Pagª 18 - EDIÇAO NºXXXVIII , II NUMERO  DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

 

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Coluna

     
      Antônio Carlos Affonso dos Santos.

          ACAS, o Caipira Urbano.



Laudelina


Ipês

Ipê Amarelo

Conheci os ipês na minha infância, numa fazenda de café no interior de São Paulo, Brasil. Extasiava-me aquelas árvores soberbas, vestidas de roxo, rosa, amarelo e branco. Conforme aprendi com os mais velhos, aquela era uma árvores sagrada, posto que o Criador havia feito um trato com ela (árvore) para que elas se vestissem de festa para mostrar que, a cada ano, a vida se renova no final do inverno e chegada da primavera. Os ipês roxo e o branco florescem entre julho e agosto; o amarelo e o rosa, no início de agosto e estendem-se até meados de setembro, quando anunciam aos trabalhadores do campo que já é hora de preparar a terra para mais um cultivo de arroz e de milho.

Mês de agosto. Inverno no seu último estágio. Os pastos ressequidos pela ação das geadas abrigava um gado magro e sonolento. Com pouco para comer nas invernadas e piquetes, os animais aguardavam com paciência bovina e eqüina, o pouco de ração de cana picada e milho «silado em trincheira», que o fazendeiro sovina nunca queria fazer na quantidade suficiente. A poeira levantava com os redemoinhos de sacis dos ventos mogianos, nas estradas secas onde os roceiros de pés descalços, rachados pela ação frio e da terra alcalina, caminhavam nos campos onde os ipês solitários, coloriam aquele resto de inverno, com sua melhor e mais bonita roupa floral estampada. O inverno, normalmente uma estação triste e cinzenta, vestia-se de alegria, com os ipês floridos...

Ipê Rosa

Quando somos crianças, «o tempo corre devagar». Naquela época, o tempo era diferente: moroso como as vacas que voltam no fim da tarde, com os úberes murchos, mas com esperança de rever seu filhote e quiçá comer uma iguaria, que tanto pode ser sal ou cana picada, ou silagem. Tudo andava ao ritmo da natureza, nos seus estágios e estações naturais.

E os bosques da Fazenda São José ficavam todos enfeitados por dezenas de ipês floridos. Havia o ipê roxo, o ipê rosa, o ipê branco, o ipê amarelo. Muitos anos depois, já na vida citadina, soube da existência do ipê verde, tão raro quanto bons leitores ou beija-flores vermelhos. Há um consenso no interior do Brasil que o ipê tem sentimentos iguais aos dos humanos: se ficamos concentrando nossa energia, focados na realização de um sonho, de repente tudo muda. E muda para melhor. Este «Ponto de Desequilíbrio», faz com quê até pessoas das quais nada se espera, num momento de superação, façam algo que nos surpreende, que vai além das previsões mais otimistas.

Ipê amarelo – Arvore Símbolo do Brasil

O ipê (amarelo) é a árvore símbolo do Brasil. O nome ipê vem da língua tupi, e pronuncia-se «ype», e significa «árvore com casca grossa». A designação científica do ipê é: gênero Tabebuia, da família das Bignoniáceas. A madeira do ipê é muito comercializada, especialmente para revestir pisos, devido à sua alta resistência. A casca do ipê roxo é considerada uma panacéia para muitos males, inclusive para prevenção contra o câncer. Como curiosidade, destaco outros nomes com que os ipês são conhecidos no Brasil: páu-d’arco, peúva, peroba-de-campos, ipê-amarelo, ipê, aipê, ipê-branco, ipê-mamono, ipê-mandioca, ipê-ouro, ipê-pardo, ipê-vacariano, entre outros.

(Continua)

 

 

 

 

 

                         
                         Por: Cecílio Elias Netto

(Por especial gentileza do autor)

Sempre estiveram abertas e viçosas as flores de Laudelina. Quem passasse pela antiga casa, na esquina da 15 com José Pinto de Almeida, poderia vê-las, ainda que protegidas por grades, pedindo para serem roubadas. Pois as flores de dona Laudelina Cotrim de Castro surgiram para ser roubadas por moços enamorados.

Eramos uma cidade sem grades, num tempo sem prisões morais e sustos. Em noites de serestas, as flores de Laudelina ficavam assanhadas à espera de quem as roubasse para levar às janelas das namoradas, noites de serestas sob céus enluarados.

Pulava-se a mureta do jardim num fingimento comum: ela fingia não ouvir passos mansos no jardim, nós fingíamos que a estávamos enganando.

Quando passo por lá, não consigo deixar de pensar nas flores de Laudelina. E, talvez por essa tristeza que surge não se sabe de onde ou porquê, dá-me uma vontade danada de pular o muro, roubar rosas em plena tarde chuvosa, sair caminhando em busca de um violão e, então, sentar na sarjeta e chamar os amigos para cantar modinha de coisas de amor.

Pois estão muito feios os nossos tempos e parece que vão enfeiando até mesmo o amor.

E, na tristeza repentina de uma tarde chuvosa, as flores de Laudelina pareceram aqueles «psius» que ela sabia dar quando se deparava com tolices das pessoas.

É um «psiu» que permanece no ar, diante das tolices que vimos fazendo nesse ir sem saber para onde, nesse vir sem ter para o quê voltar.

A casa que foi de Laudelina fizeram bater uma saudade danada dentro do peito, saudade ou nostalgia não consigo definir, mas sei que melancolia doída como garoa fina caindo em folha seca.

Não sei se foram as rosas, se a ausência de Laudelina Cotrim de Castro o que começa a machucar e a doer, pois essa sensação de ausência dói e machuca.

Laudelina preenchia todos os espaços vazios de Piracicaba e sabia afastar qualquer tristeza.

Ela não suportaria viver em tempos tão amargos, mas não fugiria deles. Laudelina mudaria os tempos, pois ela era mulher de mudar, de transformar, de mexer.

E se o jardim da casa dela ficou é porque ela permanece viva em algum lugar e não a estamos vendo. O «psiu», agora, entra pelo coração. E fica incomodando.

Temos que mudar, é preciso mudar. Mas não sei o quê, nem como. E, talvez, estejamos cometendo equívocos terríveis pensando que as mudanças venham apenas pela política. Não virão. Há certezas enraigadas demais e, portanto, obstáculos a quaisquer mudanças.

Talvez, os tempos estejam pedindo que, no lugar de tantas certezas, passemos a ter mais dúvidas. Princípios é que precisam de raízes, certezas, não. Como as plantas de Laudelina que, enraízadas, se renovavam em cada florada.

Aquela notável mulher sabia viver a experiência do novo sem precisar da novidade, Laudelina tinha a sabedoria de manter vivo o eterno sem deixá-lo envelhecer.

São abençoadas as pessoas que vêem a presença do infinito em cada instante da vida.

A casa de Laudelina era como que um marco de confiança para os estudantes que, indo e voltando – sabendo para onde ir, tendo para onde voltar – subiam e desciam a rua 15, uma passarinhada garrulando em direção às nossas escolas.

De dia, as flores de Laudelina encantavam, perfumavam. De noite, davam piscadelas para ser roubadas. Eram tempos, sim, de saber que as rosas não falam, que as rosas trescalam.

Bate uma saudade danada no coração ao ver que não há mais jovens ladrões das rosas de Laudelina, pobres rosas solitárias à passagem da multidão. Sei lá. Ouvi um «psiu» no coração. E deu saudade de Laudelina.

Bom dia

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Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA

A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.

Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.

O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».

Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.