Pagª 5 - EDIÇAO NºXXXVIII , II NUMERO DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Olhar o passado para compreender o futuro
Por
Francis Raposo Ferreira
Há muitos anos vivia numa cidade, lá muito longe, um homem que parecia ter coração de pedra, parecia mesmo que não tinha era coração nenhum. É verdade, este homem vivia sem se importar com as desgraças alheias, ele cruzava as ruas sem se importar com o choro das crianças, com os mendigos que lhe pediam uma moedinha para comprar um pouco de pão ou dos mais diversos deficientes físicos que iam ocupando os seus dias a pedir para enfrentarem as agruras da vida.
No trabalho, ele, era implacável, não admitia a mais pequena falha que fosse e prontificava-se a despedir, de imediato, quem fosse responsável por actos ou atitudes que pudessem perturbar o normal funcionamento da empresa, não atendendo pedidos de desculpas, nem se preocupando com as consequências que esses despedimentos pudessem desencadear.
Mas um dia, há sempre um dia nas histórias, este homem ia a passar por uma rua e
viu um velhinho caído que solicitava ajuda, o nosso homem prontificava-se para
deixar o pobre velhinho entregue à sua sorte quando ouviu uma voz:
- Deixa lá, também um dia serás velhinho e precisarás de ajuda.
O nosso homem virou-se para o local de onde vinha a voz, e viu que se tratava de
um franzino rapazinho, olhou-o de alto a baixo, sentiu algum desprezo pelo
aspecto pobre do garoto e disse-lhe:
- Quem és tu, para falares assim comigo? Quando eu for velhinho terei dinheiro
suficiente para pagar a quem cuide de mim. Se todos trabalhassem como eu, já não
precisavam de andar pelas ruas a pedir ajuda.
O velhinho olhou-o bem nos olhos, facto que o deixou incomodado, não estava
habituado a que o desafiassem da maneira que aquele velho, todo sujo, mal
vestido e esfomeado, ousava faze-lo. Foi então que ouviu:
- É curioso como as pessoas mudam, quando o senhor tinha a idade deste jovem,
andava como ele anda agora, depois teve a sorte de alguém o ajudar. Ajuda essa
que agora recusa a quem precisa. Olhe que a nossa sorte está sempre a mudar,
hoje estamos por cima, mas amanhã podemos estar na mó de baixo.
O nosso homem sentiu um baque no coração, afinal ele sempre tinha coração, quem
seria aquele homem que ousava remexer no seu passado, e como é que sabia quem
ele era, há muito que abandonara o local onde fora criado e pensava que naquela
cidade ninguém o conhecia. Preparava-se para questionar o velhinho, quando
reparou como o rapazinho o ajudava a levantar. Arriscou e perguntou:
- Quem é o senhor? O que é que sabe de mim?
Ao contrário do que pensara, foi o rapazinho quem lhe respondeu:
- Como vê, este pobre velhinho conhece-o muito melhor do que aquilo que o senhor
pensa, aliás, sabe ele e sei eu também.
O nosso homem ficou ainda muito mais intrigado, não podia negar que aquilo que o
velho dissera correspondia à verdade, mas o que é que aquele miúdo podia saber
dele:
- Desculpem, mas não tenho tempo para estar aqui a ouvir as vossas idiotices.
Tempo para mim é dinheiro. Fiquem bem um com o outro.
Preparava-se para se afastar, quando ouviu o rapaz:
- Olhe senhor, gosta do meu relógio. Foi a minha irmã que mo ofereceu.
O nosso homem esteve tentado a não olhar para o garoto, mas lá acabou por se
virar. Ficou pálido, ele tivera um relógio exactamente como aquele, e, curioso,
também lhe fora oferecido por sua irmã.
- Ouve garoto, tu estás a conseguir deixar-me curioso. Diz-me uma coisa. Como te
chamas?
O homem sentiu uma emoção extremamente forte quando ouviu o velho pronunciar o
seu próprio nome:
- Francisco, o nome dele, tal como o meu e o teu é Francisco.
- Mas quem são vocês afinal? Como sabe você o nome desse jovem e o meu próprio
nome? De onde me conhece? Quem é você?
- Conheço-te desde há muito tempo, conheço-te melhor que tu próprio te conheces.
Sabes porquê?
- Não. Não sei. Quem é você? Quem é ele?
- Eu sou o teu futuro, isto que tu aqui vês é aquilo que poderás vir a ser se
não mudares.
- Como? O que é que está para aí a dizer?
- Isso mesmo que acabou de ouvir, ele poderá mostrar-lhe o que irá ser o seu
futuro, agora cabe-lhe a si decidir se quer ou não ver as hipóteses que tem.
- E tu? Quem és tu?
- Eu sou quem lhe pode mostrar tudo o que foi a sua vida até hoje, recordar-lhe
as coisas boas e as coisas más que já viveu e que tem andado a tentar ignorar.
- E aquela história do relógio?
