Pagª 31 - EDIÇAO NºLII, I NUMERO  DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

Agenda de EventosEmail BlogMotor de BuscaNewsletter AVALIE-NOSLivro de Visitas Anuncios Gratis Homepage Album FotosIndice Geral Arquivo


JORGE COELHO

Escrito por Arlete Brasil Deretti Fernandes

O menestrel do amor, da natureza e da vida, em seu recente livro Triângulo das Bernunças, cita logo abaixo do criativo título: «Somos assim meio gente, meio Bernunça, ora o mundo nos engole, ora engolimos o mundo».

Natural de Imbituba, Santa Catarina, JORGE COELHO desde muito jovem manifesta a sua vocação pela música e pelas poesias reveladas nas canções gravadas em seus CDs.

Jorge começou a tocar violão aos 16 anos, influenciado pelos Beatles e pela Jovem Guarda. Aos 18 anos fazia parte de importantes grupos musicais da Região Sul do Estado Santa Catarina onde já se destacava como compositor.

Em 1967, mudou-se para Florianópolis onde formou-se em engenharia em 1975 pela Universidade Federal de Santa Catarina. Neste período continuou compondo e estudando violão, influenciado agora pela MPB.

Em 1997 recebeu o prêmio Projeto Cultura Viva da Fundação Catarinense de Cultura, e lançou seu primeiro CD – Paixão Açoriana.

Em 1999 lançou Zimba e, em 2003, Farol dos naufragados. Em 2001 fez a trilha e a direção musical do filme Ilha, curta-metragem dirigido por Zeca Pires, classificado para o Festival de Gramado.

Em 2005, Jorge participou de show nos Açores. Em 2006 foi convidado pelo governo açoriano para participar do projeto Construir Cultura, que resultou em um livro em um livro-CD.

Jorge tem um excelente conceito no meio artístico. Há pouco estreou como escritor, com o livro Triângulo das Bernunças.



Ele tem uma musicalidade privilegiada e uma alma sensível, e é daí que se destacam de suas composições a vibração musical e a letra extraída da própria vida em suas performances mais belas.

Todos os seus CDS revelam a beleza sem igual dos nossos mares do sul, desde a Ilha de Santa Catarina com seus misteriosos navios naufragados, até o lindo mar da Zimba. (Imbituba).

Para penetrar melhor na obra literária e musical de Jorge Coelho, é importante ouvir algumas de suas músicas e de suas letras, por isto achei por bem anexar o resumo de divulgação de um de seus CDs, FAROL DOS NAUFRAGADOS.

FAROL DOS NAUFRAGADOS

Jorge Coelho lança seu novo CD, marcado pela diversidade rítmica e pela poesia instigante, inspirada em nosso cotidiano e nossa história.

O título do disco é baseado em uma das faixas do CD. Essa música nasceu do contato do compositor com a história da Praia dos Naufragados, localizada no extremo sul da Ilha de Santa Catarina. Uma praia de beleza rara, quase deserta, cujo acesso em terra, só se dá por trilhas. Conta-se que este nome surgiu de um episódio ocorrido naquela praia com um grupo de 250 imigrantes açorianos, em 1753, que, seguindo determinações da Corte Portuguesa, partiram em dois navios para o Rio Grande do Sul.

Uma tempestade inesperada, porém, fez com que as naus fossem a pique causando a morte da maioria dos embarcados. Este episódio chamou a atenção de Jorge e o levou a compor o fado chamado «Faróis dos Naufragados».

Enquanto o ritmo traz a cena traços das nossas influências portuguesas, a poesia sugere em metáforas, uma reflexão sobre as nossas desigualdades sociais, com os poderosos no «luxo naus capitânias» e a súplica dos excluídos (naufragados), por uma luz, uma chance, um farol...

Além da música título, são mais 13 composições com ritmos dos mais diversos como salsa, samba, bossa nova, samba funk, bolero e que formam um conjunto harmonioso, bem temperado e agradável ao ouvinte. O terceiro CD da carreira de Jorge Coelho será lançado nos dias 20 e 21 de novembro, às 20:30h, no auditório do Colégio Menino Jesus, no Centro de Florianópolis.

