uma manha de sol e vento. O sol e o vento que tudo seca. Pegou nos cadernos e livros e foi até sala estudar. Ela tinha o PGI - Prova Global Integrado.

Abriu um livro e começou a ler. Ainda não tinha lido uma página, quando o telefone começou a tocar. «Que seria naquela hora?» pensou, levantou e foi atender:
-Alohhhhh
-Bom dia, sou eu, a Lolita!
-Lolita, que esta a passar, você esta triste? Não parece nada uma mulher que vai casar no próximo sábado!
-Estou bem e deixa-te de troça, bem sabes que não desejo este casamento!

-Então porque casas com ele? Já não estamos no século XIX, estamos quase no XXI. Estás grávida? Mesmo se estivesses, agora o que há a mais são mães solteiras.
- Tu não entendes nada, Sofia. Estamos noutros tempos, mas de mim ninguém faz troça. Ele abusou de mim e tem que casar comigo.
- Mas vais viver ao lado de um homem a vida toda, só porque aconteceu o que não devia?
- Ele vai saber quem sou eu, ele vai saber!
- E tu já sabes quem é ele? Olha que cada pessoa é um mistério. Ainda estas a tempo de desistir desta loucura.

- Nunca, casarei, nem que seja a ultima coisa que faça neste mundo!
- Continuas a ser a mais teimosa da família!
A Sofia deu a entender que queria desligar o telefone, que a conversa havia terminado, que…Já que não conseguia convencer a prima…A Lolita entendeu e disse:
-Mas não foi para receber teus conselhos que liguei, Sofia, liguei para te dizer que vais ser a minha madrinha!
-Como? És maluca? Há três dias de casamento é que você me diz?
-Tens a certeza que te digo só agora? Tenta lembrar das nossas conversas…

Sim ela lembrava, a Lolita sempre a tinha dito que era ela quem seria a madrinha do casamento dela. Até esperou que fosse, mas como os acontecimentos se precipitaram e como ela nunca mais falou nada sobre o assunto, esqueceu, esqueceu pura e simplesmente.
-É difícil dizer-te não, mas…
-É impossível dizer-me não, és minha madrinha e pronto.

-Onde irei sair com a roupa de madrinha em três dias?
-Não precisas, qualquer vestido serve, se tivesses tempo…, não deixa para lá, qualquer vestido serve. Não vai ser de cerimónias, o casamento vai ser simples.
-O que querias dizer e não falaste?
-Deixa para lá!
-Fala, sabes que também posso ser teimosa, quando quero, fala!
-Farias um vestido de saco, daqueles que trazem milho!

A Lolita deu uma gargalhada que mais pareceu um grito de desespero e desligou o telefone, sabia que a Sofia iria ser sua madrinha. A Sofia também desligou a telefone e volto a sentar e a estudar. Sentiu-se triste pela Lolita, uma forte tristeza, sem dar por isso, as lágrimas começaram a lhe escorrer face abaixo. Sabia do sonho da Lolita. De quase todas meninas, principalmente do interior de Santiago.

Entrar virgem na igreja. Da cerimonia pós-casamento. Da exibição publica do lençol com vestígios da virgindade guardada e oferecida ao noivo. A família do noivo em procissão, dançando e cantando, até a casa dos pais da noiva entregar a prova da honestidade. Os tempos deixaram de ser o que eram, mas o orgulho e a honra nunca morrem. Mas para a Lolita tudo havia acabado a preço de uma boleia.

A Lolita havia lhe contado tudo. Havia confiado no Armando que ofereceu-lhe a boleia para a levar a casa. Nunca imaginara acabar numa pensão no Tarrafal ferida e humilhada no seu orgulho. Alias todos acabaram por saber.

A Lolita não era mulher para deixar passar em branco tamanha afronta. Não permitiu que o Armando lhe abandonasse. Não regressou para casa dos seus pais, mas sim para a família do Armando. O pai dela, que também sentiu-se ferido no orgulho familiar, colocou o Armando entre espada e parede, ou o Armando casaria com a Lolita ou a honra da filha seria lavada. A Sofia reviu tudo enquanto chorava. Chorava pela prima e amiga. A Lolita não merecia tamanha desgraça.

Não soube quanto tempo chorou. Não olhou para o relógio, mas teve a noção que havia sido uma eternidade. Foi o telefone que a fez regressar a realidade de novo. «hoje, não, este telefone não para de tocar. Será a Lolita de novo?». Levantou e foi atender.
-Alohhhh
-Sofia! Sou eu o Jeremias, tudo bem?
-Tudo, mano, e tu? Como estas?
-Estou bem, mas você me parece triste!
-Não é nada, mano!
-E sim, Sofia, te conheço, tua voz esta a parecer que estavas chorando!

-Não é nada grave, foi a Lolita!
-Aconteceu alguma coisa com ela?
-Não, nada, ela vai se casar, no próximo sábado!
-E dai? Isto já sabemos…
-Só que ela esqueceu-se que precisava de madrinha e…
-E…
-Acabou de me ligar e me informar que serei eu a madrinha!
-É casa para choro? Olha, o José de Mato-Raia vai amanha e vou mandar uma coisa com ele.
-Mas o José de Mato-Raia foi no ano passado e já esta a vir de férias?
-Não é bem férias. Foi apanhado numa rusga, já ouviste falar de «O AVIAO»?
-Não!

(Continua)