- Recorda-se, estaria para aí nos seus nove, dez, anos, sua irmã ofereceu-lhe
aquele relógio, você vestiu uns calções lavados, uma camisa limpa e quis tirar
uma foto no quintal dos seus pais, entre as cebolas que ali cresciam, mas fê-lo
de modo a que o relógio ficasse bem visível na foto. Lembra-se?
O homem estava siderado, recordava-se perfeitamente bem do relatado pelo jovem.
Não, não podia ser, de certeza que eram dois charlatães quaisquer que se
preparavam para o tentar enganar.
- Vejo que ainda não estás convencido, nem o episódio que o jovem te acabou de
contar, te convenceu. Vou dar-te mais uma prova, só mais uma.
- Venha de lá essa prova.
- Muito bem, ainda há pouco, quando te preparavas para me deixar aqui caído, ias a caminho de uma reunião muito importante para o teu futuro, mas muito mais importante para o futuro de outras pessoas, ias disposto a despedir alguns dos trabalhadores que te ajudaram a chegar onde chegaste, e agora, ias despedi-los só para agradar aos teus superiores, sem te importares com o futuro daqueles que antes te ajudaram.
O homem não queria acreditar no que acabava de ouvir, era a mais pura das
verdades:
- Diga-me uma coisa.
- Podes perguntar o que quiseres, e podes tratar-me por tu, afinal somos, os
três, uma só pessoa, o passado, o presente e o futuro.
- Desculpem, o passado eu aceito que seja possível de se saber, o presente está
a viver-se, mas o futuro…
- Tens razão, o futuro não se conhece, mas pode projectar-se através dos nossos
actos.
- Bem, agora desculpem-me mas tenho mesmo de ir para a tal reunião da empresa,
este assunto dos despedimentos tem de ficar resolvido hoje.
- Se assim o preferes, vai lá despedir toda aquela gente. Não te esqueças que agora despedes metade, amanhã mais uns quantos, depois outros tantos, até que chegará o dia em que serás tu o despedido. Nessa altura estarás demasiado velho para arranjares outro trabalho, o dinheiro irá desaparecendo e um dia qualquer ver-te-ás caído neste mesmo local.
- Desculpe, está a querer dizer-me que não devo aceitar as exigências dos meus
superiores?
- Exactamente, deverás procurar uma maneira de não atirares para a fome, aqueles
que já te ajudaram e que te poderão voltar a ajudar.
- Nesse caso, supondo que eu aceitava essa ideia, qual seria o meu futuro?
- Isso não sei, terás de ir vendo situação a situação.
- E tu, rapaz, estás disposto a contar-me como foi o meu passado?
- Sim, bastará para isso que colabores.
- O que terei de fazer?
- Basta que dediques um pouco do teu tempo a recordar os teus amigos, as
brincadeiras de criança, os episódios que te foram marcando ao longo da tua
vida. Eu cá estarei para te ajudar a revivê-los. A propósito, lembras-te daquele
dia em que acompanhaste o teu pai até ao café onde estava a tua irmã,
recordas-te da forma delicada como teu pai a chamou até à porta do café e depois
a repreendeu longe dos olhares?
O homem estava completamente convencido, estendeu a mão ao seu passado e ao seu futuro, fez marcha atrás e dirigiu-se para casa, tinham muito que conversar. Compreendia agora como tinha andado ausente da vida, tinha vestido uma pele que não era a dele, preocupara-se mais com aquilo que os outros poderiam pensar e exigir dele, do que com aquilo que ele gostaria de ter feito. Mas ainda estava a tempo, o seu futuro assim lho dizia.
Deixou-se ficar em casa, dias e dias, a escutar o seu passado, recordou histórias maravilhosas, viu-se novamente criança a correr e a saltar, vibrou com os golos que marcara nos jogos de futebol entre os miúdos da sua rua, sentiu a cara a arder com a recordação da descoberta que sua irmã fez acerca da sua primeira namorada, a Noca.
Recordou episódios únicos dos seus tempos de escola, vieram-lhe à memória,
tantos e tantos episódios que julgava completamente apagados da sua vida.
Sempre que pensava em voltar ao trabalho, punha-se a recordar mais, e mais,
histórias de vida e ia deixando passar os dias. Até que um dia recebeu a visita
de um grupo de trabalhadores:
- Sr. Dr. estamos preocupados com o senhor. Aconteceu alguma coisa?
- Não. Não me aconteceu nada, resolvi tirar uns dias de férias. Como estão as
coisas por lá?
- O Sr. Dr. não sabe das novidades?
- Quais novidades, o que é que se passou?
- Então, há dias apareceu lá um magnata cheio de dinheiro, ficou encantado pelo
facto da nossa fábrica se conseguir manter a produzir normalmente e resolveu
fazer uma encomenda de material que nos vai dar trabalho por muito e bom tempo.
O homem não queria acreditar, já não precisava de despedir ninguém. Porque seria
que os chefes não lhe tinham dito nada?
Isso, só o futuro lhe diria.
Francis Raposo Ferreira