UMA CANÇÃO: A metalinguagem é a tônica desta letra. Reflete a angústia do compositor diante do desafio de querer criar a letra de uma música e não conseguir. «Na verdade, nesta música eu exercito o sofrimento pelo desafio da criação», explica Jorge. A música tem a participação especial de adolescentes dos corais do Colégio Menino Jesus e do Colégio Coração de Jesus. O arranjo é do parceiro Marcos Rocha que deu uma «cara» espanhola à música.

DESEJO ABSTRATO: «Tem tudo a ver com o tema do CD», diz Jorge. A letra e a música são de autoria de Carlos Augusto Vieira, um violinista de Florianópolis. A cantora Gisele Vianna, numa interpretação impecável, faz com Jorge o dueto apropriado para essa bossa nova da melhor qualidade.

LEMBRANÇAS: Música nacionalmente consagrada, de autoria de Benil Santos e Raul Sampaio, interpretada por diversos artistas de renome como Nelson Gonçalves, Miltinho, Maria Betânia e outros. Sobre esta música, Jorge diz «É como um presente a minha mãe. Ela adora esta música e eu também. Com esta gravação, simbolicamente, eu consolido a cumplicidade entre mãe e filho embalada pelo mesmo gosto musical».

TEU LUGAR: Foi uma das poucas vezes em que Jorge assumiu o desafio de compor uma música por encomenda. Trata-se da trilha sonora do filme «Ilha», do cineasta Zeca Pires. Jorge recebeu o roteiro do filme e compôs a música baseando-se apenas na narrativa da trama do filme, dividido entre alegrias e tristezas. «Quando a terminei de compor eu estava muito, muito emocionado. Eu tenho um carinho especial por ela», fala. 

(Continua na coluna seguinte)

 

 



Rancho de Amor a Ilha arranjo de Jorge Coelho



MAU JUÍZO: O sambinha quase entrou no CD Zimba, mas Jorge resolveu guardá-lo para uma outra ocasião. Encaixou-se perfeitamente à concepção do «Farol dos Naufragados» até porque, fala dos sofrimentos, das tormentas e tempestades geradas pela desconfiança entre pessoas que se amam. Novamente, aqui, a participação de Gisele Vianna é notável.

E SEMPRE ASSIM: A letra deste refinado samba é um drama do cotidiano, cuja experiência, por certo foi ou ainda será vivida por muitos de nós e pelo próprio compositor que afirma: «Por amor, um dia, já me senti um náufrago».

CRISTAL DE ROMÃ: É a composição cujo arranjo de Marcos Rocha imprime uma característica inovadora neste trabalho de Jorge. São inserções de timbres eletrônicos se contrapondo a poesia singela que compara a beleza dos cristais da fruta romã ao encanto da musa inspiradora.

TEUS LUMES: Está na poesia a grande força desta feliz mistura de samba canção com bossa nova. Luzes que inspiram desejos de amor e paixão, sensualidade e cumplicidade. E tudo deságua numa sonoridade harmoniosa onde o solo do trompete de Fidel Piñero beira ao sublime.

HAVANA: Jorge Coelho compôs a música, fascinado pelo filme «Buena Vista Social Club». «A salsa é um gênero encantador. Cuba é um país naufragado na lama da perversidade capitalista em que vivemos, mas sua música tem um vigor irresistível. A alma de um povo a expressar sua dignidade ao som de tumbadoras, maracas, timbales... e tudo com muito «swing» e alegria. Isto me apaixona!», diz Jorge.

DEPOIS ME CONTA: O samba funk é uma provocação e, ao mesmo tempo, um alerta a todos aqueles que na luta diária pela sobrevivência nos grandes centros urbanos, perderam o contato com o mundo natural, naufragados que estão, entre ternos, papéis, gravatas e ar-condicionado.

