EDIÇAO NºLIII
, II NUMERO DE JANEIRO DE 2010 -
COMENTARIOS
Ventos no Ciberespaço
Descrição Candanga da expectativa que caracteriza a ansiedade por chuva.
Por
Sandra Fayad
Descrição Candanga da expectativa que caracteriza a ansiedade por chuva.
Hoje os ventos estão me acenando da janela.
Anunciam que do céu virá água potável
Para abrandar a seca, aguçar nossa quimera
Com poesias, por um tempo leve, saudável.
Se vamos vivê-lo? Não sei se o viveremos.
Parece faltar tempo para vê-lo acontecer,
Embora sintamos voar o tempo que temos
Em transformações, sem tempo para absorvê-las.
- Até os ventos ingressaram no ciberespaço!
No alto, as nuvens nem se formam mais.
Segue a poeta acelerada, em descompasso,
Sem solo sob os pés ou céu para seus ais...
30/09/07
No final do primeiro semestre do ano civil, as rachaduras rondam faceiras nossa
pele viçosa.
Os ventos que antes traziam gotas de orvalho agora fazem dançar as folhas amarelas das grandes árvores; movimentam-se verticalmente formando círculos progressivos em direção aos telhados dos edifícios e das casas, no primeiro momento.
Entopem as calhas, que começam a cair no esquecimento porque, com certeza absoluta, estarão em desuso nos cinco meses seguintes.
Depois folhas misturam-se aos papéis, plásticos e grãos de terra arenosa, ampliando o volume heterogêneo no visual de mau gosto. Rolam unidos e depois separados sobre o solo, ultrapassam ruas asfaltadas, gramados irregulares para dançarem um balé sufocante, sem esforço, diante dos nossos olhares desolados.
Entorpecem nossa vontade de abrir os vidros embaçados das janelas das residências e as pálpebras ressecadas, que cobrem a íris opaca.
Nesse vai e vem desprovido de sintonia, nos cobrimos de cremes e tomamos nosso assento no camelo imaginário que insiste em se fazer presente nos nossos pesadelos.
Partimos para a hibernação sempre imperfeita, sempre incompleta, na companhia indesejável da Aridez, hóspede disfarçada de naturalidade, que domina o Planalto Central do Brasil. Chega como chegam certos políticos de caráter questionável à Capital da República, com intenções escusas, sem relação afetiva com a terra em que se instalam.
Tanto em um quanto em outro caso, vem apenas de passagem (ainda bem!). Se pudéssemos abreviaríamos sua permanência. Um não assusta o outro. Mas nós, nativos e candangos (*), ficamos com pouco oxigênio para respirar.
(*) nativos são os brasilienses registrados a partir de 1957 (a primeira criança nasceu em Brasília em março de 1957 e foi batizada pelo presidente Juscelino Kubitschek, recebendo o nome de Brasilinda);
candangos são os trabalhadores procedentes de todas as partes do País entre 1957 e 1969, que ajudaram a construir a capital.
http://www.sandrafayad.prosaeverso.net/
Memória de Natal
Por
Daniel Teixeira
O período do Natal é sempre um tempo para memórias e mais memórias. Ele são aquelas memórias que nos acompanham no dia a dia, as que aparecem especialmente para festejar connosco o período natalício e por último e para mim as mais importantes por agora, há aquelas memórias que nos são contadas por aqueles que encontramos nas nossas carinhosas consoadas e que normalmente apenas vemos uma ou duas vezes por ano ou nem isso.
E claro que se nós vemos essas pessoas que trazem memórias apenas uma ou
duas vezes por ano, elas também nos vêm a nós uma ou duas vezes por ano e
salta-se desde logo e muitas vezes com aquela afirmativa pergunta cuja
resposta se divide depois em fases: «Então o que há de novo? Tudo bem?»