CANTIGA PRA JULIA: A música é dedicada a sua filha. «São versos que refletem os conselhos de um pai, mas que, além disso, traduzem confiança e apoio ao adolescente numa idade de decisões importantes pra vida toda. Acho que ela vai gostar» diz o autor.

TE ENDOIDECER: Uma balada de amor em estilo pop é a definição do compositor para esta música. Tem um pouco de Zé Ramalho, de Adriana Calcanhoto, de Rita Lee e de Kid Abelha. «Gravei com violão de aço pra entrar no clima e me surpreendi com o resultado. Ficou muito agradável».

ILHEU POR DEVOÇÃO – Um autêntico samba-enredo. Uma saudação aos manezinhos e ao seu lugar. Ao mesmo tempo em que enaltece a beleza da nossa Ilha, cita as figuras que fizeram e fazem a cara da cidade e que ajudaram a construir a imagem de um lugar cheio de magia e de histórias pitorescas. Dentre estas figuras estão Saul Oliveira, Zininho, Miguel Livramento, Roberto Alves, Içuriti Pereira, Aldírio Simões, Dete Piazza, Nega Tide, Franklin Cascaes, Guga, Cacau Menezes, Irê, Parú, Ricardinho Machado e muitos outros Ilhéus ilustres.

O samba fala também da Praça Quinze e do Miramar, e não é por acaso. «Meu amor pela Ilha vem de muito cedo, apesar de ter nascido em Imbituba», explica. Jorge relembra que vinha passar as férias em Florianópolis na casa de sua avó, no centro da cidade, e saltava do ônibus bem em frente ao Miramar. «Eu ficava impressionado com aquele barzinho, estilo trapiche, os adultos bebendo e as crianças saltando para um mergulho nas águas ainda límpidas da baía sul. Foi paixão a primeira vista», descreve.

JORGE COELHO ESCRITOR

TRIANGULO DAS BERNUNÇAS

Com todo o bom humor que faz parte de sua personalidade, Jorge explica o porquê do título de seu livro: TRIANGULO DAS BERNUNÇAS.



«Em que lugar teria que
Ser o meu começo,
Se não a Imbituba, minha
Amada Zimba?»


«Teria um lugar melhor para
Um banho de cultura,
Nos tempos de colégio,
Que não
A Laguna de Anita
Garibaldi?»


«E qual lugar melhor pra
Fechar esse triângulo
Que não Florianópolis,
Com sua Ilha da Magia,
Reduto maior de
Bernunças com jeito de gente
E de gente com jeito de Bernunça?»

 

Jorge foi muito feliz ao escolher o título de seu livro. E em conseqüência escrever sobre os momentos que viveu desde a sua infância até a sua juventude. Muitos acontecimentos alegres, daqueles que ficam guardados no cantinho do coração.

Em 1973, Federico Fellini, cineasta italiano, filmou a emocionante obra ‘«Amarcord» , na qual recordava através de algumas disfarçadas auto-referências a infância vivida em Rimini, sua cidade natal.

Em alguns dos dialetos da Itália , «Amarcord» significa «Eu me lembro». Ali está presente o substantivo latino cor, «cordis», que quer dizer coração.

Como diz o consagrado jornalista Sergio da Costa Ramos neste prefácio: Há algo de feliniano nas lembranças de Jorge, revivendo seu Amarcord na Zimba...

As narrativas vêm a partir de um ponto de vista interno, de primeira pessoa. Os fatos nos chegam diretamente através do narrador que os vivenciou no todo ou em parte.

O narrador, além de agente da ação, funciona como observador e catalisador da ação e das várias perspectivas que se entrecruzam, como se, colocando-as lado a lado uma série de cenas e quadros, terão um efeito cinematográfico.

Jorge conduziu com muita felicidade todos os elementos, no sentido de uma perfeita integração harmônica. Espaço, linguagem, personagens, temáticas, que se complementam num universo forte e realista de muito bom humor.