Normalmente as respostas dividem-se consoante a idade das pessoas e a sua
condição familiar, económica e social do momento. Quem está pior do que
estava no ano anterior tem sempre tendência a dizer que «está tudo na
mesma!» porque não tem ainda (e sublinho o ainda) embalagem suficiente para
nos fazer o choradinho do ano anterior. Esse choradinho tem de ser
acompanhado, não à guitarra ou ao piano, mas tem de parecer sempre ser um
choradinho por despoletamento remoto. Do género:
«Eu até nem ia falar nada disto, mas a tua prima (tia, irmã, irmão, cunhada,
sogra, avó, avô, etc.) quando se queixou à bocado do reumático (das dores
nas costas, da operação ao furúnculo, etc.) acabou por me puxar coisas que
eu não tinha vontade de dizer aqui, nesta maravilhosa noite de consoada,
mas...». E depois vem a história, a verdadeira história que por alguns
minutos ou algumas horas se escondeu debaixo do «está tudo na mesma»
anteriormente dito.
Então não é que não só não está tudo na mesma, o que já era mau, como ainda
por cima a coisa piorou? O processo de queixa é um processo contínuo ou em
estilo dominó, pelo que a nossa tendência, de auto-defesa, legítima -
diga-se de passagem - é desde logo arrastar o nosso interlocutor para um
canto onde ele se nos possa queixar baixinho sem que os outros o ouçam.
Para ele é bom (sempre está mais á vontade e sem temores ou vergonhas
públicas) e para nós é óptimo porque impedimos assim na nossa fraca
possibilidade o escalar do efeito dominó da queixa na sala. Não resolvemos
nada, apenas ouvimos atentamente, metemos uma colher de quando em vez para
não dar ao outro a impressão de que está a monologar estando de facto a
monologar. Quando a coisa começa a direccionar-se para as lágrimas vamos
rápido buscar o mantimento da alma (vinho, cerveja, champanhe, whisky ou
mesmo um rissol de camarão para acompanhar) e ouvimos, ouvimos e ouvimos.
Não pensem que se trata de qualquer cinismo da minha parte quando confesso o
meu comportamento assim: é assim mesmo que ele deve ser porque o nosso
interlocutor quer apenas queixar-se, não quer sugestões para resolver os
seus problemas. Os problemas dele conhece-os ele melhor do que qualquer um e
as soluções que nós eventual e ingenuamente apontássemos já tinham por ele
sido tentadas, esgotadas e dado todas em resultado zero.
Mesmo aquelas soluções que eventualmente fossem originais, mesmo novas em
folha porque descobertas recentemente, encontravam sempre uma analogia, uma
desconfiança, e por fim uma certeza absoluta de que não iriam resultar. O
nosso conselho, a ter lugar - o que acontece amiúde com os inexperientes
nestas coisas - é assim como as promessas dos políticos em tempo eleitoral
ou outro: não é nunca credível.
E sabendo isto, como nós sabemos, afastamos a nossa opinião do campo lodoso
da política e ancoramo-la no cimentado parecer das mais idóneas entidades
(normalmente professores catedráticos, dá para tudo), mas...mas...e lá enfia
o nosso parente, directo ou por afinidade, no seu cepticismo prático de quem
sabe sempre que nada há a fazer. Por isso não vale a pena dizer nada, mesmo
nada. E só ouvir.
Mesmo que a seca seja enorme devemos ter presente o espírito da quadra e
puxar por ele sempre que a pachorra ameaçar com um palavrão. Finda a
jantarada, a ceia, a abertura dos presentinhos, os gozos com o riso do Pai
Natal, o nosso anterior interlocutor, por princípio ainda se achega a nós no
momento da despedida, esmaga-nos as costas com um abração e enquanto se
encosta ao nosso ouvido diz-nos «Olha que aquilo que eu disse fica só entre
nós, hã!» e isto quando nós ouvimos distintamente a mesma história ser
contada a fulano e a beltrano e a sicrano, todos presentes naquela noite de
consoada.
Mas é assim mesmo...no próximo ano temos a mesma história com as variações
que o tempo proporcionar. Daí talvez o tal «familiar» ou eu morramos
entretanto e já não haja história ou para contar ou para eu ouvir...mas esta
esperança dura precisamente 365 dias (ou 366) porque no ano seguinte há mais
e nenhum dos dois morreu ou simplesmente ficou impossibilitado na hora de
vir à consoada e nem sequer deixou da haver universalmente consoada, o que é
uma possibilidade que também deve ser levada em conta...faltam só 4 dias.